Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Pequena história de uma casa azul

12 de março de 2018, às 10:10h por Samarone Lima

A coisa mais improvável para mim, naquele início de março de 2017, era sequer pensar em alugar uma casa em Olinda. Eu era um sujeito latinoamericano sem dinheiro no bolso ou no banco, coberto de dívidas e problemas em diversas escalas Richter. Tudo desabava. Lembrava mais os personagens de Oswaldo Soriano, em seu impagável Triste, solitário e final. 

Então aconteceu o mistério, o milagre, e o recomeço de uma vida que estava arrebentada, de norte a sul.

Vamos pelo fim. Hoje, dia 12 de março de 2018, completo um ano morando nesta linda casa, que abriga o meu Sebo Casa Azul.

Vamos voltar no tempo.

A história começou com uma taróloga, a querida Eunice Mota, que faz parte do grupo de estudos do Budismo e outras paradas da vida. Ela já tinha oferecido colocar um tarô, mas calhou de marcarmos para uma segunda-feira, seis de março de 2017.

As cartas não mentem jamais. Apareceu mudança, mudança radical, não ficaria nem nada, somente os vestígios, coisas que a memória acolhe e transforma. Ao final daquela tarde/noite misteriosa, eu podia fazer cinco perguntas e puxar uma carta para cada. Eu queria fazer umas 20, mas estranhamente, perguntei pela casa, já que eu sonhava em ter um sebo. Bingo! Estava na hora justa, hora de se mexer, meu filho, deve ter dito a amada Eunice Mota, naquele venturoso entardecer.

Vamos cronometrando.

No dia 7 de manhã (terça, dia do Fuzileiro Naval e da Advocacia Pública), liguei para Chivi, amiga argentina que tinha morado em Ouro Preto e estava pensando em alugar uma casa em Olinda. Ela atendeu. Perguntei se ela sabia de alguma casa para alugar.

“Ah Samarone, sabe acabei de sair de uma casa azul, mas ela é muito grande para mim, e meio fora de mão, porque quero abrir minha padaria integral sustentável, se você quiser, te dou o contato do corretor”.

De tudo o que ela falou, guardei um trecho: “uma casa azul”.

Liguei para o corretor, Paulo, que marcou comigo para o dia seguinte, quarta-feira, dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher.  Ele deu o endereço: rua 13 de maio, 121. Um pedaço de papel, anotado às pressas, estava mudando a minha vida. A soma dos números dava oito, e achei bom presságio.

Tenho minhas mandingas e conexões as mais diversas.  O fato é que saí da rua da Aurora, peguei o ônibus, desci no Carmo, e quando fui entrando na cidade, fiz minhas orações, pedi licença para entrar, que vinha com as forças da bondade, queria apenas me reencontrar, estava por aí a procurar, rir pra não chorar.

O corretor já me esperava. Gente boníssima. Entramos pela lateral, ele foi me mostrando tudo, a casa era imensa, arejada, toda arrumadinha, tinha ficado um tempo para vender e não vendeu, tinha sido alugada no Carnaval que passou. Foi vendo devagar e me emocionando, olhando cada pedacinho e tremendo por dentro, de emoção. Depois de mostrar tudo ele disse “vamos ver lá embaixo?”

Tive um susto. Ainda tinha um quintal quase do tamanho do Arruda, com dois pés de fruta-pão e uma mangueira.

Mas eu temia duas coisas: o preço do aluguel e a famosa frase “mas tem uma pessoa na frente”. O valor do aluguel era bem razoável e não tinha ninguém na frente. Ficamos conversando umas águas, eu e o Paulo. O pai dele tinha sido jornalista, a conversa ficou boa, até que ele ligou para a dona da casa, Lady. E tome reza.

“Dona Lady, tem um rapaz aqui que gostou da casa e…”

Eles conversaram um pouco, acionei todos os santos e guias, lembrei de Oxalá, todo mundo foi convocado.

“Ela está perguntando pelo seu nome”.

Eu disse que era Samarone, ele retransmitiu a informação e repetiu algo que me encheu de animação: “Ah, a senhora conhece ele?”

Coisas da vida. Dona Vardeleide fora casada com Chico Arruda, amigo tricolor das bandas de Olinda, morto há uns dois anos.

Nos encontramos à tarde. Leide é uma mulher muito simples, gentil, disse os documentos que precisava, ela mesmo preparava o contrato, eu não podia dizer o quanto estava liso, e saí com a missão de mandar os documentos, achar um fiador e, principalmente, levantar o primeiro mês de aluguel, sabe-se lá de onde.

Meu chefe na época, o sr. Inácio França, topou ser meu fiador. Pensem num homem corajoso.

Na sexta-feira, Sidney Rocha me ligou, perguntando pelo ensaio que eu tinha prometido fazer para um projeto dele, eu nem lembrava, nos encontramos, tomamos um café, ele disse “vamos ali, que tenho que te dar os R$ 1.000,00 que acertamos”, eu quase choro. Era o que faltava para o aluguel.

Na sexta-feira o corretor avisou que estava tudo certo, e uma das mais lindas frases da língua portuguesa:

“Amanhã de manhã ela vai levar o contrato e a chave da casa”.

Sábado, 11 de março, umas 10h33, o corretor chegou, ficamos conversando, eu olhando para a casa e dizendo por dentro “isso é um milagre”. Dona Leide chegou, mansa como sempre, tirou os contratos, assinamos, entreguei o primeiro aluguel, ela me entregou as chaves, e entrei na casa, agora como morador, até o dia 14 de setembro de 2019.

Entrei e fiquei namorando a casa umas horas. Andei, fiz minhas orações, agradeci, volti à rua da Aurora para começar a organizar a mudança.

No domingo, 12 de março, dia do Bibliotecário e aniversário de Olinda, cheguei com uma rede e uma muda de roupas, fui comprar produtos de limpeza, vassoura, rodo e comecei a limpar a casa. Olinda estava em festa, com muitos maracatus celebrando o aniversário da cidade.

Três ou quatro dias depois da minha chegada, uma gatinha linda, que eu sempre fazia carinho quando passava, entrou sorrateiramente e chegou ao meu quarto. Subiu à mesa, depois deitou em cima do teclado do notebook, até que veio para o meu colo e ficou. E nunca mais saiu.

Batizei-a de Isabelitta. Está aqui ao lado, dormindo. Ela foi um desses presentes que a vida dá, quando a gente verga com um sopro, mas resiste a qualquer lâmina, como diz o poeta.

Teria que escrever uma crônica imensa, com dezenas de nomes de pessoas que me ajudaram, nos dias e semanas seguintes, de diversas formas. No dia 7 de abril de 2017, graças a essa gente toda, abri o Sebo Casa Azul.

Isso merece outra crônica, que escreverei em breve.

Quanto aos personagens citados: Eunice segue firme com seu Tarô (que recomendo) e em nosso grupo de estudos, Inácio não foi importunado por eventuais atrasos de aluguel (só um mês atrasei alguns dias) e deixou de ser meu chefe no final do ano passado. Sidney Rocha perdoou o ensaio nunca concluído e vem sempre aqui, conversar nossas águas. Chivi abriu uma charmosa padaria integral sustentável, na rua 13 de Maio, sempre cheia de gente bacana e comida boa. Dona Leide, com sua gentileza de sempre, nunca me reclamou de nada.

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As coisas que bastam

31 de janeiro de 2018, às 21:30h por Samarone Lima

Há uns três meses, o corretor da casa onde moro, aqui em Olinda, passou a me ligar. O assunto eu já imaginava – alugar a casa para o Carnaval. Na casa, funciona o Sebo Casa Azul. Deve ter uns dois mil livros. Fora minhas fotografias nas paredes, os lugares mais aconchegantes, os espaços que dão mais alegria de ficar. Toda casa tem seus mistérios e segredos.

Veio umas três vezes, com umas propostas financeiras meio indecentes. Alugar a casa para um grupo que vinha não sei de onde, chegaria na sexta, saindo na quarta-feira de cinzas. Ou seja, eu sairia de casa na sexta-feira, ficaria em algum canto que nem imagino, e voltaria na quinta-feira, para ver o que sobrou.

“Basta tu colocar esses livros todos num quarto e liberar o restante”, dizia ele.

Eu escutava a conversa. Metade do dinheiro na conta, já no dia seguinte. A outra metade quando a turma chegasse. Uma ótima grana. E eu, liso feito um gambá, arrumando a casa aos poucos, ajeitando uma coisinha aqui, outra ali, o dinheiro miúdo, difícil de aparecer. Uma onça no meu bolso era animal em extinção.

Mas cada vez que ele vinha, eu ficava com o coração apertado. Pensava nos livros, na casa, na gatinha Isabelitta. Pensava nas plantas, nos livros do meu acervo pessoal, nas minhas pequenas coisas. Mas pensava, principalmente, em quem iria ficar num lugar que eu vinha cuidando com tanto zelo. Quinze, vinte pessoas? Vindos de onde? Filhos de grileiros de alguma parte deste país devastado? Agroboys, tocando o terror? Para mim, parecia inimaginável não saber esta origem. A origem, muitas vezes, diz tanto…

Chegou um dia em que fui direto ao assunto. Não iria alugar a casa. Ele arregalou os olhos. Falou do dinheiro. Eu pensei – já estou liso há tanto tempo, que uma hora isso vai passar. E não fechei negócio nenhum.

E súbito, me veio uma imensa alegria. Porra, nem tudo está à venda!

De lá pra cá, fui cuidando mais da casa, apareceu um dinheiro que eu não esperava, pude fazer pinturas, reparos, tirei uma parede de gesso da sala, e ela ficou enorme, bela, pintada de azul-céu. Isabelitta, muito agradecida, passou a dormir com mais tranquilidade.

Pois bem. O Carnaval está chegando. A cidade está a mil. Aos 48 anos do segundo tempo, vou estar em Olinda, na minha casa (o aluguel vai até 2019), e poderei ver todas as troças e loucuras passarem.

Uns amigos combinaram de ficar dois dias, para usar a casa como ponto de apoio. Água, chuveiro, banheiro, descanso no quintal, essas coisas. Nada de “Day Use”. Muito mais, uma pausa para descanso. Não sei como se diz isso em inglês, pausa para descanso. O professor Marçal resolve em trinta segundos. Outros já disseram que pretendem vir, e vão dar uma grana, para ajudar com um segurança e uma faxineira. Tudo simples.

Depois que o corretor foi embora, naquele afortunado dia, fiquei pensando em outra coisa. Como seria ridículo, depois de tantos carnavais zanzando pelas ruas de Olinda como um folião errante, simplesmente sair da festa, para os outros ocuparem a casa, na hora mais preciosa.

Minha cota de fazer besteiras na vida é bem extensa. Dá umas vinte laudas de word, com espaço 1, na letra Cambria.

Essa eu não fiz. Vou ao meu primeiro Carnaval aqui na 13 de Maio. Espero me divertir com as pessoas queridas por perto, na mais pura alegria.

Isso me basta. Ou, como diz um grande amigo, “isso é o suficiente”.

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O monge poeta ou o poeta monge.

9 de janeiro de 2018, às 16:19h por Samarone Lima

Estava no bar de Peneira, nos Quatro Cantos, aquele vento perpendicular atravessando o salão, tomava minhas habituais notas, amparado por uma mesa que dava com a vista para a Ladeira da Misericórdia, quando levantei a vista e me deparei com um sujeito com um rosto ainda não visto, nas minhas andanças por Olinda. Ele soltou a pergunta intimidadora:

“Você é poeta, não é?”

Antes eu ficava em dilemas emocionais, mas melhorei.

“Sou sim”.

“Como é teu nome?”

“Samarone”.

“Ah, li um livro teu”.

Bem, começou por aí, conversamos um pouco de mesa para mesa, até que me aproximei, estendi a mão e ele me disse o nome – Tito.

Estava bebericando uma cerveja. Disse que também era poeta e tinha publicado um livro, pela editora edith (assim mesmo, com minúsculas). Depois disse que era monge.

“E monge bebe?” – perguntei.

“Hoje tenho permissão para sair”, foi tudo o que ele disse, respondendo parcialmente ao meu comentário nada a ver.

Conversamos mais um pouco, ele demonstrou uma imensa paixão pela poesia, depois segui minhas perambulações habituais.

No dia seguinte, tinha um livro que alguém deixou no sebo (isso tem acontecido sempre). Passei a mão em cima, limpei, e vi o título – “Digitais do Caos”, de Tito Leite. Olhei a foto na orelha e confirmei – era ele, o monge.

Fui ler. Muita coisa boa. Bons ventos poéticos, soprando no mosteiro onde ele está abrigado.

Vejamos o poema “Jardim da existência”.

“A existência tem decotes de Eva.

Uma obra original

precede o veneno.

Amo todos os sentimentos

que burlam a minha fé.

Sou um mistério desnaturado

a esmo no silêncio

dos minérios”.

Estou lendo devagar, tomando notas. O monge e poeta tem umas coisas novas e instigantes, vale à pena ter o livro por perto.

Convidei-o para o projeto “Poetas de Sexta”, aqui no Sebo Casa Azul, mas ele só recebe o passe-livre aos sábados. Quem fornece o passe é o Abade. E se trocar o sábado pela sexta-feira, foi o que pensei, mas é melhor ficar quieto, só a palavra Abade já deixa o cara preocupado.

“Uso sapatos

de chumbo para o vento

não me roubar”.

Tem um bocado de coisa boa, densa, umas arriscadas diferentes.

“A alma de um artista

tem partituras de lâmpadas”.

Depois fui olhar a orelha do livro. Tem poucas informações. Aparece quatro vezes a palavra “Filosofia”. Parece que ele gosta da coisa. Preciso apresentá-lo a outro santo Monge, o professor Zeca, o J.C.Marçal, ou Kiko, depende do lugar e do entorno.

Logo na abertura do livro, na parte “Enciclopédia do Caos”, há uma citação de Martin Heidegger, que Zeca lê desde os tenros sete anos:

“Por que simplesmente o ente e não antes o nada?”

Uma pergunta que levarei a eternidade inteira para entender, muito pior para responder. Zeca teria iluminações, falaria duas horas e meia explicando a hermenêutica da pergunta, se é que existe isso.

Ele cita também Baudelaire. Bingo. Os dois vão filosofar até Peneira dormir e acordar dezenas de vezes.

Descubro que o poeta-monge nasceu em Aurora,mesma cidade que o meu pai, José Vicente.

Essas coisas da vida.

Vai um trecho de “Desregramento do ser”:

“A beleza de um sentimento corresponde

ao seu risco.

Insurgem ecos de uma explosão paradisíaca:

a minha inquietude quer sê-la.

Sou como Empédocles,

sigo o que acredito

até a cratera de um vulcão”.

O cabra se garante.

Vamos ver se sábado que vem ela recebe o passe livre novamente. Vou levar Zeca, para os dois filosofarem até o anoitecer.

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Balanços

24 de dezembro de 2017, às 0:54h por Samarone Lima

No final de ano, há uma pressão psicológica, midiática, quase um circo meia-boca, para o sujeito fazer o balanço do ano, jogar o que não prestou pra fora e planejar o ano que vem na base do “tudo-vai-ser-lindo”. Ou seja: vai parar de beber, fumar, vai fazer menos besteira, vai ser meio Titãs, com aquele papo “deveria ter trabalhado menos, ter visto mais o sol se pôr”. Fiquei na dúvida se esse “por” tem ou não acento, mas depois que tiraram o acento de vôo, tudo é possível.

Eu acho isso de uma cafonice tremenda. Falo dos balanços e mudança de vida radical porque o “ano virou”.

Isso porque acredito em muitas coisas, menos que a passagem de algumas horas, entre o 31 de dezembro de um ano, e o dia primeiro do ano seguinte, vai mudar alguma coisa fundamental. O Temer vai estar lá, organizando seus jantares para arrancar nosso sangue. Os deputados federais de Pernambuco, que votaram contra o povo em todas as sessões, serão rigorosamente reeleitos.

Mas, como sou cafona, vai minha lista de alguns dos melhores momentos de 2017.

1. O professor J.C.Marçal passou em primeiro lugar no concurso da UFRPE.

O bicho é inteligente até umas horas e foi inventar de concorrer a uma vaga. Deve ser no curso de Filosofia, porque o homem é amigo intimíssimo de Heidegger. Tirou o primeiro lugar. Também pudera – o homem dá aula riscando na lousa os temos em grego, do mesmo jeito que faziam Platão e Aristóteles. Lembrar que um veio antes do outro.

2. Consegui alugar uma casa em Olinda, onde funciona meu sebo.

Foi um milagre digno dos melhores momentos da Bíblia. Isso aconteceu em março. O segundo milagre foi chegar ao final do ano com os aluguéis todos em dia.

3. No prêmios literários, fui um desastre.

Fiz uma seleção rigorosa dos novos poemas, deu 45 páginas. Inscrevi em quatro concursos nacionais, inclusive o daqui de Pernambuco. Os prêmios eram na faixa dos R$ 30 mil. Fiquei sonhando com as dívidas todas em dia, vinho bom, viagens, mas dei com os burros n’água. Nem menção honrosa descolei. Fica para 2018 mesmo. O pior é que gastei uma grana boa com xerox, correios etc.

4. Aprendi a postar vídeos no Facebook do sebo Casa Azul.

Sem comentários. Foi um avanço intelectual notável. O próximo passo será aprender a baixar músicas. Sempre, claro, com  ajuda de alguma criança de até seis anos.

5. Isabelitta chegou.

Minha gatinha veio em março e nunca mais saiu. Não tenho a menor dúvida que ela realmente gosta de mim. E vice-versa muito mais.

6. Mais um anos sem papos legais com Déa Ferraz, Emília e Pedoca Chupeta e outras criaturas de “primeira linha”, como diz Seu Vital.

Realmente, fica difícil a vida assim. Quase não encontrei essas pessoas amadas. Isso inclui Cacah Travassos, o velho e  bom Joab, o filósofo do Morro da Conceição, Naná (vi pouquíssimo, desde que me mudei), Seu Vital, Dona Severina, Bita e mais meio mundo de gente.

De Josafá eu não vou nem falar.

7. Este ano não fundei bloco de Carnaval, não lancei nenhum livro, não inventei de ser dono de bar, viajei pouquíssimo e fiquei quieto no meu canto.

Não sei se essa informação é boa ou ruim, mas fica o registro.

8. Praticamente não assisti TV e comprei jornal umas duas ou três vezes, ao longo do ano.

Nas vezes que comprei jornal, me arrependi.

9. Novos amigos brotaram em diversos canteiros: Helder, Vassoura, Erich, Pedro (galera do Sana Beer), Aloma, Dona Irene, Seu Mago, China, Cássio, Natasha, fora os amigos do Santa Cruz, que seguraram uma barra danada (o velho Inácio França, Tiago, Digão, Arthur, Cecília etc). Alírio, grande ser humano, queridíssimo. Sidney Rocha, Amigo do Sebo e dos Negócios, fez também sua parte com louvor.

10. Mais um ano sem carteira assinada. Do jeito que está minha carteira, eu só me aposentaria se fosse um japonês, desses que vivem 110 anos. Como o Temer deve ficar até o final do ano que vem, ele vai querer abolir a aposentadoria. Ou seja, não serei afetado.

11. Mais um ano com a velha dificuldade para comprar roupas.

É uma impaciência íntima. Ir a um local, escolher a roupa, provar. É quase tão chato quanto ir ao banco, ver a situação da conta, e escutar aquelas lorotas do parcelamento em 336 meses. E não sei que diabo existe no Brasil, que até para pagar, nas lojas mais caras (que não é o meu caso), você tem que pegar uma fila imensa.

12. Como em anos anteriores, os amigos seguraram a onda.

Em todos os cantos da minha alma, posso dizer – meus amigos são mesmo foda. Na verdade, estou repetindo o ítem número 9, o que significa “falta de assunto”, enchimento de linguiça etc;

Seguraram minha onda quando a situação apertou para todos os lados. Grana, perrengues da alma, me pouparam das festas de confraternização, me emprestaram dinheiro sem juros, deram conselhos fundamentais. O meu grupo de estudos foi absolutamente precioso. Cacimbinha me deu um vinho tão bom, que só vou abrir mesmo quando Ivanzinho for eleito governador, pelo PSOL. Vai ser uma loucura.

Aos amados leitores, Feliz tudo, em qualquer tempo.

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Vida de escritor

10 de outubro de 2017, às 4:49h por Samarone Lima

Fui fazer as contas literárias, deu três livros-reportagem (Zé, Clamor e Viagem ao Crepúsculo), quatro de poesias (A praça azul, Tempo de Vidro, O aquário desenterrado e A invenção do deserto) e quatro de crônicas (A “Trilogia das Cores”, em parceria com o amigo Inácio França e “Estuário – Crônicas do Recife”, em parceria comigo mesmo). Total 11 livros, por diferentes editoras, umas melhores, outras piores.

Francamente, está bom demais, para quem sempre escreveu em meio a redações de jornais, revistas, ou dando aulas, ou trabalhando para diversos projetos, desde sistematizador de tudo que é de encontro, especialmente de ONGs, a consultorias para o Unicef, e mais um monte de coisas que já fiz na vida, que de previsível não tem nada.

Aquele negócio idílico, do sujeito acordar, tomar seu café da manhã, dar uma caminhada, voltar para escrever, no sossego, dia após dia, para ir “construindo sua obra”, como se diz por aí, é bem diferente. Pelo menos no meu caso, só uma vez tive uma boa colher de chá, que foi quando fiz o mestrado, tendo o Clamor como tema da pesquisa, e consegui uma bolsa da Fundação Ford.

Era uma maravilha. Morando em São Paulo, estudando na USP, recebia U$ 750,00 a cada três meses. Na época, para mim, era uma pequena fortuna. Hoje, continuaria sendo.Tinha dinheiro para viajar, fazer pesquisas, não precisava me preocupar com eventuais cortes de água, luz, que costumam ser bastante inoportunos. Parece que em todo lugar do Brasil tem uma Celpe e uma Compesa, esperando aquela sexta-feira, às 16h49, para cortar sua luz ou água.

Os demais livros foram surgindo aos poucos, nunca houve planejamento. Eu vou escrevendo, escrevendo, escrevendo, e tem hora que aquele volume de anotações começa a se empolgar, achando que pode se tornar um livro. Agora mesmo, estou já com um calhamaço de novos poemas e todo dia fico dando uma namorada, penteando os cabelos, ajeitando, botando perfume. Quem sabe.

Como há seis meses virei dono de sebo, aqui em Olinda, pensei que a coisa ficaria mais mansa. Abrir o sebo, organizar livros, receber a clientela, fazer umas vendas e tocar o barco literário. Qual o quê!

É uma luta. Primeiro, porque muita gente olha, acha o sebo lindo, elogia o acervo, mas as vendas ainda estão bem baixas.

O que está compensando é que a casa é enorme, e tem aparecido um monte de coisas interessantes. Lançamento de livros (já foram três), leituras dramáticas de peça teatral (duas), peças de teatro (três), o Curso de Filosofia e Estética, do amigo e filósofo J.C.Marçal (daqueles com PhD e tudo o mais, amigo intimíssimo de Heidegger), e minha Oficina de Leitura Criativa e Escrita, aos sábados. Ah, teve também o encontro do grupo de leitura de mulheres, que discutiu a obra do Paulo Leminski.

Por enquanto, nada de aniversário, batizado, chá de fraldas, bodas de prata, de bronze, de isopor. Com a aproximação do Carnaval (aqui em Olinda, a doideira já começou), a turma da Minha Cobra já trouxe o estandarte e agendou a primeira festa. Seja o que Deus quiser.

Quando tem algum evento, tenho que divulgar, acertar os detalhes, ver se tem água para o povo beber, se paguei em dia as contas, para não faltar água na casa, nem energia. Faxina, eu mesmo faço. Gosto de ver a casa ficando bonita, cheirosa, botar flores, organizar o livro de visitas, dar umas cipoadas boas nas traças e terminar tudo com um incenso. É uma espécie de “faxinação”. Depois, exausto, tomo um banho, um café, à rede, e tudo fica bem bom para as bandas de cá. Quando o negócio aperta, vem o amigo Lucas e dá uma força.

Sim, mas onde eu estava mesmo?

Esse negócio de escrever sem um tema definido, deixa o sujeito meio distraído.

É que isso é uma mitologia, o “tempo para escrever”.  Quando quer, o sujeito escreve até em pé, dentro de um ônibus, vai anotando fragmentos. Eu mesmo já escrevi uma peça de teatro, na época da UFPE, no banheiro da Casa do Estudante Universitário (CEU), usando minha velha Remington. Para escrever, vontade é mais importante que o tempo. Inácio, meu velho amigo, escreveu a novela “Terezas” em meio a 12 mil trabalhos, 789 zaps por dia e outras demandas familiares.

A não ser que o camarada tenha pai ou mãe ricos (que não é o meu caso), ou tenha recebido uma fortuna de herança (que não é o meu caso), a vida de escritor é bem parecida com a de todo mundo. Paga contas na lotérica, compra comida para o gato, limpa o quintal. Se for vendedor, vender, se for motorista, dirigir, se for professor, dar aulas. Ir ao supermercado, pegar ônibus, receber uma penca de zap nada a ver (“Bom dia!”, “hoje e o aniversário da Lorena!”, aquela chateação toda), e seguir. Só mesmo quem tem muita grana e tem gente para fazer isso é que tem tempo de sobra. Mas geralmente, quem tem muita grana e tempo de sobra não tem muito esse problema existencial de querer escrever romances, fazer teatro, pintar quadros etc.

A diferença é que, como eu vinha dizendo, de vez em quando, sai um livro novo, e a pessoa que ficou um tempão tomando suas notinhas secretas, sente aquela alegria antiga no coração. Se os leitores gostarem, então o céu fica bem pertinho, dá até para encostar os dedos nele.

Pelo menos comigo, é assim. Não é por acaso que minha nova coleção de poemas se intitula “O céu nas mãos”.

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