Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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O homem definitivo

5 de dezembro de 2018, às 12:28h por Samarone Lima

Desde que vim morar em Olinda, em março do ano passado, uma regra se tornou quase lei – jamais pegar ônibus vindo do Recife depois das 17h. São 10 quilômetros que se tornam intermináveis, se você vacilar e cair no gargalo que existe entre as duas cidades. O que seria um travessia de 17 minutos, se torna uma eternidade, um engarrafamento infernal..

Semana passada aconteceu. Perdi a hora. Eram 17h47 quando cheguei à parada da Agamenom Magalhães. Uma multidão aguardava os ônibus que já chegavam lotados.

Vou tomar é uma sopa, foi o que pensei, porque adoro sopas.

Contornei o WalMart, fui perambulando por ali, e vi um lugarzinho que já almocei uma vez. Simples, discreto, comida boa, ventilador em bom estado e mesas consistentes. Tem sopa? Tem. Quanto é ? Seis reais. Quero uma. Vou esquentar.

Só tinha um cliente no local. Estava sentado, lendo o jornal e tomando uma cerveja. Sentei. Ato já automático, puxei meu caderno para tomar umas notas. Então escutei ele falar comigo:

“Você não me conhece, mas eu te conheço!”

Virei o tronco. Eu o conhecia, mas nunca conversamos uma coisa assim, mais íntima.

“Pois eu te conheço também”, respondi.

Fui falar com ele.

Tinha saído do seu escritório, estava na primeira cerveja. Uma carteira de cigarros, o Le Monde- edição brasileira, um celular meia boca, que não pega zap nem com promessa braba.

Nos cumprimentamos, começamos um papo. Perguntei se estava atrapalhando suas reflexões filosóficas. De forma alguma, respondeu. O gesto mais simples, da minha parte, foi cancelar a sopa e pedir uma cerveja.

Então começamos a conversar, e lá pelas tantas surgiu o tema fundamental do amor. Surgiu, na verdade, quando ele disse “amar é o que eu sei fazer de melhor”.

Um sujeito calmo, da raça dos mansos, que não quer perder tempo com besteiras, com essas milhares de mensagens no zap-zap. Tem email, e olhe lá.

Falou de amor. Não o amor assim, ao deus-dará, mas da “mulher definitiva”, a “mulher essencial”.

Falou desse amor, que durou seis anos. Falei dos meus. Citei o caso de um amigo. A sua mulher foi embora com outro. Perguntei o que ele fez. Meu amigo foi bem simples na resposta:

“Eu chorei”.

Falei dos meus choros. Ele pegou a deixa.

“Eu chorei durante seis anos. Um belo dia, acordei, e a dor não estava mais do meu lado, na cama”.

Acendeu um cigarro, tomou um gole da cerveja e completou:

“Mas nunca amei outra mulher”.

Um lobo solitário, pensei eu, bebericando sua cerveja, num anoitecer de um restaurante modesto do Recife, falando da vida e dos amores. Como eu gosto desses encontros, santo deus.

Já teve muitas outras mulheres, mas aquela, que ele não disse o nome, foi a que se enraizou em sua alma.

Depois falamos sobre outros assuntos.

“Já lesse É isto um homem?”, perguntou.

Pela mãe do guarda, o melhor livro de Primo Levy.

“Sim, claro. Li quase todos dele. É maravilhoso”.

“É o livro definitivo”.

O amor definitivo, o livro definitivo. Um homem definitivo.

Anotei seu telefone e peguei o email.

No final da conversa, disse que sempre acreditava no amor, que ele sempre vem, quando a gente menos espera, é uma surpresa que a vida parece dar de presente, aos que tem fé.

Ele deu uma tragada no cigarro, me estendeu a mão e disse sorrindo:

“Te odeio, cara”.

E quanta ternura tinha naquela frase.

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