Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Olinda, ano 2: Dez de charque e uma latinha

27 de fevereiro de 2019, às 7:08h por Samarone Lima

Vou para meu segundo Carnaval em Olinda.

Ano passado, pensei que viveria uma tempestade. Moro numa casa alugada na rua 13 de Maio, onde o bicho realmente pega. A partir de amanhã, começa uma pequena, surda, tempestade nas calçadas. Os vendedores de cerveja lutam para garantir os lugares determinados pela prefeitura (pagam uma taxa por isso), e, para minha surpresa, uma penca de calçadas sofrem o bloqueio dos “cercadinhos”, geralmente de ferro. Acho isso um horror.

A tempestade não veio. Amigos ocuparam os dois quartos, Serginho veio com seu banjo verde, os amigos vieram ao longo do dia, sem aquela parada de “Day Use”, que não tenho estrutura pra isso, e nos divertimos muito. À tardinha, Serginho era convidado para tocar os sambas das antigas que ele conhece bem, a gente tomava umas no terraço do quintal, e como virou atividade costumeira, apelidaram essa festinha de “Banjo Escravo”.

Serginho, por sinal, chega hoje.

O que mudou, do ano passado pra cá, é visível, doloroso e triste. O país conseguiu ficar muito mais pobre.

Catadores de latinha, vendedores de cerveja empurrando seus carrinhos de mão, homens, mulheres, velhos, adolescentes, todos estão em busca de uns tostões, de uns trocados. É muito dura a vida dos pobre deste país. E nas prévias, já deu para perceber que a Policia Militar de Pernambuco está cada vez mais brutal, insensata, agressiva. Qualquer conflito, é spray de pimenta, cacetete, truculência. Parece que os policiais mais novos fazem um bom curso para irem às ruas – são mais violentos que os antigos.

Não por acaso, se multiplicam os espaços privados, camarotes, os VIPs, essa coisa toda. Ficar longe da pobreza é mais elegante, charmoso, não atrapalha a vista. Os brancos do Brasil, realmente, preferem ficar longe dos negros. Se os negros forem para as Universidades, derrubam até governo.

Somente ontem (26), o Conselho de Preservação do Sítios Históricos de Olinda cancelou o funcionamento de nove “casas-camarote” e de “Day Use” durante o Carnaval. Entre elas, o “Olinda Tropicana”, casa de Alceu Valença, na rua Prudente de Moraes, Carmo, que está vendendo o ingresso Open Bar por R$ 220,00. A reportagem é da @marcozero.org

A Lei do Carnaval, de 2001, proíbe camarotes no sítio histórico, durante o Carnaval. Fico me perguntando – pra que diabo de camarote, se Olinda está toda aí, para ser desfrutada?

Sim, mas voltemos aqui à rua 13 de Maio, onde moro.

Vai ser a mesma parada do ano passado. Eu sou um folião mais de ver e curtir o ruge, o freje, as orquestras, os passistas de frevo, os bebos iconoclastas que saem à deriva. Gosto da beleza do Carnaval, das fantasias, da alegria das pessoas. A doideira, a irreverência, essa louca enfermidade que nos domina, durante cinco dias incríveis, que mal começam e já terminam.

Mas o meu fraco mesmo é com as troças.

O simples Carnaval popular. Existe coisa mais linda que uma troça se chamar “Dez de charque e uma latinha?”

É um dos hinos mais lindos de Olinda. E é a pura realidade dos mais pobres. Às vezes, dez reais de charque e uma latinha de cana, é o Day Use essencial. E na rua.

Vai o hino do “Dez de Charque”, de brinde. Vejam quantas pessoas são citada no hino.

“Amigo Déo, pendura mais essa continha”.

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