Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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A qualquer hora, a casa cai

12 de junho de 2019, às 12:35h por Samarone Lima

 

Uma das poucas virtudes que tenho é a de agüentar calado muita coisa. Nunca fui adepto do “não levo desaforo pra casa”, porque muitas vezes nem é um desaforo, é só um mal-entendido, coisa que se resolve com uma conversa, com mais calma.

Em outros casos, é um disparate tão grande com as coisas que acredito, vivo e sonho, que prefiro não perder meu tempo. Gasto minhas palavras com meus amigos, ou as pessoas que têm a mínima abertura para trocar idéias – não insultos.

Pois eu venho agüentando caladinho a sanha desse tal de Sérgio Moro – e das pencas de Morinhos que simplesmente brotaram, no Brasil, nos últimos anos. Uma mistura de presunção, arrogância, cobiça, vaidade e “posso tudo”.  Essa gente que carrega um rei na barriga, orgulhosa que só pavão novo.

E tem um clube que freqüento, de classe média, no Recife, que é meu teste semanal. Vou lá, nadar e pegar uma sauna duas vezes por semana, e disparado, sou o menor PIB.

Os coroas que vão lá são todos do mesmo time. O que tiver de pior, no país, eles apóiam na hora, vestem a camisa. Se puder, botam a farda. O que a Globo diz, no encontro seguinte, eles já estão repetindo.

Pra não dizer que não falei das flores, outros dois são do meu time, à esquerda, mas também pouco interessado em discussões inflamadas com uma gente que vive esculhambando Lula e o PT (76% do tempo)  e conversando sobre as viagens à Europa, ações na bolsa, a venda de um dos três carros, as casas em Aldeia, um filho que mora em Londres, enfim (24%). É um povo que não consegue ficar calado.

Outro dia, calhou de ficarmos os três (os de esquerda, que eles chamam logo de petistas) sozinhos na sauna, e logo que isso aconteceu, nos entreolhamos na cumplicidade e veio o inevitável comentário:

“Já perceberam que já pararam de falar do presidente que elegeram, né?”

Pois é.

Escutei e fiquei calado, na minha posição de meditação, um deles, que sempre chegava vermelho, eufórico, aos berros, durante o vergonhoso processo de impeachment da então presidenta, Dilma Rousseff:

“Cunha é meu herói! Cunha é meu herói!”

O herói dele foi pego com muita grana em paraísos fiscais e está preso.

Quando Lula foi preso, abri meu sebo aqui em Olinda e os amigos foram chegando, arrasados, cambaleantes, creio que foi o velho Léo Antunes que providenciou um projetor, e assistimos um documentário incrível do Leon Hirzman, “ABC da Greve”, onde se via Lula comandando milhares de metalúrgico, e sendo levado nos braços do povo, desde sempre.

Depois tomamos umas e discutirmos sobre os tempos sombrios que se avizinhavam.  E eles viriam pior do que imaginávamos.

No dia seguinte, fui ao clube. Fiquei calado que nem doido-manso. Não disse um arroz. Mais quieto que pestana de defunto. Os homens estavam no céu. A prisão de Lula era como o salvo-conduto para o futuro do Brasil. Finalmente, o país estava livre de uma praga. E eu, para a irritação de alguns deles, fiquei caladinhi, costurando com minhas próprias linhas a tristeza que era só minha.

Os heróis deles variam, ao longo dos anos. Cunha, Michel Temer, Bolsonaro, por aí vai. O mais recente, claro, é o juiz Sérgio Moro.

Moro pra cá, Moro pra lá, e eu calado, na minha, só vendo a maruagem, os arrumados do poder, já preparando o dito cujo para o Supremo, valei-me Padim Ciço.

Entre os amigos, a gente dormindo nas urtigas, contando estrelas ao meio-dia, comendo o pão seco do desterro, rezando para essa onda devastadora de retrocesso dar pelo menos uma mitigada. Cada dia era uma notícia pior que a outra.

Mas, como diz o ditado popular, todo mofino tem seu dia.

Chegou a hora da verdade. O jornalista norte-americano Glenn Greenwald e um grupo de jornalistas colaboradores publicou as reportagens no Intercept Brasil, mostrando o “modus operandi” do senhor Moro, no processo contra o ex-presidente Lula.

Moro Batia escanteio, corria, cabeceava, fazia gol, comemorava, apitava o fim da partida e expulsava o time adversário no mesmo jogo. Depois levantava a taça de campeão da moralidade e dava a volta olímpica sozinho. Um escândalo internacional.

O homem que só queria ser o 31 de fevereiro, está agora tendo que colocar suspensórios em cobra, cantando o coco sem saber a toada, chamando urubu de meu louro. Mais parece uma carranca de portão, com os olhos arregalados de tensão.

Como diz o velho ditado, “quem quer ser grande sem poder, fica pequeno sem querer”.  É o caso.

Hoje, por sinal, o clube citado vai estar aberto.

Vou lá, ficar no meu canto, pegando aquele calor bom no organismo. Vou ficar na minha posição de meditação, bem calado e quieto, como sempre.

Gosto deste espírito de contenção, mas… quando Lula for solto, meus amigos, eu realmente não vou prestar pra nada.

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