Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Sobre choros e lutas

29 de outubro de 2018, às 11:37h por Samarone Lima

Uma das pessoas mais importantes que conheci, e que jamais esquecerei, só conseguia chorar nas grandes alegrias.

Pois amanheci chorando, e creio que vou chorar até domingo. De emoção.
Explico.
Parecia que tudo estava sacramentado. O discurso da violência, homofobia, misoginia. A brutalidade das palavras foi incorporada ao cotidiano já violento.
E quantas pessoas que eu conheço, simplesmente falando de outra coisa. “É, mas o PT…”
E outras que eu jamais imaginara, deixando por menos. “É, ele fala umas besteiras de vez em quando mesmo…”
Besteiras? De vez em quando?
Acabar com ativismos é besteira?
“Metralhar”, “acabar com essa raça”, se referindo a um partido político (o PT), é besteira?
Há alguns dias, subindo uma das muitas ladeiras de Olinda, onde vivo, escutei um sujeito forte, parrudo, comentar com o outro, do mesmo tipo físico:
“Tem que acabar com essa raça mesmo”.
Lembrei que eu estava usando, do lado esquerdo do peito, um adesivo do Haddad/Manuela 13, e pensei nos anos terríveis que teríamos pela frente. Na verdade, pensei nos dias terríveis que já estamos vivendo.
Mas nos últimos dias, algo despertou. Como se um estalar de dedos tivesse rompido uma espécie de hipnose profunda, aguda, espantosa, para não dizer desesperante.
Cenas, movimentos, situações, mudaram radicalmente o cenário.
A paralisia do medo trincou.
Dizem que tem sempre algum gesto, uma palavra, uma cena, que faz isso.
Ontem, ao buscar o notebook na mesma assistência técnica de sempre, por detrás do Cine São Luís, o velho camarada me entregou o equipamento, paguei, a sala estava cheia, ele bateu no meu adesivo e disse:
“Vamos ganhar, visse!”
Ele estava falando comigo, mas mandando uma mensagem para vários outros clientes.
Era já tardinha/noite, fui tomar um sopa ali, perto da rua da Concórdia. Um sujeito negro, simples, que terminava de raspar o prato, pediu adesivo. Entreguei três. As atendentes pediram também. Sempre tenho material na mochila. O sujeito é guardador de carro,no entorno.
“A passeata do 13 vai ser gente até umas horas”, foi seu comentário, já com o adesivo no peito.
Isso era impensável, há 15 dias.
Mais gente nas ruas com adesivo, que passam e fazem um sinal positivo, o do reconhecimento. Como a dizer – “nós queremos Democracia, queremos respeito, cuidado, queremos ser governados para o bem comum, não por milicianos, não pelo fascismo”.
À noite, fui dar uma palestra numa Faculdade. O assunto foi poesia. Foi ótima a conversa, a turma fez muitas perguntas, um jovem poeta leu coisa suas. Coube a uma aluna fazer a última pergunta.
“Sim, mas como se posiciona neste momento político que estamos vivendo?”
Falei da gravidade, do Fascismo a galope, mas lembrei dos movimentos, da reação, das mobilizações em todo o país, até que abri a mochila e mostrei meu lote de adesivos.
Foi uma vibração coletiva.
Estava batucando este texto, quando veio o José, que sempre faz uns trabalhos pra mim, aqui em casa. Veio me ajudar a organizar umas caixas de livros.
“Professor, estamos virando o jogo”, foi a primeira coisa que disse.
Depois pedi a água mineral. Veio o mesmo gordinho de sempre, boa gente. Após pagar, estava fechando o cadeado, quando dei aquela última investida.
“Tás com quem, meu velho?”
“Tô com o Haddad, professor, que eu não sou doido”.
Até domingo, teremos uma longa estrada.
Hoje, a estrada vai nos levar ao pátio da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, no centro do Recife, para ver e apoiar nosso futuro presidente, o professor Fernando Haddad.
Como meu amigo que morreu há alguns anos e nunca esqueço, estarei lá, chorando, mas de felicidade.
Venceremos.

Para Edinaldo Miranda, sempre.

Postado em Crônicas | 8 Comentários »

8 Comentários

  1. George Guedes Disse:

    Samarone, infelizmente, dessa vez ódio e a ignorância saíram vencedores. Entretanto, como bem disse hoje Pepe Mujica: “os únicos derrotados são os que baixam a cabeca.”
    Não dou 6 meses para que muitos dos que votaram nesse nazifascista estejam arrependidos. Mas se tem algo de muito positivo nessa situação que estamos vivendo é saber de fato quem são as pessoas, exceções a parte, obviamente. Enquadro muite gente nesse bloco, não por terem votado no dito cujo, mas pelo que falaram e fizeram até aqui.
    A ignorância muitas vezes é uma bênção, mas na maioria delas…, dá nisso.

  2. Pedro Disse:

    Vamos resistir. Ninguém larga a mão de ninguém!!

  3. Agamenon Pereira Disse:

    Sendo objetivo:

    1. Ate entao o Bozo so falou, vamos ver o que faz, talvez nao seja tao ruim quanto a fala.

    2. O PT deu um grande tiro no pe. Realmente montou um esquema criminoso e corrupto em todas as estatais. Sangrou o pais para viabilizar a sua manutencao no poder. Fez isso de forma organizada e premeditada mais do que qualquer outro partido anterior a ele. O resultado ta ai. Dilma nem senadora se elejeu. Lindenberg idem.

  4. Pedro Disse:

    De esquerda,Progressista… denominem como quiser. Minha alma sempre será. Sempre!!

  5. George Guedes Disse:

    Prezado Agamenon, foi só isdo mesmo que aconteceu? Que visão mesquinha de mundo…

  6. Pedro Disse:

    Rapaz, que ocorreu corrupção de maneira coordenada, houve… Mas eu imagino a quantidade de absurdos que aconteceram no governo de Sarney e Collor sem os mecanismos de fiscalização e controle atuais… (Perceba que deixei outros períodos bem obscuros de lado).

  7. Amaro Disse:

    São tempos bem sombrios. O que mais me deixa estarrecido são comentários do tipo: Mas o PT… Como desculpa para votar num representante do que há de mais atrasado na política, economia, educação…

  8. Pedro Disse:

    Verdade, Amaro.

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