Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Ditadura Nunca Mais

1 de abril de 2019, às 11:48h por Samarone Lima

Tenho 49 anos, quase 50. Sou um jornalista e escritor brasileiro, e bem jovem, ainda estagiário do Diário de Pernambuco, comecei a ler sobre a última ditadura, que durou 21 anos. Creio que o interesse veio de uma leitura precoce de “Batismo de Sangue”, de Frei Betto, que meu irmão Paulo, mais velho e politizado, trouxe em sua algibeira, quando voltou do seminário, em Carpina.

O livro, lançado em 1983, me impactou de forma irreversível. Eu tinha uns 15, 16 anos e vi como a tortura sistemática, organizada pelo estado, a infâmia autorizada, pode causar tanta dor, não só entre os que sofrem no corpo e na alma, mas em todo um universo que está ao redor. Desde esta época, a palavra ditadura se modificou em mim, ganhou outra dimensão. Algo que eu não quero que se repita nunca.

Pouco depois, em 1985, meu pai chegou em casa com o livro “Brasil: Nunca Mais”, feito com base nos depoimentos de presos políticos nos próprios tribunais militares. São dilacerantes.

Em algum momento da minha vida, decidi que seria jornalista, para depois, quem sabe, virar escritor. E que escreveria sobre este período, que durou 21 anos na história do Brasil. Um período de trevas, em todos os aspectos.

Meu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, em 1993, foi sobre o assassinato do militante mineiro José Carlos Novais da Mata Machado, da Ação Popular (AP), no Recife. A versão era de que ele tinha morrido num tiroteio na avenida Caxangá, em 28 de outubro de 1973.

Fiz dezenas de entrevistas, consegui encontrar um grupo de amigos que tinham dado abrigo ao Zé, no Recife. O tiroteio nunca aconteceu. O Zé, como era conhecido, morreu após uma noite inteira sendo torturado, no DOI-CODI do Recife, ao lado do seu companheiro de AP, Gildo Lacerda. O longo depoimento de um ex-preso, que viu o Zé, agonizante,  ajudou a desfazer uma das muitas farsas da ditadura.

A família do Zé conseguiu resgatar seu corpo, mas com uma condição – o caixão não poderia ser aberto. Gildo continua um desaparecido político.

Em 1998, após cinco anos de pesquisas em arquivos, dezenas de entrevistas com parentes e amigos, publiquei meu primeiro livro. Ganhou o título de “Zé”, pela editora Mazza.

Por essas caminhadas da vida, fiz um mestrado e pesquisei sobre as ditaduras do Chile, Argentina e Uruguai, que virou o livro “Clamor – a vitória de uma conspiração brasileira”, publicado pela editora Objetiva.

O balanço final de cada Ditadura é que nenhum povo quer viver sob o domínio do medo e da violência. Ao final de cada uma, há um longo tempo de dor, que é mitigada quando os algozes reconhecem o que fizeram e pedem desculpas. Em alguns casos, os responsáveis são punidos, como na Argentina. O general Jorge Rafael Videla, o mais sanguinário, morreu na cadeia. Os militares brasileiros que deram o golpe, e, com ajuda forte de civís, ficaram 21 anos no poder, jamais pediram desculpas pelas atrocidades cometidas nos subterrâneos dos quartéis.

Hoje, quando lembramos os 55 anos daquele terrível primeiro de abril de 1964, que arrancou 21 anos de vida democrática do Brasil, é uma insanidade, uma afronta à nossa Democracia, um sujeito que está ocupando a cadeira de presidente da República, esse sujeito medíocre, fascista, chamado Jair Bolsonaro, pedir para que a data seja comemorada nos quartéis.

É uma afronta aos que morreram, foram torturados, enlouqueceram, se suicidaram.

É uma afronta às famílias, aos amigos, aos que tiveram que partir para o exílio, aos que nunca mais conseguiram reconstruir a vida – e perderam, certamente, 21 anos preciosos, com os militares mandando e desmandando em todas as esferas de governo.

É uma afronta à nossa história e memória.

Das muitas pessoas que entrevistei, três estão presentes como chama viva na minha vida: os engenheiros Edinaldo Miranda, Ricardo Zarattini e a advogada Mércia Albuquerque.

Edinaldo, em algum momento da prisão, após muito sofrimento, começou a acreditar que tudo o que pensava estava sendo registrado pelos agentes da repressão. Começou a cantarolar a “Pequena Serenata Noturna”, de Mozart, para não pensar em nada. Foi salvo por um médico que estava na mesma cela.

Zarattini foi preso, torturado durante 17 dias no DOI-CODI do Rio de Janeiro. Inventou uma história, para não entregar ninguém, até que, em certo momento, começou a acreditar na própria mentira. Com isso, salvou várias pessoas. Estava no Chile, no golpe de Pinochet, em 1973, ajudou vários brasileiros a entrarem em embaixadas, e só depois cuidou de si. Até o final da vida, se definia como um revolucionário.

Mércia Albuquerque era uma advogada altiva, corajosa, destemida. Atuou durante toda a ditadura para dezenas de presos políticos. Em outubro de 1973, ela foi acionada pela família Mata Machado para tentar encontrar o corpo do Zé. Ela foi nos cemitérios do Recife, conversou com coveiros, descobriu um enterro misterioso de duas pessoas, à noite, com carros do Exército.

Localizou a vala onde estava o corpo do Zé, conseguiu que fosse exumado e mandado para Belo Horizonte.

Ditadura Nunca Mais.

Ao irmão Paulo, que me politizou com seus livros.

Postado em Crônicas | 8 Comentários »

8 Comentários

  1. George Guedes Disse:

    Foram muitas as vidas que esse pessoal destruiu. Recentemente assisti um documentário sobre o lendário Josué de Castro, então diplomata, proibido de voltar ao Brasil pelos milicos. E os depoimentos da filha dele, de Jorge Amado, de Darcy Ribeiro e Barbosa Lima Sobrinho, atestam, Josué morreu de tristeza. Seu único crime, fazer o bem.

  2. Andre Disse:

    A Ação Popular não é aquele mesmo movimento que colocou uma bomba no aeroporto do Recife sem sem preocupar se inocentes morreriam em nome de sua ideologia?
    Quem faz uma coisa dessa se diferencia em que dos seus oponentes?

  3. samarone Disse:

    Andre,
    A Ação Popular teve milhares de integrantes, em todo o país, era uma galera que tinha a origem cristã.
    Esta ação, em 1966, foi realizada por uma pessoa, sem qualquer conhecimento da direção nacional, que resultou em duas mortes.
    A repressão prendeu dois engenheiros, dois anos depois, torturou, acusou de algo que eles não tinham nada a ver.
    Estou escrevendo um livro sobre isso.
    A AP era bem diferente da ditadura. Ela cometeu um erro, mas não torturava, matava, estuprava e fazia desaparecer cadáveres.
    Estou escrevendo um livro sobre este atentado. Espero que leia.
    samarone

  4. Andre Disse:

    Ah tá, quando esse grupo realiza um atentado matando inocentes se tratava de uma ação isolada. Mas quando eles eram presos eram perseguidos?
    O que se precisa entender é que não se trata de uma avaliação binária, onde os lados são diametralmente opostos. Houve excesso dos dois lados, o problema é que quem perdeu teve a hegemonia na narrativa.
    O idolatradado Carlos Lamarca(que ninguém pode dissociar dos movimentos revolucionários), por exemplo, esfacelou a cabeça do tenente Alberto Mendes Junior com a coronha do fuzil. Imagino que essa passagem não será mencionada em seu livro, que, diga-se de passagem, terei imenso prazer em lê-lo.
    Saudações tricolores…

  5. João Vianêis Disse:

    Samarone, há suspeita de que este atentado do aeroporto do Recife tenha sido realizado pelos próprios militares, ou grupos de apoio a eles, para incriminar a esquerda. Isto tem algum fundamento?

  6. rob Disse:

    O problema do oprimido nao e a liberdade, mas a vontade de ser opressor. No Brasil, nos anos 60 que vivi, o problema nao era malvados e bonzinhos, era mais bem uma circunstancia propria do momento, de radicalismo e de guerra fría. Os militares foram uma saida, construida e apoiada pela sociedade civil, para resolver essa radicalizacao e a dicotomía entre capitalismo e comunismo. Nao se enganem, o povo brasileiro sempre foi, e continua sendo, conservador e classista. Sempre.

  7. George Guedes Disse:

    …”uma alternativa construída com o apoio da sociedade civil”… Isso equivale a querer mudar a história, assim como pretendem o astrólogo imbecil Olavo de Carvalho e o desmiolado terraplanista Ernesto Araújo.
    Gente conservadora, classista, racista, egoista e etc, existe em todo lugar, mas no Brasil o que mais temos é gente ignorante.

  8. samarone Disse:

    Sou antigolpista por índole.
    Este blog é livre, podem falar o que quiser, mas prefiro sempre a Democracia, com todas as suas imperfeições.
    #DitaduraNuncaMais

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