Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Uber: em cada viagem, um retrato de um país que desmorona

30 de abril de 2019, às 10:42h por Samarone Lima

Moro em Olinda, onde as linhas de ônibus são péssimas e caras. A passagem que mais pago, para não ficar no sol ou na chuva, custa R$ 4,70. Se for pegar dois ônibus para dar aula na Fafire, onde estou dando aula de Poesia (uma especialização em Escrita Criativa), melhor é ir de Uber mesmo, que é mais confortável e o preço fica quase o mesmo.

Então aproveito para fazer minhas pesquisas antropológicas, sinestésicas, ambientais-emocionais.

Pergunto desde que horas a pessoa está dirigindo, e há quanto tempo está no Uber. Depois desse “quebra-gelo”, vou ao terceiro passo – pergunto o que a pessoa fazia, antes de assumir uma direção de um carro para ganhar uma grana e sobreviver. Dá para ver como o país entrou numa espiral negativa, que parece não ter fim.

Mudando o nome das pessoas e contextos, vai um resumo do que guardei de memória, ao longo dos últimos dois meses.

Reginaldo

Esse foi um dos que mais me tocou. Chamei o Uber umas 22h, após sair de uma reunião no Arruda. Até chegar em Olinda, deu para conversar bastante.

Quando entrei no carro, vi que ele estava exausto. Disse que estava no volante desde as 5h da manhã. Está há dois anos no Uber. Trabalhava numa grande cervejaria, não lembro a profissão, mas ganhava uns R$ 3 mil por mês + cesta básica (que elogiou bastante). Cortes na empresa,o desemprego. Comprou um carro errado, o Peugeot, que lhe deu inúmeros problemas, se arrependimento mata, ele teria morrido há muito tempo. Por sinal, com outros motoristas da minha pesquisa, o Peugeot é, de longe, o carro que dá mais dor de cabeça, as peças são caras, e pra vender, é um inferno.

Reginaldo estava dirigindo para “alcançar a meta do dia” (que quase todos os motoristas usam). Isso significa mais de 15 horas dirigindo, para dar conta do carro (que é alugado), uma pensão e aluguel.

Marcelo

Trabalhava como soldador, no Estaleiro, em Suape. Foi o período de maior prosperidade. Salário bom, adicionais por hora extra, aproveitou o tempo de bonança para construir sua casa. “Aquilo era um mundo, mas acabou tudo. Só no local que eu trabalhava, eram 9 mil trabalhadores. No outro, cinco mil. Não ficou ninguém”.

Marcelo teve mais sorte, porque conseguiu fazer a casa e comprar um carro, que usa para se virar enquanto não aparece nada. Foi um dos poucos que estava mais tranquilo.

João,Francisco e Mário

Um mix de três pessoas que tinham histórias bem parecidas, que rodavam muitas horas por dia, entrando pela noite. João e Francisco tinham sido gerentes de logistica (um em uma farmácia, outro numa grande hamburgueria). Nos dois últimos anos, o emprego foi para o saco e ficaram sem opção. Começaram a rodar. João lamentava a “desgraça” que o país estava. Francisco lembrou dos bons tempos, com salário bom, décimo terceiro e férias.

Mário tinha o mesmo tipo de trabalho, só que numa grande empresa de medicamentos.

“Rapaz, eu ganhava em média R$ 6 mil por mês, estava com a vida organizada, mas a empresa perdeu uns contratos e agora estou me virando por aqui”.

Doval

Trabalhava entregando marmitas para hospitais, em uma Kombi. A empresa, chegada a um cambalacho, não assinava carteira nem depositava o Fundo de Garantia, mas ele não reclamava.

“Davam R$ 1 mil em dinheiro, sem descontar nada. A gente ía à paisano, como se a Kombi fosse da gente, e não da empresa”.

A exemplo de vários outros relatos, a empresa perdeu os contratos e os funcionários foram “demitidos”. Ou seja: vai-te embora sem nada mesmo.

Roda várias horas por dia. Na conversa, não parecia alegre nem triste, apenas tocando o carro, alugado por um amigo, vivendo o que é possível viver.

Mariana

Mulher conversadeira, animada, tinha uma pequena lanchonete, que foi para o brejo há dois anos. Roda muitas horas por dia, diz que “é o jeito”, mas foi a única a descer a lenha na política econômica da era Temer, que “segue a mesma, mas piorada”, com o novo governo.

“Esses miseráveis só pensam em cortar dos que têm menos. Quanto mais eles cortam, mais o dinheiro some e o desemprego aumenta. Se essa reforma da previdência passar, a pessoa se aposenta e morre”.

Ela também demonstrou uma irritação com o assédio dos homens. Em qualquer insinuação, disse que dá logo um fora, “para o sujeito ficar esperto”.

Oswaldo

Foi o único que estava a boa com o Uber. Trabalhava numa empresa de segurança de valores, a bordo daqueles carros de valores (esqueci como é o nome dos bichos). Uma tensão desgraçada, levando o dinheiro alheio. Quando soube que haveria uma lista de dispensa, pediu para colocar seu nome.

“Antes a gente ganhava bem, tinha hora extra, mas foram botando mais gente e cortando tudo. Meu último salário foi R$ 1.300,00. Achei melhor sair. Tenho meu carro, minha casa, vou é curtir mais meus filhos e fazer um curso de elétrica para prédios”.

Em comum

Entre as dezenas de conversas, algumas coisas em comum.

1. Quem anda com o carro a gasolina, o motorista tem que trabalhar três vezes mais do que quem tem gás natural no seu veículo;

2. O Uber cobra, em média, 25% por cada viagem. Se eu pago R$ 10,00 em uma corrida, cai na conta R$ 7.50. O cara que inventou essa parada fica lá na Califórnia, em sua rede, não vai nem na esquina, e no final do dia tem uns milhões de dólares na conta.

3. Quase todos têm uma “meta” para o dia, que serve como uma base para fazer os cálculos, no final do dia. Tem motorista que roda o dia inteiro, tira o que gastou com gasolina e o que vai pagar da renda (se o carro for alugado), e pode chegar ao final do dia com R$ 50/60,00 de lucro

4. O tempo do Uber é diferente do relógio normal da humanidade. Aparece no seu celular que ele está a 4 minutos de sua casa, depois passa para 7, depois volta pra quatro, e daqui a trinta segundos ele chegou, quando você estava calçando os sapatos.

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Ditadura Nunca Mais

1 de abril de 2019, às 11:48h por Samarone Lima

Tenho 49 anos, quase 50. Sou um jornalista e escritor brasileiro, e bem jovem, ainda estagiário do Diário de Pernambuco, comecei a ler sobre a última ditadura, que durou 21 anos. Creio que o interesse veio de uma leitura precoce de “Batismo de Sangue”, de Frei Betto, que meu irmão Paulo, mais velho e politizado, trouxe em sua algibeira, quando voltou do seminário, em Carpina.

O livro, lançado em 1983, me impactou de forma irreversível. Eu tinha uns 15, 16 anos e vi como a tortura sistemática, organizada pelo estado, a infâmia autorizada, pode causar tanta dor, não só entre os que sofrem no corpo e na alma, mas em todo um universo que está ao redor. Desde esta época, a palavra ditadura se modificou em mim, ganhou outra dimensão. Algo que eu não quero que se repita nunca.

Pouco depois, em 1985, meu pai chegou em casa com o livro “Brasil: Nunca Mais”, feito com base nos depoimentos de presos políticos nos próprios tribunais militares. São dilacerantes.

Em algum momento da minha vida, decidi que seria jornalista, para depois, quem sabe, virar escritor. E que escreveria sobre este período, que durou 21 anos na história do Brasil. Um período de trevas, em todos os aspectos.

Meu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, em 1993, foi sobre o assassinato do militante mineiro José Carlos Novais da Mata Machado, da Ação Popular (AP), no Recife. A versão era de que ele tinha morrido num tiroteio na avenida Caxangá, em 28 de outubro de 1973.

Fiz dezenas de entrevistas, consegui encontrar um grupo de amigos que tinham dado abrigo ao Zé, no Recife. O tiroteio nunca aconteceu. O Zé, como era conhecido, morreu após uma noite inteira sendo torturado, no DOI-CODI do Recife, ao lado do seu companheiro de AP, Gildo Lacerda. O longo depoimento de um ex-preso, que viu o Zé, agonizante,  ajudou a desfazer uma das muitas farsas da ditadura.

A família do Zé conseguiu resgatar seu corpo, mas com uma condição – o caixão não poderia ser aberto. Gildo continua um desaparecido político.

Em 1998, após cinco anos de pesquisas em arquivos, dezenas de entrevistas com parentes e amigos, publiquei meu primeiro livro. Ganhou o título de “Zé”, pela editora Mazza.

Por essas caminhadas da vida, fiz um mestrado e pesquisei sobre as ditaduras do Chile, Argentina e Uruguai, que virou o livro “Clamor – a vitória de uma conspiração brasileira”, publicado pela editora Objetiva.

O balanço final de cada Ditadura é que nenhum povo quer viver sob o domínio do medo e da violência. Ao final de cada uma, há um longo tempo de dor, que é mitigada quando os algozes reconhecem o que fizeram e pedem desculpas. Em alguns casos, os responsáveis são punidos, como na Argentina. O general Jorge Rafael Videla, o mais sanguinário, morreu na cadeia. Os militares brasileiros que deram o golpe, e, com ajuda forte de civís, ficaram 21 anos no poder, jamais pediram desculpas pelas atrocidades cometidas nos subterrâneos dos quartéis.

Hoje, quando lembramos os 55 anos daquele terrível primeiro de abril de 1964, que arrancou 21 anos de vida democrática do Brasil, é uma insanidade, uma afronta à nossa Democracia, um sujeito que está ocupando a cadeira de presidente da República, esse sujeito medíocre, fascista, chamado Jair Bolsonaro, pedir para que a data seja comemorada nos quartéis.

É uma afronta aos que morreram, foram torturados, enlouqueceram, se suicidaram.

É uma afronta às famílias, aos amigos, aos que tiveram que partir para o exílio, aos que nunca mais conseguiram reconstruir a vida – e perderam, certamente, 21 anos preciosos, com os militares mandando e desmandando em todas as esferas de governo.

É uma afronta à nossa história e memória.

Das muitas pessoas que entrevistei, três estão presentes como chama viva na minha vida: os engenheiros Edinaldo Miranda, Ricardo Zarattini e a advogada Mércia Albuquerque.

Edinaldo, em algum momento da prisão, após muito sofrimento, começou a acreditar que tudo o que pensava estava sendo registrado pelos agentes da repressão. Começou a cantarolar a “Pequena Serenata Noturna”, de Mozart, para não pensar em nada. Foi salvo por um médico que estava na mesma cela.

Zarattini foi preso, torturado durante 17 dias no DOI-CODI do Rio de Janeiro. Inventou uma história, para não entregar ninguém, até que, em certo momento, começou a acreditar na própria mentira. Com isso, salvou várias pessoas. Estava no Chile, no golpe de Pinochet, em 1973, ajudou vários brasileiros a entrarem em embaixadas, e só depois cuidou de si. Até o final da vida, se definia como um revolucionário.

Mércia Albuquerque era uma advogada altiva, corajosa, destemida. Atuou durante toda a ditadura para dezenas de presos políticos. Em outubro de 1973, ela foi acionada pela família Mata Machado para tentar encontrar o corpo do Zé. Ela foi nos cemitérios do Recife, conversou com coveiros, descobriu um enterro misterioso de duas pessoas, à noite, com carros do Exército.

Localizou a vala onde estava o corpo do Zé, conseguiu que fosse exumado e mandado para Belo Horizonte.

Ditadura Nunca Mais.

Ao irmão Paulo, que me politizou com seus livros.

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