Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Baleia

3 de julho de 2008, às 13:39h por Samarone Lima

Amigos leitores, interrompo minha escalada de viagens intermináveis para me debruçar num assunto da maior relevância: uma matéria publicada na página C4 do Diário de Pernambuco de hoje. Trata de um vira-lata que estava acorrentado a uma cadeira, em uma casa abandonada, na Avenida Norte. O animal aparece em uma foto, com seus olhinhos apreensivos, aquele jeito de quem diz “o que estou fazendo aqui?”. Na outra foto, está sendo libertado. Passará por exames e ficará sob custódia do Movimento de Proteção ao Cão em Risco. Nesta foto, ele olha atentamente, já com simpatia, para a assistente social Simone Sales, coordenadora do MCP.

A matéria não informa o nome do animal. Por motivos literários e sentimentais, o batizo de “Baleia”.

O cão, digo, Baleia, só foi liberto graças à Delegacia de Meio Ambiente e de Infrações de Menor Potencial Ofensivo, criado há uma semana. Num tempo de tanta violência, vai aparecer gente criticando a iniciativa. Cuidar de cães maltratados? Defender animais?

Basta ler a matéria para saber que tem muita gente doente nesse mundo. O dono do animal mantinha o coitado amarrado à cadeira dia e noite, e só aparecia por lá nos finais de semana. Botava comida e desaparecia. Claro que depois de três dias, a comida apodrecia. O lugar estava sujo e fedorento. O que se passa na cabeça de uma criatura, capaz de fazer uma malvadeza dessas? Não era melhor dar para um amigo ou simplesmente deixar Baleia livre?

Fico sabendo que no Recife tem esse Movimento de Proteção ao Cão em Risco. Simone Sales, que era professora universitária, deu entrada na aposentadoria para cuidar do lugar, onde estão mais de 100 animais. Vida longa para a senhora, dona Simone!

Moro com uma senhora de 81 anos, a Dona Flocely. Bam Bam, seu cachorrinho, é uma alegria na casa, e eu seria capaz de chegar às vias de fato, caso alguém maltratasse nosso animalzinho. Recentemente, chegou “Gi Gi”, uma cadela branquinha que promete ser a namorada de Bam Bam. Gi Gi está em fase de observação. Tia, com seus inúmeros problemas de saúde, vive muito mais feliz quando vê os dois brincando. Outro dia, chamei Bam Bam, de vira-lata, em uma de minhas crônicas, ela realmente não gostou nada.

O jornal está cheio de mazelas. Tiros, assassinatos, violência, as brigas pré-eleitorais, essas coisas brasileiras. A foto de Baleia dá um pouco de ternura ao dia. Ela agora deve estar em um sítio, dando cambalhotas, mordendo algum amigo novo ou cavando um buraco em alguma parte do terreno. O ex-dono, esse malvado, vai ter que se explicar com a Justiça.

Fica o registro.

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Carta a um leitor desconhecido

27 de junho de 2008, às 10:18h por Samarone Lima

marasmo.jpg

Caro Ivan,

Tudo que sei é teu nome: Ivan.

Nas poucas vezes que tenho ido ao Poço da Panela, minha pátria espiritual, sou abordado pelo Marcus, que deve ser teu tio. Ele tem uma barriga de cerveja, continua jogando um dominó irregular, e é daqueles que descobriu a venda de Seu Vital para se desfazer dos contratempos da vida.

Nas duas últimas vezes, ele me abordou com um ar mais sério. Disse que você é meu leitor há muito tempo, que acompanha tudo, que se identifica com o que escrevo, e que você está com câncer. Queria que eu entrasse em contato com você, porque o faria bem. Anotei seu email num pedaço de jornal velho e coloquei no caderno. Depois disso, tive muitas viagens, fui processado, minha tia andou hospitalizada, já recebeu alta, uma amiga foi presa. A vida às vezes se chama vendaval. Os vendavais passam.

Que posso dizer, amigo? Tudo o que tenho é a informação de que és jovem, e estás com câncer.

Tenho pouco a dizer, amigo, e menos ainda para te dar. Outro dia, soube meus escritos fizeram algum bem para uma grande amiga, que também teve câncer. Muitas vezes ela riu com minhas besteiras infinitas, se emocionou com alguma história mais humana, deve ter sentido aquele tédio com os textos que não levam a nada, que são a maioria. Ela abriu um blog, fez o tratamento, andou com seu turbante, depois passou pelo vendaval. Está mais viva do que nunca, e breve vai receber mais um neto.

Sei pouco de você, camarada. Espero que esteja lutando pela vida. Não, não lute “contra” o câncer, lute pela vida. Use suas armas, você deve saber suas fontes de beleza e força. Desejo que você esteja acompanhado por pessoas que te amam, como o seu tio barrigudo que vai sempre a Seu Vital. Que você possa encarar isso como um vendaval.

Não, amigo, não vou ficar dando aquelas sugestões ridículas para quem está doente. As livrarias estão abarrotadas de fórmulas secretas, dicas para vencer tudo, superar todos os males. Se eu puder ajudá-lo em algo, se meus escritos te fizerem algum bem, saiba que estarei cumprindo meu ofício, minha sina, o que acho que tenho para fazer neste mudo. Saiba que também estarei me salvando.

Nos salvemos, Ivan, nos salvemos.

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Anotações de um querelado

20 de junho de 2008, às 0:42h por Samarone Lima

justica.jpg

Eu sabia, por meio de amigos do meio jurídico, que corria uma ação cível contra mim e meu amigo Inácio França, também jornalista, por “difamação”. Ou seja, desacreditei publicamente de alguém, em algum dos meus muitos escritos. Fiquei quieto, aguardando o desenrolar dos fatos.

O “Mandado de Intimação” chegou na semana passada. A ação era bem mais grave: a de “calúnia”, na Oitava Vara Criminal da Capital. Neste caso, uma ação específica contra mim. Teria eu, em algum momento, jogado uma falsa imputação a alguém de fato definido como crime. Sou agora um “querelado” do Poder Judiciário.

Meu “querelante” se chama José Cavalcanti Neves Filho, ex-vereador da Cidade do Recife por quatro mandatos consecutivos e ex-presidente do Santa Cruz Futebol Clube, meu clube de coração.

Nesta quinta-feira, cheguei ao Fórum Desembargador Rodolfo Aureliano, que todo mundo conhece como o “Fórum da Joana Bezerra”. Usei pela quarta vez um terno bonito e calorentíssimo, comprado numa das pulgas de Paris, por três dólares. Rapidamente encontrei a Oitava Vara, que fica no final do corredor do primeiro andar. Sentei e fiquei à espera do meu advogado, o também tricolor Diego Galdino, amigo de comemorações cada vez mais raras nas arquibancadas do Arruda, nosso estádio. Então, inicio minhas anotações. As anotações de um querelado.

Sento em uma das cadeiras. São 13h30. Os advogados passam, com seus ternos pretos, alguns com pastas 007. Ao meu lado, três mulheres negras, possivelmente duas irmãs e a mãe. Todas as varas deste corredor são criminais. Elas conversam, desanimadas. “Está demorando, né?”. Uma sai, a outra vai atrás. A que fica, liga para alguém. “Oi, amor, botasse crédito no meu celular?”. Silêncio. “Não acredito. Pois vou tomar o dinheiro todinho de cachaça”. Escuto em silêncio e tomo notas.

Um advogado, bem moço, alto, limpíssimo, organizado, com um terno claro impecável, passa para a Oitava Vara. Tudo nele é polido. Ele volta, espera por algo, até sua paciência é polida. A rádio do corredor toca uma música norte-americana dos anos 80, uma daquelas românticas que dancei em alguma festa no Monte Castelo, em Fortaleza. Falava das coisas de sempre: “loving”, “hand”, “alone”, “anymore”. Faltou o “you”, mas deve ter sido distração minha. Toda canção de amor tem o “me and you”.

Olho novamente o mandado de intimação. Percebo que o nome do meu querelante saiu errado. A palavra “Neves” está escrita duas vezes. “José Neve Neves Filho”. Algum escrivão, escutando essas músicas românticas, repetiu o nome do querelante, dando-lhe uma certa redundância. Olho meu nome: Samarone Lima. Faltou o “de Oliveira”, que é meu nome completo. Sinto que comecei com uma leve desvantagem de palavras. Meu querelante tem um nome a mais, e toda a minha linhagem paterna, os “Oliveiras” foi subitamente excluída. Tudo bem, é só o começo.

As duas mulheres voltam. Falam de crédito do celular, alguma fatura para pagar do “Comprebem”. Passa uma moça excessivamente bonita, alta, com o nariz avermelhado. Está chorando, um choro contido, sem alarde, sem soluço, escondendo as lágrimas entre os dedos finos, para ocultar alguma dor. Será uma querelada? Ela entra na Nona Vara, mas deixemos a moça em paz.

Aguardo olhando, escutando. Ao meu lado, os diálogos continuam. “Alô, Diz. Nada? Ôx, vamos sair daqui cinco horas da tarde? É de que horas isso? Ôx!”. Minhas amigas estão indignadas. “O Cabra disse que vai ser lá para três e meia”.

Olho para o relógio. São 13h43.

Olho para o mandado novamente.

“Audiência de tentativa de reconciliação, nos termos do art. 520, do CPP”.

Descubro que preciso de um Código de Processo Penal. Aceito doações.

“… ficando ciente que o não comparecimento do querelante importará em extinção da punibilidade por perempção (art. 107, inc.IV, do CP e art 60. inc III, do CPP) e a ausência injustificada do querelado será interpretada como recusa em conciliar”.

“Ele disse que era de meio dia. Vai levar um baile”, diz uma das mulheres, a dona do celular, a mais exaltada, interrompendo minha leitura jurídica.

De repente, o fluxo da memória abre um clarão. Lembro de maio de 2004, quando fui acusado de “Resistência” (artigo 329 do CPB) por um sargento da Polícia Militar. Meu crime foi avisar ao chefe da guarnição policial, que os torcedores não deviam ser agredidos gratuitamente por policiais, ao final de um jogo no Arruda. Minutos depois, eu estava dentro de um camburão.

Foram três audiências no Juizado Especial Criminal do Recife, mas o sargento nunca compareceu, e a ação foi extinta.

Descubro que meu clube de coração tem me causado problemas, mas não é propriamente o clube, é uma cultura de violência, de confronto. Até a última audiência, esperei encontrar o sargento. Queria saber se ele já estava mais tranqüilo, se ele tinha revisto sua atitude profissional, dizer que aquilo tudo poderia ser de outra forma, e que no fundo, poderíamos ser amigos, tomar uma cerveja e apertar as mãos. Nunca mais o vi, mas lembro sua expressão de ódio, quando me recusei a retirar a ocorrência na delegacia. O ódio, especialmente o gratuito, sempre me deixa assombrado.

Meu advogado chega. Somos informados que o querelante não compareceu, mas justificou a ausência (caso contrário, haveria a extinção da punibilidade por perempção). A delicada atendente, Rosana, remarcou a audiência para 6 de agosto. Recebi uma cópia da queixa-crime ou “as iniciais”, como bem me avisou uma amiga advogada. São 15 páginas, redigidas e assinadas por quatro advogados. Ao final, requerem que eu seja interrogado, que sejam solicitados meus antecedentes criminais, e que terei violado os artigos 138, 139 e 140 do CPB.

O último parágrafo:

“Ao final, REQUER-SE se seja a ação julgada procedente, condenando-se o QUERELADO nas penas previstas no art. 138, 139 e 140, do CBP, designando-se o Presídio Aníbal Bruno para o cumprimento da pena”. As palavras estão escritas assim mesmo, com letra maiúsculas, o que me parece um grito.

Era uma coisa que eu nem sabia, que o querelante pode até escolher onde o querelado vai cumprir a pena.

Dali, saímos para outra Vara Criminal, onde tramita a ação contra a dupla Inácio e Samarone. É um processo gigantesco, com cinco volumes. Uma despachada funcionária traz os volumes, para nossa apreciação. Fiquei imaginando o quanto isso custa ao País. Há inúmeros Sedex com meu endereço antigo, com intimações, centenas, talvez milhares de páginas escritas,fotocópias de textos, alegações, despachos de funcionários do Poder Judiciário, carimbos, novas intimações.

Do quarto andar daquele imenso prédio, vi o Coque, e lembrei imediatamente do Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis (MABI), criado pelos jovens da comunidade, que lutam contra a violência e pela cultura no bairro. Na minha cabeça, passou o filme dos encontros na Biblioteca Popular do Coque, que funciona a 500 metros dali, mantida pela raça e resistência da comunidade. Me veio o sentimento de que o Brasil é um país onde mundos não dialogam, e por isso, tanta violência, tanta dor, tanto sofrimento, tanta raiva e tanto rancor. Tantos querelantes e querelados.

Descemos, tiramos cópia de tudo. Fui conversando com meu advogado, o Diego Galdino, uma pessoa de uma extrema gentileza e educação, um homem afável, de gestos tranqüilos e voz serena. Desconfio que ganhei um novo amigo.

Lá pelas tantas, com nossas cópias todas em mãos, já saindo do fórum, falamos do dia 6 de julho, quando o Santinha estréia na Série C, em Campina Grande, contra o Campinense. Descobrimos que estamos no mesmo ônibus, um dos 15, que vai levar a torcida ao jogo.

Meu espírito quimérico entendeu que atravessarei com serenidade mais uma querela. Aguardemos, meus amigos, aguardemos.

Para o Diego Galdino, tornado amigo.

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Nélson Xavier e a paixão da menina

15 de junho de 2008, às 19:32h por Samarone Lima

Quis o destino e o projeto Lanterninha, de Salvador, que eu passasse um dia inteiro com o ator Nélson Xavier, para discutir com jovens das escolas públicas o filme “Narradores de Javé”. O filme é imperdível, e está disponível em locadoras.

Conheci-o no café da manhã da pousada. Me apresentei, disse que estaríamos juntos nos debates. Ele, um homem muito sério, foi gentil e silencioso. Ficou assim durante parte da manhã, até que visitamos a Igreja do Bonfim, onde estava sendo celebrada uma missa. Ele comentou sobre a força do lugar, foi reconhecido por populares e fomos para o debate. Perguntei quantos filmes ele tinha participado, ele disse que não lembrava.

Minha missão era difícil. Comentar sobre o filme, para um auditório lotado, após a fala do ator. Para minha surpresa, aquele homem aparentemente duro, que se recusara poucos minutos antes a dar um autógrafo, encheu o auditório de esperanças. Falou da importância de acreditar nos sonhos, de lutar por eles, de buscar o que gosta, de fazer sempre o melhor. Lá pelas tantas, admitiu que é uma pessoa desagradável, de tão franca.

Depois, falei umas coisinhas, os alunos fizeram várias perguntas ao ator, que respondeu pausadamente. Em todos os movimentos, na voz, ele transmite a impressão de ter deixado de lutar contra o tempo. Chegou ao seu ponto de equilíbrio.

No almoço, em um mercado bem popular, o reconhecimento pelos populares. Ao lado dele e de duas amigas, vi a estranha obsessão das pessoas pelo autógrafo de alguém famoso. “As pessoas pedem isso e depois, nunca mais olham para o papel”, comentou o ator, já bem mais relaxado. Não o irrita o pedido do autógrafo, mas a forma como as pessoas o abordam.

Aproveitei para matar uma curiosidade - se ele tinha conhecido o ator e dramaturgo Oduvaldo Viana Filho, o “Vianinha”, que adoro. Sim, foram amigos e discordaram em muitas coisas. “Ele sofria muito com as coisas que estavam acontecedo. Eram demais para ele. Algumas pessoas têm esta peste com o Brasil”, contou. Não é por acaso que o dramaturgo morreu aos 34 anos, vítima de câncer.

À tarde, um novo debate, em outra escola. Desta vez, falou não mais que cinco minutos. Reforçou nos jovens a importância deles para o Brasil. “Nossas contradições não foram resolvidas até agora”, lembrou, reforçando seu mantra de seguir em busca dos sonhos até o fim. Nas muitas respostas, falou sobre sua carreira e a marca de sua geração, que foi a de lutar em todos os níveis, para que o país fosse melhor, mais justo. “Eu mesmo, cheguei a pensar em pegar em armas para lutar contra a ditadura. Eu queria lutar”. Sua luta foi canalizada para outros caminhos.

“Todos nascemos com um papel. Eu tentei, no meu caminho, melhorar um pouco este mundo. Não sei se consegui. Estou fazendo o que posso. Tentei ser fiel ao Brasil, porque amo o Brasil”.

Então, aconteceu algo. Uma menina de no máximo 15 anos pediu a palavra e começou a falar de seu amor pelo teatro, de como tinha se desenvolvido como pessoa, de como ficava feliz, quando estava no palco, e como isso tinha mudado sua vida. Lembrou das pessoas que ficam nas coxias, torcendo para que tudo desse certo. Falava com uma paixão tão grande, com tanta alegria, que foi contagiando todos que estavam no auditório.

“Cada filme que estou assistindo, cada peça, guardo junto de mim. A arte, a música, tudo vale a pena. Tenho orgulho de ser uma aluna de escola pública. Dou valor a cada coisa que aprendi e vou aprender”, disse a menina.

Com os olhor molhados, Nélson disse o mais simples:

“Você vai vencer. Tenho certeza disso. Siga em frente e seja sempre fiel a você”.

Como estava anoitecendo, alguns alunos começaram a sair. Com humildade, o ator pedia:

“Ei, não vá agora não. Fique só mais um pouquinho. Essas chances são raríssimas”.

Terminada a atividade, só havia tempo para o jantar e o aeroporto. À saída do Colégio Luís Viana, ele comentou:

“Só por essa menina, já valeu a viagem”.

No aeroporto, ele fez o check-in, e fez questão de voltar até o carro, para um abraço caloroso. Era outro homem.

O Nelson Xavier, com seus 50 anos de cinema, não lembrava do primeiro e do último filme que tinha participado. Mas cada palavra, cada gesto, tinha um sentido, que era de honrar a vida. Em nenhum momento, havia qualquer orgulho por trabalhar na maior emissora de TV do Brasil. “É uma boa empresa e dá até plano de saúde”, foi o máximo que disse.

Fiquei pensando na menina, que se emocionou tanto ao falar de sua paixão, o teatro.

Agradeci muito ao pessoal do Projeto Lanterninha por ter me trazido a Salvador. Aqui, conheci de perto um homem bom.

O Brasil anda precisando de gente assim. Nada muito heróico. Nada de jogadores de futebol, artistas famosos, capas de revista. Tenho a impressão que nossa cota de celebridades por habitante é a maior do mundo. Precisamos de mais gente como Nélson Xavier, que saiu do Rio de Janeiro, passou 33 horas em Salvador, e disse que por causa de uma menina, tinha valido a pena.

E todo mundo sabe que tudo vale a pena se…

Ao pessoal do Laterninha e a Ana Eliza, minha fiel leitora baiana.

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A prisão

10 de junho de 2008, às 19:32h por Samarone Lima

Aconteceu. A prisão de uma amiga, que eu não via há alguns anos. Ela mergulhou no mundo das drogas, perdeu as raízes mais profundas, os vínculos familiares, o contato com a realidade. Esteve em outros caminhos, que não me cabe discutir, apenas aceitar. O fundo do poço, aos 30 anos.

Fui visitá-la. Durante vários anos trabalhei como repórter, visitei inúmeras delegacias, penitenciárias. Nesses lugares, nunca estava alguém que fazia parte da minha rede de afetos. Num pequeno gesto solidário, levava sempre cigarros nos bolsos. Na prisão, tudo faz falta, e cigarros ajudam a minimizar a angústia.

Neste dia, não levei cigarros, apenas a perplexidade.

Minha amiga está num presídio feminino. Encontrei-a mais magra, abatida, após percorrer labirintos de avisos, cadeados. Os olhos dizem tudo. Tristes e duros. Nos falamos pouco, o suficiente. Ao meu lado, sua irmã, que sofre muito por não acreditar que a situação chegou a este ponto. A cadeia.

Depois, a conversa com um defensor público, um gentil homem das leis, que me adverte sobre o artigo 157, que é um problema duro de resolver. “Sei o que você está sentindo, já tive um irmão preso”, diz o homem, mas desconfio que a gente nunca, em nenhum momento, sabe o que o outro está sentindo. Nem mesmo eu, naquele momento, sabia o que estava sentindo.

Percorro caminhos que conheço de perto. Quantos julgamentos assisti na vida? Quantos flagrantes presenciei? Quantos promotores, advogados, delegados, presidiários, entrevistei? Ser jornalista é conhecer mundos, é penetrar na carne social, é percorrer a humilhação e a agonia das pessoas. Entramos em mundos quase secretos, com seus códigos próprios. Sei o cheiro exato de uma delegacia abarrotada de presos, sei a diferença exata entre um policial civil e um militar, as condutas, as manhas. São mundos distintos.

Neste caso, não se trata de jornalismo. É a vida real, duríssima.

Saí de lá pensando nos caminhos e descaminhos da vida. Para onde vamos, os portos que encontramos.

Falei com a direção do presídio, não posso visitá-la, por não ser parente de primeiro grau. Não há nada a fazer, a não ser buscar um suporte jurídico, esperar que as leis não sejam tão duras. Mais que isso. Que ela resista a esse novo mundo, que não quebre por dentro, para recomeçar. Há muita vida pela frente.

A vida cá fora segue, mas é triste, muito triste, doloroso, ver alguém querido em uma prisão. Não posso sequer imaginar o que ela está sentindo, porque nem mesmo sei o que sinto, e perplexidade é uma palavra abstrata, distante, fria.

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