Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

Apresentação


Oficinas


Livros


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Destaque


Calendário

março 2019
D S T Q Q S S
« fev   abr »
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  

Arquivos


Usuários online

2 Usuários Online
Leitores:

1 Caranguejo
1 Escafandrista

Sejamos mais Diadorins

20 de março de 2019, às 10:26h por Samarone Lima

Tempos terríveis vivemos nós. Tempos brutais, de violência física, psicológica. Barbaridades são ditas a todo instante, pelos que agora governam esta sobra de país. O Brasil está por uma peinha de nada.

Conquistas sociais, que custaram décadas de lutas, organização, mobilização, que os nossos velhos deram o sangue, agora são jogadas por terra com uma simples canetada. Um ministro da Educação assina decreto para que o enfadado hino nacional volte a ser cantado nas escolas, que os alunos sejam filmados, e que louvem o sujeito que chegou à presidência tendo como maior símbolo, uma arma em punho. Depois, o idiota volta atrás, e fica uma poeira do entulho, dos milhões de zaps produzidos, comentados.

O presidente da república, o capitão da reserva, vai aos Estados Unidos, para uma visita humilhante ao fanfarrão bilionário loiro e faminto de nossas riquezas, e meu celular é inundado de memes, filmagens, caricaturas do serviçal (e sua comitiva), de um sujeito que sai do Brasil, uma nação linda, rica, poderosa, e diz que “se sente em casa”, nos Estados Unidos. É triste ser motivo de chacota internacional, mas me dói muito mais saber que voltamos a ser um país de quinta categoria, cada vez mais pobre e submisso.

Nessa minhas poucas linhas semanais, nessas crônicas sem rumo que escrevo, peço aos amigos algo ridículo – que acalmem seus celulares, que reduzam seus reenvios de zaps, de memes, de fotos dessa gangue que chegou ao poder. Essa gente das milícias, da violência, da subserviência absoluta, quando o assunto é a riqueza brasileira. Aqui dentro, eles só falam em matar gente, dar pau, são o cão chupando manga. Lá fora, chegam com o rabinho abanando, rastejando.

Não aguento mais esse negócio de ficar falando com um amigo, gravando não sei quantas mensagens, resolvendo coisas importantes, colocando os afetos sem ouvir a voz do outro.

Precisamos nos falar. Ligar para os nossos, saber como está um amigo que você não fala há semanas, meses. Escutar a voz, esse bem precioso que temos. Falar. Escutar o outro. Marcar encontros nas casas, reunir os chegados, reforçar os laços. Fazer uma comida juntos, tomar café, chá, cerveja, cachaça, seja lá qual for a pedida, mas nos ver, olhos nos olhos, saber como está a vida.

A barra está pesada, meus amigos e amigas, e vai pesar ainda mais. A turma que tomou de assalto o poder é faminta, é violenta, não tem nenhum vínculo com movimentos sociais, com movimentos periféricos, com grupos de direitos humanos, de mulheres, nada. Pra eles, o Brasil precisa ser desconstruído. Em outras palavras, tudo o que vier do lugar que eles não vieram, tem que levar porrada. O Brasil, para eles, precisa ser mesmo é destruído.

Não nos afastemos. Vamos ampliar nossas redes, incluir mais gente, vamos nos encontrar mais, e não somente nas manifestações.

Quanto a mim, peço que não fiquem me reenviando áudios, vídeos, filmagens, dessa turma. Eles não merecem nenhuma atenção. Quanto mais falam dele, repercutem as merdas deles, eles gozam.

Prefiro que me mandem canções de Milton Nascimento, Mercedes Sosa, dos Mutantes, do Ave Sangria, de Sérgio Sampaio. Eu quero é botar, meu bloco na rua. Me mandem poesias de Nicanor Parra, de Alejandra Pizarnick, de Conceição Evaristo, dos poetas novos, que estão explodindo de emoção nas perifas de todo o Brasil. Nunca vi tanta gente feliz no Instagram. Parece gente de outro país. Me mandem belezas, cantos de fé, orações, imagens dos guias, de Oxalá,de Yemanjá. Um relato do momento em que você chutou o pau da barraca. Um poema seu, uma frase, uma foto com a cara triste, mas sincera. Me reenvie Caetano, com sua Oração ao Tempo. Ou Maria Bethânia, lendo Guimarães Rosa.

Sejamos mais Riobaldos. E, principalmente, mais Diadorins.

Postado em Crônicas | 6 Comentários »

Carnaval e pobreza

10 de março de 2019, às 12:42h por Samarone Lima

Quatro dias depois do Carnaval, Olinda ainda fede a urina e outras misturas que não consigo identificar. Ainda há muito lixo sendo recolhido, restos de fantasia misturados com purpurinas desgarradas. A cidade agora vai dormir durante alguns meses.

Neste meu segundo Carnaval no Sítio Histórico (moro na 13 de Maio, um dos epicentros da festa), o que me chama a atenção mesmo é como os pobres, no Brasil, estão cada vez mais pobres. É visível o aumento.

São os pobres que, na quinta-feira à noite, já estão numa luta brutal, para conseguir um lugar melhor, para instalar seu isopor. Sobem e descem ladeiras com carrinhos, num esforço que beira à insanidade.

São os pobres que instalam suas barracas improvisadas e terão que passar o Carnaval inteiro, dormindo e acordando, em seus pontos de venda, no sol ou na chuva.

Os pobres, que passam o dia gritando “três Skol é dez, três Skol é dez”, um alarido perpétuo durante toda a festa.

Os pobres, à noite, quando já não há mais movimento, se revezam para ir em casa, para tomar um banho e trocar de roupa, ou já fazer alguma compra, para recomeçar tudo de novo, amanhã.

Ao amanhecer, enquanto os foliões não chegam, eles têm até umas 9h/9h30 para seguir com olhos atentos, remexendo lixos, procurando latinhas vazias em becos, vielas, as que sobraram da noite anterior.

Na noite anterior, um exército de homens, mulheres, adolescentes, já circulou pela cidade, pouco se importando se quem está cantando é o Cordel do Fogo Encantado, Alceu Valença, Elba Ramalho. Os pobres não têm tempo para um banho de cheiro. Estão olhando para o chão, em busca de latinhas.

É uma luta insana, a sobrevivência dos pobres. Eles não têm tempo para um descanso, uma brisa. Cada dia, uma batalha desesperada, em busca de trocados. Cada dia, uma exaustão. São jovens, crianças, velhos, adultos. Todo mundo tem que sair pra rua, lutar.

Terminado o Carnaval, os pobres vão em busca de outras formas de sobrevivência. A partir de amanhã, começam a bater palmas, aqui na janela, para retirar fruta-pão.

Sem qualquer proteção, sobem os dois pés enormes, arrancam 35/40 numa safra boa, enchem esses frágeis carrinhos de mão que saem gemendo, e vão sair em busca de um feirante, que queira comprar.

Como vivemos num dos períodos mais cruéis da nossa história, este governo acanalhado, formado por uma legião de desajustados, inventou uma “Reforma da Previdência”, para tornar mais pobre quem já é pobre.

Quem é mais pobre do que um pobre se chama miserável.

Postado em Crônicas | 3 Comentários »