Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Para uma nova amiga, de 80 anos

29 de maio de 2019, às 13:43h por Samarone Lima

Desde sempre, gostei de gente, de fazer amigos, e manter com eles laços que vão pela vida.

Gosto de farejar, de buscar, de sentir que um novo amigo está chegando. Por outro lado, sou capaz de andar mil léguas por um amigo.

Tenho uma pequena legião, que pode estar longe, que posso não ver há muito tempo (já que vivi em tantas cidades), mas basta um encontro, que retomamos uma conversa de três anos atrás. “Sim, mas como você vinha falando…”

Nesses tempos difíceis, quando a realidade é quase uma deslealdade, os amigos são uma espécie de oásis. Podemos conversar, repensar os rumos, ver estratégias de sobrevivência não só financeira, mas psíquica, porque há muita violência, muita falta de cuidado, muita agressão, muita “grosseria generalizada”, como diz a poeta Adriana Perrucci. Os amigos são uma sombra em qualquer sol, em qualquer chuva.

E registro pouquíssimas perdas. Os que, por algum motivo, simplesmente desistiram, deixaram a amizade minguar, tiraram a planta do sol. Faz parte da vida.

Ao longo da vida, tive muita sorte com eles, os que ficaram e criaram raízes, que fazem parte deste meu jardim. O Gustavo de Castro, o Jacaré, meu amigo de longas jornadas em São Paulo. Temos no currículo milhares de horas no alpendre da Canuto do Val, na Santa Cecília, quando ele fazia o doutorado, eu fazia o mestrado. Conversas sem fim, sobre a vida, os sonhos, arte, literatura, viagens, fracassos retumbantes que vivemos, enfim. E Josmar Josino, o Valente? Com certeza, o maior jornalista que vi trabalhando ao meu lado. Foi minha escola. E Selminha? “Nunes, Selma Nunes”, respondia ela, ao telefone. Só de falar, a saudade se mexe.

Já vi que esta crônica vai ser longa.

No Recife, outros tantos, que não poderei citar os nomes. São muitos do coração. O velho Inácio, Laércio, Naná, Seu Vital. Agora, em Olinda, novas descobertas e redescobertas, como a amiga Valda, que amiga de tantos anos, agora em Portugal, fazendo seu doutorado. Aqui, conheci o velho e bom Helder, dono do Sana Bar, que sonhava em fazer Filosofia, enquanto o país desmoronava. Há alguns meses, arrendou o bar, entrou na Universidade Católica e agora está enfurnado na Biblioteca Central, envolvido com seus novos amigos: Platão, o chegado Aristóteles, Plotino etc. Por falar em Filosofia, não posso deixar de falar de Zeca, O professor Marçal, Kiko, o filósofo que mais tem nomes e apelidos no Brasil, agora professor da UFRPE. Um “Crânio”, como se dizia antigamente.

Mas dou sorte porque ganho amigos que dificilmente teria, por serem pessoas muito conhecidas ou distantes.

Uma delas foi Ariano Suassuna. Na vida, tive pouquíssimos encontros com ele, coisa rápida, e por essas tramas do destino, acabei virando assessor de imprensa quando ele era secretário, e vivi cinco anos maravilhosos, viajando pelo interior de Pernambuco, acompanhando suas aulas-espetáculo e entrevistas. Sobre esses cinco anos com ele na estrada, ainda escreverei.

Cici

Até que, há um mês, surgiu o nome “vovó Cici”, aqui no Sebo. Quando falo “aqui no Sebo”, é porque moro numa casa-sebo. A idéia de Aura, minha namorada. Trazê-la da Bahia, para vivências, a partir das histórias afro-brasileiras.

Sim, mas com que dinheiro, todo mês eu faço milagres, para pagar o aluguel em dia?

A sugestão foi só uma – correr o risco. As tramas do destino costumam se arrumar quando há uma intenção verdadeira, amorosa, de cuidado e beleza.

E dia 22 de maio, ela chegou aqui, vinda de São Paulo, onde foi participar da Virada Cultural. Ficou até o dia 26. Ela é esta criatura linda das foto. Tem 80 anos, trabalha há muitos anos na Fundação Pierre Verger, na Bahia. É conhecida como Ebomi Cici, mas quando chegou aqui, olhou para o quadro negro com os dois nomes, apagou o “Ebomi”, que é um título que poucas pessoas têm nos terreiros.

“Basta Cici”, disse.

Era uma quarta-feira à tarde. Ela ficou num dos quartos que reservei para os amigos ou viajantes de boa fé (não topei a parada do AirBnb porque eu gosto de receber na minha casa gente que seja mais da minha espécie – do silêncio, da quietude, da boa conversa).

Foram quatro dias inesquecíveis. Tivemos vivências com grupos fechados (até 35 pessoas) na quinta, sábado e domingo. As pessoas ficavam extasiadas, com sua oralidade, a capacidade de passar horas contando histórias da “diáspora africana”, dos orixás, dos mitos, de sua vivência e aprendizados com o grande Pierre Verger.

Na sexta-feira, creio que Sebo viveu um dos momentos mais belos, nesses dois anos. O Sarau, que geralmente começa às 21h13 ou mais, e vai até tarde, com o microfone aberto para poetas e artistas em geral, recebeu, a partir das 19h33 uma senhora baixinha, que caminhava lentamente, amparada por uma daquelas muletas de alumínio, a “Muleta Canadense”, porque tem um sério problema de artrose.

Ela sentou, olhou para o público (umas sessenta pessoas), abriu um sorriso, se apresentou e passou duas horas contando histórias, ao lado de dois músicos, que tocavam ritmos que ela pedia, e cantava. Em alguns momentos, levantou e dançou, para mostrar como era a coreografia.

Sempre, no Sarau, boto cervejas para gelar e ganho uns trocados a mais, para ajudar nas contas. Nesta sexta, tinha ainda umas 30 cervejas do sarau anterior, e resolvi não comprar mais.

Durante toda a noite, não teve uma pessoa pedindo cerveja. O silêncio era absoluto. Todos pareciam ávidos de histórias, de encantamento. Caso raríssimo, quase ninguém puxou o celular para gravar nada. Tudo parecia obedecer a um ritmo diferente, a uma atmosfera que acontece em alguns momentos da vida. Todos estavam presentes.

Ao final, fui recolhendo as cadeiras e formou-se um novo público. Umas dez pessoas sentaram na calçada, ao seu redor, e a conversa foi até meia-noite. Eu queria que todos os meus amigos estivessem aqui, na sexta passada.

Nesses dias, conversamos muito. O café da manhã, demorado, rendia ensinamentos, partilhas, breves comentários que eram uma parábola. Mas, acima de tudo, um culto à simplicidade. Em cada gesto, um ensinamento. Tem na vida a missão de levar a memória da herança dos ancestrais, os que “vieram em navios negreiros”, para que os de hoje possam levar estes legado – para os que ainda estão por vir.

Anotei muitas coisas de nossas conversas. Uma delas me tocou em especial:

“O tempo só é bom para quem sabe esperar”.

Tenho mais uma amiga na vida. E como ela é linda. Breve estarei na Bahia, para retomar as conversas.

Postado em Crônicas | 2 Comentários »

2 Comentários

  1. Amaro Disse:

    Realmente, deve ter sido um momento muito especial. Parabéns.

  2. Aline Disse:

    Sama, nunca mais tinha passado aqui. Que arrependimento. Como sempre, ótimas histórias.

    Que elas sejam infindáveis.
    Saudades!

Conversinhas

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