Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

Apresentação


Oficinas


Livros


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Destaque


Calendário

setembro 2018
D S T Q Q S S
« ago   out »
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30  

Arquivos


Usuários online

3 Usuários Online
Leitores:

1 Caranguejo
2 Escafandristas

Inaugurações

19 de setembro de 2018, às 13:05h por Samarone Lima

Estou em Fortaleza, metido num trabalho intensivo, só volto para a amada Olinda na primeira semana de outubro, e sigo com uma velha e estranha mania de ler jornais impressos (onde ainda existe isso no Brasil). Aqui, pela santa madre, tem o jornal O Povo, que, pasmem, tem bons cronistas, e pasmem, matérias sobre livros, escritores, boas entrevistas, até Ombudman. Como sigo com o velho e ultrapassado costume de recortar as melhores coisas que encontro nos jornais, dou uma boa retalhada no O Povo e, aqui-acolá, algo do Diário do Nordeste, que perde de longe em edição e texto.

Então, no jornal de hoje (18.09.2018), na coluna do Eliomar de Lima tem uma informação importante: “Show de Fagner vai reinaugurar o Teatro São José”.

A informação é importante porque reinaugurar um teatro construído em 1914 (tem, portanto, a idade do glorioso Santa Cruz Futebol Clube), num momento em que tudo no país ou está desmoronando ou sendo queimado, num momento em que o fascismo mostra todas as suas garras e venenos, reinaugurar um teatro é abrir portas para o sonho, a criação, a dança, a música, a arte em geral. O teatro estava fechado desde 2010.

Mas, como profundo conhecedor dos jornais diários, as coisas mais importantes não estão nas manchetes, mas em pequenas notas, no pé de página de alguma matéria, alguma frase que escapuliu da sanha de algum cabotino (queria muito usar esta palavra hoje, por saudades do meu amigo Arsênio, que usava ela com parcimônia), que se espalharam pelas redações de jornais como pulgas.

Pois bem. O teatro vai ser reinaugurado com um “Pocket Show” de Fagner. O que há de novo nisso? Desde que o teatro foi construído, Fagner está aqui pelo Ceará, com seu vilão debaixo do braço, com as velas do Mucuripe saindo para pescas, levando as mágoas para as águas fundas do mar.

Mas o Eliomar informa que o evento de hoje será para o prefeito, Roberto Cláudio, “autoridades e convidados”. Nada novo. O PIB primeiro, o povão, depois.

Mas eis que surge a conjunção “enquanto”, que vai mudar totalmente o rumo da manhã, porque me deu a oportunidade de escrever mais uma crônica semanal. Eu só soube que “enquanto” é uma conjunção, após longa pesquisa nos dicionários.

“… enquanto no dia seguinte, quinta-feira, também a partir das 19 horas, haverá ato especial para os trabalhadores e seus familiares para deixar marcado que o equipamento também pertenceu ao Círculo Operário de Fortaleza”.

Fui vasculhar o Diário do Nordeste, o jornal adversário. Fala apenas da inauguração oficial.

Então é isso mesmo. O show será só para as autoridades. Os trabalhadores e familiares, que deveriam estar na inauguração, sendo recebidos pelo prefeito, com tapete vermelho e show gratuito, vão ter um “ato especial”. Francamente… Os caras deram uma mola no restauro durante dois anos – agosto de 2016 a agosto de 2018, e no final vão ficar de fora da festa. O dia seguinte a uma inauguração, nem que seja um carrinho de cachorro quente comprado à prestação nas Casas Bahia, é sempre o dia seguinte, não tem mais graça.

Isso me lembrou uma aventura do velho Netão, amigão das antigas do Monte Castelo, bairro da minha adolescência turbulenta e início de juventude. Aconteceu há muitos anos, e sempre que nos reencontramos, relembramos. É bom escutar de novo certas presepadas.

O Netão é desenrolado todo. Ficou sabendo que o teatro José de Alencar, após grande restauro, seria reinaugurado com os cantores que faziam parte do LP “Cantoria”. Só tinha fera: Geraldo Azevedo, Elomar, Xangai e Vital Farias.

O Netão, claro, decidiu ir lá. Tentaria assistir, mesmo sabendo que o evento era só para convidados – os que trabalharam na obra. Foi com um casal de amigos. Salvo engano, meu irmão Paulinho e sua amiga, apelidada de “Formiguinha”.

Estava tudo bem cheio, mas o Netão deu um jeito de chegar bem perto da entrada, onde os seguranças regulavam a entrada. Já perto de começar o show, o velho amigo puxou a última carta da manga. Deu um suspiro grave e falou alto:

“É sempre assim.  Como diz a velha música, a gente faz parte da construção, mas depois não pode entrar”.

No exato momento, passava uma moça responsável pelo evento, toda no preto básico. Escutou a frase e parou, atordoada.

“O senhor trabalhou no restauro do Teatro?”

“Trabalhei, senhora”, respondeu Netão, com aquela calma de sempre, já com cara de triste. “Mas nem se preocupe, foi só serviço de pintura…”

“Mas na parte do restauro fino, nos detalhes?”

“Imagina, dona. Eu sou um reles pintor de parede”.

“Não me diga que o senhor trabalhou com seu Zé Pequeno…”

“O próprio. Grande Zé Pequeno”.

“Pois o senhor vai entrar é agora”.

O Netão às vezes exagera na dose:

“Posso não, moça. Vim com esse casal de amigos, e não vou assistir um show desses e deixar ele aí, no sereno…”

Cinco minutos depois, o Netão estava num dos camarotes do teatro José de Alencar. O casal se deu bem.

Foi uma noite inesquecível. Se der tempo, vou tentar ir ao Teatro São José com o Netão, hoje.

**

Vai um pouco da Cantoria que o Netão assistiu de camarote, na voz única de Vital Farias…

 

Postado em Crônicas | 1 Comentário »

1 comentário

  1. Pedro Disse:

    Sama, nem todos têm rede social e sentimos falta de seus textos. Não precisa ser sempre um texto grande, pode ser um breve relato das suas histórias. Desculpe o recado, mas é sincero.

Conversinhas

Nota: A moderação de comentários está ativada e isto pode retardar a publicação do seu comentário. Por favor, não envie o seu comentário novamente.