Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Aos meus professores com partido

11 de janeiro de 2019, às 12:27h por Samarone Lima

Estudei em várias escolas, já que meu pai era funcionário do Banco do Brasil, e mudava de cidade a cada três anos, se muito. Então nasci no Crato (só vivi o primeiro ano de vida, então não deu para ir à escola), depois Brejo Santo, depois Imperatriz (Maranhão). Ali já começaram as lembranças. Uma das mais pungentes foi quando voltamos pra casa, eu e meu irmão, Tonho, com o boletim. Eu tinha passado de ano, ele não, mas ele não comentou nada direito, chegamos em casa, eu feliz da vida, recebi abraços, mas a hora fatal chegou. Ele fora reprovado. Levou lá umas cipoadas.

Na minha época de estudante, ser reprovado era uma hecatombe. Hoje, parece que é como ter uma caneta e ela falhar, ninguém sofre, não fica amargurado, lembrando da turma que seguiu se você, são os tempos que mudam.

Depois fomos morar em Pentecostes (Ceará), onde a maior lembrança eram professoras que estavam fazendo teste para ver se ensinavam na escola. Além das aulas, elas nos agradavam muito com alguns bombons, mas o momento mais dramático mesmo foi a decisão do campeonato (acho que era a 5a série) na quadra. Nosso time era aguerrido mas sem o toque de bola da outra quinta série, e os caras eram chatos pra caralho.

Seguramos a onda até o final, fomos para os pênaltis. A quadra estava lotada, fiquei atrás da barra rezando, “pegatonho pegatonho, peloamordedeus pega os pênaltis todos, fecha a barra”, e o Tonho fez duas defesas espetaculares, ganhamos o título do final de ano, foi uma pequena glória da infância, a turma toda abraçando meu irmão, essas coisas espetaculares do começo da vida.

Por fim, chegamos em Fortaleza, quando a coisa ficou séria. Primeiro, o Salesiano, aquela coisa de padres, então surgiram os professores que me afetaram profundamente. O de português, que entre uma explicação e outra, dava umas filosofadas, uns comentários musicais, mas eu continuava absolutamente estúpido com Matemática, acabei ficando de recuperação, a re-re, mas senti que não dava.

Meu pai foi buscar o boletim, eu já temia o pior, sabia intimamente que tinha sido reprovado, então veio algo fundamental.

Meu pai estava saindo da escola bem zangado, esbarrou no professor de História, que começou a conversar com ele, lamentando minha reprovação, dizendo que eu era muito dedicado, prestava atenção, coisa que o professor de Português completou, disse outras coisas que não imagino. O fato é que meu pai chegou em casa, disse que eu tinha sido reprovado, e que precisaria de reforço em Matemática no ano seguinte, aquilo foi um verdadeiro milagre.

Eram professores que se importavam com os alunos, foi o que entendi muitos anos depois.

Depois fui para o 7 de Setembro, muito a contragosto, a pedido da minha mãe. Fiz uma prova para entrar, passei, que droga. No primeiro dia, enfileirado no pátio, começaram a tocar o Hino Nacional. Pensei – que porra é essa?

Cutuquei o aluno da frente e perguntei:

“É toda semana, essa coisa aí?”

Ele se virou e respondeu, sorridente, como se fosse uma coisa boa:

“É todo dia”.

“Negócio chato, né?”.

Ele não respondeu por um motivo óbvio. Era o filho do dono do colégio.

Tinha uma terrível aula de OSPB (Organização Social e Política do Brasil), que era a pior de todas. Era na segunda-feira e o professor chegava numa ressaca triste, de óculos escuros, ficava falando coisa com coisa, a bandeira do Brasil, o hino, uma aula que não servia para nada, apenas para nos encher de tédio.

Até que chegava a hora do professor de Matemática, justo a matéria que sempre me causou sofrimentos descomunais. Ele tinha um método maravilhoso. Pedia para a gente se concentrar, e no final da aula, faltando 15 minutos, dizia:

“Vamos conversar?”

Então deixava o cateto da hipotenusa, os equiláteros, escalenos, sentava numa ponta do birô e a gente fazia as perguntas mais diversas, soltava nossas inquietações. Perguntávamos sobre tudo, não tinha coisa proibida. Sexo, violência, futuro, um parente que morreu, enfim.

Ele sabia conversar com a gente, e sabia nos escutar. Foi uma das pessoas mais incríveis que tive a sorte de conhecer. No final do ano, um pequeno grupo de alunos (eu estava no meio) foi à casa dele, levar uma plaquinha de agradecimento.

Esses imbecís que assaltaram ficam com essa conversa estúpida de “escola sem partido”. Tudo pra essa gente é ideologia, é um medo da porra de liberdade, de alegria, de quebrar preconceitos, é um negócio azul ou rosa, quando cada ser humano tem tantas cores…

Foi justamente quando a escola quebrou sua rigidez, que abriu espaço para o diálogo, o encontro, o debate, ao longo dos meus anos de aluno, que algo se modificou em mim.

Em todos esses casos, as pessoas tinham um partido – o ser humano que estava ali, em sua jornada inicial pela vida, correndo o risco de ser um careta absoluto ou alguém que aceitou o risco de ser livre.

Aos meus amados professores com partido.

 

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