Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Carnaval e pobreza

10 de março de 2019, às 12:42h por Samarone Lima

Quatro dias depois do Carnaval, Olinda ainda fede a urina e outras misturas que não consigo identificar. Ainda há muito lixo sendo recolhido, restos de fantasia misturados com purpurinas desgarradas. A cidade agora vai dormir durante alguns meses.

Neste meu segundo Carnaval no Sítio Histórico (moro na 13 de Maio, um dos epicentros da festa), o que me chama a atenção mesmo é como os pobres, no Brasil, estão cada vez mais pobres. É visível o aumento.

São os pobres que, na quinta-feira à noite, já estão numa luta brutal, para conseguir um lugar melhor, para instalar seu isopor. Sobem e descem ladeiras com carrinhos, num esforço que beira à insanidade.

São os pobres que instalam suas barracas improvisadas e terão que passar o Carnaval inteiro, dormindo e acordando, em seus pontos de venda, no sol ou na chuva.

Os pobres, que passam o dia gritando “três Skol é dez, três Skol é dez”, um alarido perpétuo durante toda a festa.

Os pobres, à noite, quando já não há mais movimento, se revezam para ir em casa, para tomar um banho e trocar de roupa, ou já fazer alguma compra, para recomeçar tudo de novo, amanhã.

Ao amanhecer, enquanto os foliões não chegam, eles têm até umas 9h/9h30 para seguir com olhos atentos, remexendo lixos, procurando latinhas vazias em becos, vielas, as que sobraram da noite anterior.

Na noite anterior, um exército de homens, mulheres, adolescentes, já circulou pela cidade, pouco se importando se quem está cantando é o Cordel do Fogo Encantado, Alceu Valença, Elba Ramalho. Os pobres não têm tempo para um banho de cheiro. Estão olhando para o chão, em busca de latinhas.

É uma luta insana, a sobrevivência dos pobres. Eles não têm tempo para um descanso, uma brisa. Cada dia, uma batalha desesperada, em busca de trocados. Cada dia, uma exaustão. São jovens, crianças, velhos, adultos. Todo mundo tem que sair pra rua, lutar.

Terminado o Carnaval, os pobres vão em busca de outras formas de sobrevivência. A partir de amanhã, começam a bater palmas, aqui na janela, para retirar fruta-pão.

Sem qualquer proteção, sobem os dois pés enormes, arrancam 35/40 numa safra boa, enchem esses frágeis carrinhos de mão que saem gemendo, e vão sair em busca de um feirante, que queira comprar.

Como vivemos num dos períodos mais cruéis da nossa história, este governo acanalhado, formado por uma legião de desajustados, inventou uma “Reforma da Previdência”, para tornar mais pobre quem já é pobre.

Quem é mais pobre do que um pobre se chama miserável.

Postado em Crônicas | 3 Comentários »

3 Comentários

  1. George Guedes Disse:

    E muita gente ainda tenta colocar panos quentes em favor desse que assina com caneta bic, decretos que entregam as riquezas brasileiras e tenta empurrar uma reforma da previdência que condenará milhões à indigência.

  2. Amaro Disse:

    Sim, Samarone. Ficamos mais pobres. Moro em Brasília e vejo isto diariamente na Rodoviária do Plano Piloto (como é chamado o centro da cidade). Muita gente vendendo de tudo. Ficamos mais pobres e não vejo, no curto prazo, saída para esta situação. Pelo menos não vejo nenhuma diretriz do atual governo, como do anterior (Temer), nada que sinalize melhora para a população mais pobre.

  3. Oriana Disse:

    Também vejo isso, Samarone. A pobreza está aumentando a olhos vistos. É muito triste assistir a isso e ver os políticos ignorando o povo totalmente, e criando ainda mais situações que agravarão as privações, principalmente no Nordeste.

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