Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Pequenas histórias da última Ditadura, para teatro (1)

31 de julho de 2019, às 15:34h por Samarone Lima

Eu só estou vivo por causa do meu pai.

Ator 1: Teu pai tinha algum envolvimento com a luta clandestina?

Filho: Não, cara, é porque certo dia, quando as coisas estavam ficando cada vez mais difíceis, com muitos companheiros sendo presos, teve um momento decisivo. Na hora do café da manhã, tipo cinco e meia, seis horas, meu pai, Seu Castro, me perguntou:

Pai (surge na cena com uma luz direta. É um homem velho, amoroso, calejado, de voz intensa. Serve um pouco de café): O que é que está acontecendo, meu filho? Você está cada dia mais agoniado, mais tenso. Você está tão envolvido assim? Me diga a verdade: você corre o risco de ser preso?

Filho: Está tudo muito estranho na fábrica, pai. Acho que tem gente infiltrada, um pessoal diferente está circulando. Uma gente esquisita. Mas eu, pai, se eu cair, eu vou reagir.

Pai: E por quê, filho?

Filho: Porque eu sei que tem muita tortura, pai. Os caras são covardes, fazem o diabo. Não sei quanto tempo conseguiria resistir calado. Se eu não resistir, pai, se eu abrir o nome de um companheiro, um endereço, algo importante, eu não conseguiria viver com isso, o senhor me conhece. Prefiro reagir. Prefiro morrer.

Pai: Você está armado?

Filho: Tô, pai. Tenho a tua arma, aquele 32 que estava escondido no armário. Se me pegarem, vou reagir.

Pai: Se você reagir o que é que vai acontecer? Você… vai morrer?”

Filho:Vou. Vou morrer sim, pai. Certamente eu vou morrer.

Filho: (Muda a posição no cenário e começa a conversar com a platéia): Então isso foi uma conversa assim, foram uns quinze minutos de conversa extremamente densa e… é um pai né? Vocês podem imaginar o que era aquele momento. Um filho dizendo ao pai que está envolvido numa luta contra uma ditadura, e que se for pego, prefere morrer.

(tentando mudar o tom pesado)

A gente era muito amigo, sabe? Meu pai já morreu, mas a gente era muito, muito amigo. Era como se fosse meu pai e meu irmão.  A gente conversava muito, tenho o mesmo nome dele. Mas nesse dia, no café da manhã, ele não pediu nada. Não, ele não pediu a arma, ele apenas falou:

Pai: Olha, mas por quê?

Filho: É o medo de falar, pai, de abrir o bico.

(pausa)

Pai: (Se aproxima, bota a mão no ombro do filho). Olha, meu filho, se você for preso e se for torturado, você  não vai falar. Eu te conheço. Você não vai abrir bico nenhum e você vai sobreviver.Um dia você tem que sair e você vai sair e vai poder continuar a sua luta entende? Você vai continuar a sua luta, vai fazer a luta do seu jeito.

Filho (Falando com a platéia novamente): Aí eu comecei com aquele papo de que “do sangue do militante assassinado nascem não sei quantos”, uma tentativa de dizer que a luta continuaria mais forte ainda, um, dois, mil Vietnãs, ele escutou tudo calado. Quando eu terminei, ele balançou a cabeça e disse:

Pai: Filho, você sabe que não é assim.

Filho (de volta para a platéia): Mas ele não me pediu absolutamente nada. Isso foi o que mais me tocou. Naquele momento tão perturbador para um pai, tão desesperador, sabendo que o filho poderia morrer, porque ele sabia o que poderia acontecer. Na verdade, ele sabia o que iria mesmo acontecer comigo, ele simplesmente ficou em silêncio. Ele não me pediu nada.

(Silêncio. O filho se levanta e se movimenta, repetindo a cena que está descrevendo).

Terminamos a conversa. Chegou a hora de me trocar. Era um dia tenso, tinha atividades na fábrica, eu estava muito cabreiro com umas figuras estranhas, que estavam rondando nosso grupo…

Mas preferi escutar as palavras do meu velho. Fui no meu quarto, peguei as armas e entreguei pra ele.

Filho (para o pai): Guarda isso aí, velho. Você tem razão, hoje eu vou para a fábrica desarmado.

Filho (para o público): Demos um longo abraço. Foi o mais longo abraço que recebi do meu pai, em toda a minha vida. Ele era um homem muito contido, calado, e estava visivelmente emocionado. Eu fiquei desarmado mas forte.

E quando eu atravessei a rua os caras me pegaram.

(BLACK OUT. Silêncio longo)

Postado em Crônicas | 2 Comentários »

2 Comentários

  1. Amaro Disse:

    Meu Deus. Triste memória.

  2. George Guedes Disse:

    Infelizmente tem muita “gente boa”, muito “cristão piedoso”, “pais exemplares” e “pacatos e caridosos cidadãos” que querem ver de volta o flagelo e a covardia de infame ditadura. Bando de hipócritas!

Conversinhas

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