Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Um governo inhaca

30 de janeiro de 2019, às 10:40h por Samarone Lima

Todo dia geralmente eu faço tudo igual, especialmente na parte da manhã.

Às 5h05, a gata Isabelitta dá seus primeiros miados, pedindo ração. É meu despertador infalível. E adoro acordar cedo, ver o dia nascer. É a parte do dia que mais me deixa animado com a vida, a manhã.

Boto a comida dela, olho no quintal se o Jabuti Horário está bem, faço um café e venho trabalhar.É também o melhor momento para escrever, com a cabeça ainda sem saber das mazelas que vêm de Brasília, do dia de ontem, e as que virão hoje, as artimanhas que preparam para amanhã, porque esse é um governo que deveria ter um ministério exclusivo – o Ministério da Má Notícia Ininterrupta (MMNI).

Como tenho minhas manias, gosto de escutar rádio. Fico escrevendo e às 6h, ligo na Universitária FM. Tem o excelente programa “O Redator Comunitário”, sob o comando do competentíssimo Roberto Sousa, que dá uma geral em tudo que acontece em Pernambuco, no Brasil e no Mundo. Lê as manchetes dos principais jornais (o que já dá um frio na barriga), e tem os comentários excelentes do cientista político Túlio Velho Barreto e da economista Tânia Bacelar.

Hoje de manhã, após ouvir todo o programa, cheguei à conclusão que temos um Governo Inhaca (que tem cheiro ruim, que fede, morrinha, má sorte, entre outras coisas). Vou resumir, para não deixar meus leitores deprimidos:

O ministro Paulo Guedes avalia que, com as mudanças no cálculo do Salário Mínimo dever proporcionar, para o Governo, uma economia de R$ 330 bilhões, nos próximos dez anos. Sem comentários. Os milionários brasileiros continuarão cada dia mais milionários.

Não dá para ver muito as cenas da tragédia causada pela Companhia Vale do Rio Doce (a segunda) sem sentir algo profundamente triste na alma. Como a ganância pode ir tão longe? Até agora, 84 mortos e 276 desaparecidos. A Vale tem mais 55 barragens com potencial de desastre. Segundo a Companhia, vão desativá-las. Agora é tarde.

A TV Brasil teve que suspender o “Sem Censura”, um de seus programas mais longevos (está no ar desde 1985, ano da redemocratização do país). Era apresentado por Vera Barroso. Na campanha presidencial, o capitão que virou presidente prometeu extinguir a “TV do Lula”.

Também acabaram com o “Repórter Brasil” do Maranhão.

O ex-presidente Lula, que está preso na sede da Polícia Federal desde 7 de abril de 2018, não foi autorizado a ir para o enterro do seu irmão, Genival Inácio da Silva, o Vavá, que será realizado hoje, em São Bernardo do Campo.

A Lei de Execução Penal do pais permite a saída de um preso em caso de falecimento de um irmão. A autorização, segundo a Lei, será concedida pelo diretor do estabelecimento.

Mas o medo de Lula é uma coisa que mobiliza muita gente. Na verdade, eles ficam apavorados com a possibilidade de Lula aparecer numa janela da prisão onde está. No caso de Lula, alvarás de soltura não são respeitados, leis são reinterpretadas em dez minutos, o importante, o essencial, é mantê-lo preso, de qualquer jeito.

A Polícia Federal negou imediatamente o pedido da defesa de Lula, o Ministério Público Federal (MPF), meia hora depois também deu parecer contrário. Por fim, a juíza Carolina Lebbos também negou o pedido, colocando a “impossibilidade logística de proceder-se ao deslocamento”.

Estava terminando de batucar este texto, quando me chegou uma notícia que tem lá seus requintes de crueldade.

O ministro e presidente do Supremo, Dias Toffoli, autorizou Lula de ir ao encontro dos familiares, em razão da morte do irmão, com a condição de que se realizasse dentro de uma unidade militar. E – isso chega a ser inacreditável – que o corpo do irmão fosse levado para lá.

A decisão saiu no exato momento em que o caixão de Vavá descia a sepultura.

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História quase trágica de uma arma em casa

22 de janeiro de 2019, às 0:21h por Samarone Lima

O revólver calibre 38 sempre esteve em algum lugar escondido, mas ele nunca a exibiu. Levava nas viagens com a família no famoso “porta luvas”, dos anos 1970.

O casamento acabou, depois de 30 anos, ele saiu de casa, levou suas coisas, entre elas, a arma. Casou novamente, teve mais filhos, o tempo passou, e veio a segunda separação. Resolveu voltar ao primeiro casamento, para retomar a ponta de um laço que tinha ficado no passado.

Nos primeiros meses, tudo correu bem, mas com o tempo, os velhos problemas retornaram. O temperamento, talvez a tentativa de retomar algo que já estava quebrado em definitivo.

Os conflitos ressurgiram. Com o tempo, se tornaram tensos. Um dos filhos, que morava longe, percebeu na conversa com a mãe, pelo celular, que algo sério estava acontecendo. Pediu a um primo que fosse em casa, avisar à mãe que saísse de casa, mesmo que fosse somente com a roupa do corpo.

Foi justo num dia em que a luz fora cortada, em meio às desilusões do reencontro e o clima tenso dos últimos dias, quando ela pediu que ele saísse de casa. Ele, por sua vez, saíra desde cedo.

O primo chegou à tardinha, já começava a escurecer.

“Vamos sair daqui, tia, que está tudo muito esquisito”.

“Vou só arrumar umas coisinhas para levar”, respondeu ela.

“Vamos assim mesmo. Foi seu filho que pediu. Ele está preocupado com essa situação. Deixe ele sair de casa, depois a senhora volta”.

“É rápido”.

Ela foi para o quarto. O sobrinho percebeu quando um carro chegou. Era o tio. Há tempos não se davam bem, coisa de temperamento, de valores, de opções de vida. O tio, quando o viu, foi ríspido, o sobrinho respondeu algo que ele não gostou, e no meio já da semiescuridão, começou uma agressão, os socos, pontapés. Um vizinho chegou, consegui afastá-lo, o suficiente para que todos saíssem rapidamente para a calçada.

Estavam todos aflitos com a situação, esperando um carro, quando ele, dentro de casa, lembrou do revólver. Foi ao lugar que sempre o escondia, pegou e saiu em busca do sobrinho.

Quando chegou à calçada, com a arma apontada, o desespero tomou conta de todos. Ele apontou para o sobrinho e puxou o gatilho. Não se sabe se acertaria a cabeça ou o peito.

O sobrinho desabou no chão. A bala, no entanto, engasgou no cano do 38. Ele apontou novamente, e atirou novamente. A bala acertou o pé do sobrinho. O vizinho pulou em cima, e consegui arrancar o revólver das mãos dele.

Sangrando, o sobrinho foi levado para a emergência. Ele entrou em seu carro e foi embora.

Na delegacia, dias depois, a delegada informou que só não houve uma tragédia porque as balas eram velhas. Possivelmente as mesmas, desde que ele comprara o revólver.

Os anos passaram, o sobrinho se recuperou do tiro, da perturbadora imagem de um tio apontando uma arma em sua direção e atirando. A vida seguiu.

Por muito pouco, não houve um assassinato na família, que deixaria um rastro devastador em todos. Ele, que atirou, teria destruído também sua própria vida. Teria ainda muitos anos para ser consumido pelo remorso.

A arma, recolhida pela Polícia, fez parte do inquérito, e nunca mais foi vista.

Este breve relato familiar acontece no momento em que o o presidente da república, um capitão do Exército, tenta flexibilizar a venda de armas. Seu gesto mais comum, durante toda a campanha, foi dois dedos em riste, simulando armas. Muita gente votou nisso.

Se isso acontecer, milhares de pequenos incidentes parecidos vão se tornar tragédias.

Dias piores já chegaram.

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Aos meus professores com partido

11 de janeiro de 2019, às 12:27h por Samarone Lima

Estudei em várias escolas, já que meu pai era funcionário do Banco do Brasil, e mudava de cidade a cada três anos, se muito. Então nasci no Crato (só vivi o primeiro ano de vida, então não deu para ir à escola), depois Brejo Santo, depois Imperatriz (Maranhão). Ali já começaram as lembranças. Uma das mais pungentes foi quando voltamos pra casa, eu e meu irmão, Tonho, com o boletim. Eu tinha passado de ano, ele não, mas ele não comentou nada direito, chegamos em casa, eu feliz da vida, recebi abraços, mas a hora fatal chegou. Ele fora reprovado. Levou lá umas cipoadas.

Na minha época de estudante, ser reprovado era uma hecatombe. Hoje, parece que é como ter uma caneta e ela falhar, ninguém sofre, não fica amargurado, lembrando da turma que seguiu se você, são os tempos que mudam.

Depois fomos morar em Pentecostes (Ceará), onde a maior lembrança eram professoras que estavam fazendo teste para ver se ensinavam na escola. Além das aulas, elas nos agradavam muito com alguns bombons, mas o momento mais dramático mesmo foi a decisão do campeonato (acho que era a 5a série) na quadra. Nosso time era aguerrido mas sem o toque de bola da outra quinta série, e os caras eram chatos pra caralho.

Seguramos a onda até o final, fomos para os pênaltis. A quadra estava lotada, fiquei atrás da barra rezando, “pegatonho pegatonho, peloamordedeus pega os pênaltis todos, fecha a barra”, e o Tonho fez duas defesas espetaculares, ganhamos o título do final de ano, foi uma pequena glória da infância, a turma toda abraçando meu irmão, essas coisas espetaculares do começo da vida.

Por fim, chegamos em Fortaleza, quando a coisa ficou séria. Primeiro, o Salesiano, aquela coisa de padres, então surgiram os professores que me afetaram profundamente. O de português, que entre uma explicação e outra, dava umas filosofadas, uns comentários musicais, mas eu continuava absolutamente estúpido com Matemática, acabei ficando de recuperação, a re-re, mas senti que não dava.

Meu pai foi buscar o boletim, eu já temia o pior, sabia intimamente que tinha sido reprovado, então veio algo fundamental.

Meu pai estava saindo da escola bem zangado, esbarrou no professor de História, que começou a conversar com ele, lamentando minha reprovação, dizendo que eu era muito dedicado, prestava atenção, coisa que o professor de Português completou, disse outras coisas que não imagino. O fato é que meu pai chegou em casa, disse que eu tinha sido reprovado, e que precisaria de reforço em Matemática no ano seguinte, aquilo foi um verdadeiro milagre.

Eram professores que se importavam com os alunos, foi o que entendi muitos anos depois.

Depois fui para o 7 de Setembro, muito a contragosto, a pedido da minha mãe. Fiz uma prova para entrar, passei, que droga. No primeiro dia, enfileirado no pátio, começaram a tocar o Hino Nacional. Pensei – que porra é essa?

Cutuquei o aluno da frente e perguntei:

“É toda semana, essa coisa aí?”

Ele se virou e respondeu, sorridente, como se fosse uma coisa boa:

“É todo dia”.

“Negócio chato, né?”.

Ele não respondeu por um motivo óbvio. Era o filho do dono do colégio.

Tinha uma terrível aula de OSPB (Organização Social e Política do Brasil), que era a pior de todas. Era na segunda-feira e o professor chegava numa ressaca triste, de óculos escuros, ficava falando coisa com coisa, a bandeira do Brasil, o hino, uma aula que não servia para nada, apenas para nos encher de tédio.

Até que chegava a hora do professor de Matemática, justo a matéria que sempre me causou sofrimentos descomunais. Ele tinha um método maravilhoso. Pedia para a gente se concentrar, e no final da aula, faltando 15 minutos, dizia:

“Vamos conversar?”

Então deixava o cateto da hipotenusa, os equiláteros, escalenos, sentava numa ponta do birô e a gente fazia as perguntas mais diversas, soltava nossas inquietações. Perguntávamos sobre tudo, não tinha coisa proibida. Sexo, violência, futuro, um parente que morreu, enfim.

Ele sabia conversar com a gente, e sabia nos escutar. Foi uma das pessoas mais incríveis que tive a sorte de conhecer. No final do ano, um pequeno grupo de alunos (eu estava no meio) foi à casa dele, levar uma plaquinha de agradecimento.

Esses imbecís que assaltaram ficam com essa conversa estúpida de “escola sem partido”. Tudo pra essa gente é ideologia, é um medo da porra de liberdade, de alegria, de quebrar preconceitos, é um negócio azul ou rosa, quando cada ser humano tem tantas cores…

Foi justamente quando a escola quebrou sua rigidez, que abriu espaço para o diálogo, o encontro, o debate, ao longo dos meus anos de aluno, que algo se modificou em mim.

Em todos esses casos, as pessoas tinham um partido – o ser humano que estava ali, em sua jornada inicial pela vida, correndo o risco de ser um careta absoluto ou alguém que aceitou o risco de ser livre.

Aos meus amados professores com partido.

 

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