Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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História quase trágica de uma arma em casa

22 de janeiro de 2019, às 0:21h por Samarone Lima

O revólver calibre 38 sempre esteve em algum lugar escondido, mas ele nunca a exibiu. Levava nas viagens com a família no famoso “porta luvas”, dos anos 1970.

O casamento acabou, depois de 30 anos, ele saiu de casa, levou suas coisas, entre elas, a arma. Casou novamente, teve mais filhos, o tempo passou, e veio a segunda separação. Resolveu voltar ao primeiro casamento, para retomar a ponta de um laço que tinha ficado no passado.

Nos primeiros meses, tudo correu bem, mas com o tempo, os velhos problemas retornaram. O temperamento, talvez a tentativa de retomar algo que já estava quebrado em definitivo.

Os conflitos ressurgiram. Com o tempo, se tornaram tensos. Um dos filhos, que morava longe, percebeu na conversa com a mãe, pelo celular, que algo sério estava acontecendo. Pediu a um primo que fosse em casa, avisar à mãe que saísse de casa, mesmo que fosse somente com a roupa do corpo.

Foi justo num dia em que a luz fora cortada, em meio às desilusões do reencontro e o clima tenso dos últimos dias, quando ela pediu que ele saísse de casa. Ele, por sua vez, saíra desde cedo.

O primo chegou à tardinha, já começava a escurecer.

“Vamos sair daqui, tia, que está tudo muito esquisito”.

“Vou só arrumar umas coisinhas para levar”, respondeu ela.

“Vamos assim mesmo. Foi seu filho que pediu. Ele está preocupado com essa situação. Deixe ele sair de casa, depois a senhora volta”.

“É rápido”.

Ela foi para o quarto. O sobrinho percebeu quando um carro chegou. Era o tio. Há tempos não se davam bem, coisa de temperamento, de valores, de opções de vida. O tio, quando o viu, foi ríspido, o sobrinho respondeu algo que ele não gostou, e no meio já da semiescuridão, começou uma agressão, os socos, pontapés. Um vizinho chegou, consegui afastá-lo, o suficiente para que todos saíssem rapidamente para a calçada.

Estavam todos aflitos com a situação, esperando um carro, quando ele, dentro de casa, lembrou do revólver. Foi ao lugar que sempre o escondia, pegou e saiu em busca do sobrinho.

Quando chegou à calçada, com a arma apontada, o desespero tomou conta de todos. Ele apontou para o sobrinho e puxou o gatilho. Não se sabe se acertaria a cabeça ou o peito.

O sobrinho desabou no chão. A bala, no entanto, engasgou no cano do 38. Ele apontou novamente, e atirou novamente. A bala acertou o pé do sobrinho. O vizinho pulou em cima, e consegui arrancar o revólver das mãos dele.

Sangrando, o sobrinho foi levado para a emergência. Ele entrou em seu carro e foi embora.

Na delegacia, dias depois, a delegada informou que só não houve uma tragédia porque as balas eram velhas. Possivelmente as mesmas, desde que ele comprara o revólver.

Os anos passaram, o sobrinho se recuperou do tiro, da perturbadora imagem de um tio apontando uma arma em sua direção e atirando. A vida seguiu.

Por muito pouco, não houve um assassinato na família, que deixaria um rastro devastador em todos. Ele, que atirou, teria destruído também sua própria vida. Teria ainda muitos anos para ser consumido pelo remorso.

A arma, recolhida pela Polícia, fez parte do inquérito, e nunca mais foi vista.

Este breve relato familiar acontece no momento em que o o presidente da república, um capitão do Exército, tenta flexibilizar a venda de armas. Seu gesto mais comum, durante toda a campanha, foi dois dedos em riste, simulando armas. Muita gente votou nisso.

Se isso acontecer, milhares de pequenos incidentes parecidos vão se tornar tragédias.

Dias piores já chegaram.

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Aos meus professores com partido

11 de janeiro de 2019, às 12:27h por Samarone Lima

Estudei em várias escolas, já que meu pai era funcionário do Banco do Brasil, e mudava de cidade a cada três anos, se muito. Então nasci no Crato (só vivi o primeiro ano de vida, então não deu para ir à escola), depois Brejo Santo, depois Imperatriz (Maranhão). Ali já começaram as lembranças. Uma das mais pungentes foi quando voltamos pra casa, eu e meu irmão, Tonho, com o boletim. Eu tinha passado de ano, ele não, mas ele não comentou nada direito, chegamos em casa, eu feliz da vida, recebi abraços, mas a hora fatal chegou. Ele fora reprovado. Levou lá umas cipoadas.

Na minha época de estudante, ser reprovado era uma hecatombe. Hoje, parece que é como ter uma caneta e ela falhar, ninguém sofre, não fica amargurado, lembrando da turma que seguiu se você, são os tempos que mudam.

Depois fomos morar em Pentecostes (Ceará), onde a maior lembrança eram professoras que estavam fazendo teste para ver se ensinavam na escola. Além das aulas, elas nos agradavam muito com alguns bombons, mas o momento mais dramático mesmo foi a decisão do campeonato (acho que era a 5a série) na quadra. Nosso time era aguerrido mas sem o toque de bola da outra quinta série, e os caras eram chatos pra caralho.

Seguramos a onda até o final, fomos para os pênaltis. A quadra estava lotada, fiquei atrás da barra rezando, “pegatonho pegatonho, peloamordedeus pega os pênaltis todos, fecha a barra”, e o Tonho fez duas defesas espetaculares, ganhamos o título do final de ano, foi uma pequena glória da infância, a turma toda abraçando meu irmão, essas coisas espetaculares do começo da vida.

Por fim, chegamos em Fortaleza, quando a coisa ficou séria. Primeiro, o Salesiano, aquela coisa de padres, então surgiram os professores que me afetaram profundamente. O de português, que entre uma explicação e outra, dava umas filosofadas, uns comentários musicais, mas eu continuava absolutamente estúpido com Matemática, acabei ficando de recuperação, a re-re, mas senti que não dava.

Meu pai foi buscar o boletim, eu já temia o pior, sabia intimamente que tinha sido reprovado, então veio algo fundamental.

Meu pai estava saindo da escola bem zangado, esbarrou no professor de História, que começou a conversar com ele, lamentando minha reprovação, dizendo que eu era muito dedicado, prestava atenção, coisa que o professor de Português completou, disse outras coisas que não imagino. O fato é que meu pai chegou em casa, disse que eu tinha sido reprovado, e que precisaria de reforço em Matemática no ano seguinte, aquilo foi um verdadeiro milagre.

Eram professores que se importavam com os alunos, foi o que entendi muitos anos depois.

Depois fui para o 7 de Setembro, muito a contragosto, a pedido da minha mãe. Fiz uma prova para entrar, passei, que droga. No primeiro dia, enfileirado no pátio, começaram a tocar o Hino Nacional. Pensei – que porra é essa?

Cutuquei o aluno da frente e perguntei:

“É toda semana, essa coisa aí?”

Ele se virou e respondeu, sorridente, como se fosse uma coisa boa:

“É todo dia”.

“Negócio chato, né?”.

Ele não respondeu por um motivo óbvio. Era o filho do dono do colégio.

Tinha uma terrível aula de OSPB (Organização Social e Política do Brasil), que era a pior de todas. Era na segunda-feira e o professor chegava numa ressaca triste, de óculos escuros, ficava falando coisa com coisa, a bandeira do Brasil, o hino, uma aula que não servia para nada, apenas para nos encher de tédio.

Até que chegava a hora do professor de Matemática, justo a matéria que sempre me causou sofrimentos descomunais. Ele tinha um método maravilhoso. Pedia para a gente se concentrar, e no final da aula, faltando 15 minutos, dizia:

“Vamos conversar?”

Então deixava o cateto da hipotenusa, os equiláteros, escalenos, sentava numa ponta do birô e a gente fazia as perguntas mais diversas, soltava nossas inquietações. Perguntávamos sobre tudo, não tinha coisa proibida. Sexo, violência, futuro, um parente que morreu, enfim.

Ele sabia conversar com a gente, e sabia nos escutar. Foi uma das pessoas mais incríveis que tive a sorte de conhecer. No final do ano, um pequeno grupo de alunos (eu estava no meio) foi à casa dele, levar uma plaquinha de agradecimento.

Esses imbecís que assaltaram ficam com essa conversa estúpida de “escola sem partido”. Tudo pra essa gente é ideologia, é um medo da porra de liberdade, de alegria, de quebrar preconceitos, é um negócio azul ou rosa, quando cada ser humano tem tantas cores…

Foi justamente quando a escola quebrou sua rigidez, que abriu espaço para o diálogo, o encontro, o debate, ao longo dos meus anos de aluno, que algo se modificou em mim.

Em todos esses casos, as pessoas tinham um partido – o ser humano que estava ali, em sua jornada inicial pela vida, correndo o risco de ser um careta absoluto ou alguém que aceitou o risco de ser livre.

Aos meus amados professores com partido.

 

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O homem definitivo

5 de dezembro de 2018, às 12:28h por Samarone Lima

Desde que vim morar em Olinda, em março do ano passado, uma regra se tornou quase lei – jamais pegar ônibus vindo do Recife depois das 17h. São 10 quilômetros que se tornam intermináveis, se você vacilar e cair no gargalo que existe entre as duas cidades. O que seria um travessia de 17 minutos, se torna uma eternidade, um engarrafamento infernal..

Semana passada aconteceu. Perdi a hora. Eram 17h47 quando cheguei à parada da Agamenom Magalhães. Uma multidão aguardava os ônibus que já chegavam lotados.

Vou tomar é uma sopa, foi o que pensei, porque adoro sopas.

Contornei o WalMart, fui perambulando por ali, e vi um lugarzinho que já almocei uma vez. Simples, discreto, comida boa, ventilador em bom estado e mesas consistentes. Tem sopa? Tem. Quanto é ? Seis reais. Quero uma. Vou esquentar.

Só tinha um cliente no local. Estava sentado, lendo o jornal e tomando uma cerveja. Sentei. Ato já automático, puxei meu caderno para tomar umas notas. Então escutei ele falar comigo:

“Você não me conhece, mas eu te conheço!”

Virei o tronco. Eu o conhecia, mas nunca conversamos uma coisa assim, mais íntima.

“Pois eu te conheço também”, respondi.

Fui falar com ele.

Tinha saído do seu escritório, estava na primeira cerveja. Uma carteira de cigarros, o Le Monde- edição brasileira, um celular meia boca, que não pega zap nem com promessa braba.

Nos cumprimentamos, começamos um papo. Perguntei se estava atrapalhando suas reflexões filosóficas. De forma alguma, respondeu. O gesto mais simples, da minha parte, foi cancelar a sopa e pedir uma cerveja.

Então começamos a conversar, e lá pelas tantas surgiu o tema fundamental do amor. Surgiu, na verdade, quando ele disse “amar é o que eu sei fazer de melhor”.

Um sujeito calmo, da raça dos mansos, que não quer perder tempo com besteiras, com essas milhares de mensagens no zap-zap. Tem email, e olhe lá.

Falou de amor. Não o amor assim, ao deus-dará, mas da “mulher definitiva”, a “mulher essencial”.

Falou desse amor, que durou seis anos. Falei dos meus. Citei o caso de um amigo. A sua mulher foi embora com outro. Perguntei o que ele fez. Meu amigo foi bem simples na resposta:

“Eu chorei”.

Falei dos meus choros. Ele pegou a deixa.

“Eu chorei durante seis anos. Um belo dia, acordei, e a dor não estava mais do meu lado, na cama”.

Acendeu um cigarro, tomou um gole da cerveja e completou:

“Mas nunca amei outra mulher”.

Um lobo solitário, pensei eu, bebericando sua cerveja, num anoitecer de um restaurante modesto do Recife, falando da vida e dos amores. Como eu gosto desses encontros, santo deus.

Já teve muitas outras mulheres, mas aquela, que ele não disse o nome, foi a que se enraizou em sua alma.

Depois falamos sobre outros assuntos.

“Já lesse É isto um homem?”, perguntou.

Pela mãe do guarda, o melhor livro de Primo Levy.

“Sim, claro. Li quase todos dele. É maravilhoso”.

“É o livro definitivo”.

O amor definitivo, o livro definitivo. Um homem definitivo.

Anotei seu telefone e peguei o email.

No final da conversa, disse que sempre acreditava no amor, que ele sempre vem, quando a gente menos espera, é uma surpresa que a vida parece dar de presente, aos que tem fé.

Ele deu uma tragada no cigarro, me estendeu a mão e disse sorrindo:

“Te odeio, cara”.

E quanta ternura tinha naquela frase.

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Sobre choros e lutas

29 de outubro de 2018, às 11:37h por Samarone Lima

Uma das pessoas mais importantes que conheci, e que jamais esquecerei, só conseguia chorar nas grandes alegrias.

Pois amanheci chorando, e creio que vou chorar até domingo. De emoção.
Explico.
Parecia que tudo estava sacramentado. O discurso da violência, homofobia, misoginia. A brutalidade das palavras foi incorporada ao cotidiano já violento.
E quantas pessoas que eu conheço, simplesmente falando de outra coisa. “É, mas o PT…”
E outras que eu jamais imaginara, deixando por menos. “É, ele fala umas besteiras de vez em quando mesmo…”
Besteiras? De vez em quando?
Acabar com ativismos é besteira?
“Metralhar”, “acabar com essa raça”, se referindo a um partido político (o PT), é besteira?
Há alguns dias, subindo uma das muitas ladeiras de Olinda, onde vivo, escutei um sujeito forte, parrudo, comentar com o outro, do mesmo tipo físico:
“Tem que acabar com essa raça mesmo”.
Lembrei que eu estava usando, do lado esquerdo do peito, um adesivo do Haddad/Manuela 13, e pensei nos anos terríveis que teríamos pela frente. Na verdade, pensei nos dias terríveis que já estamos vivendo.
Mas nos últimos dias, algo despertou. Como se um estalar de dedos tivesse rompido uma espécie de hipnose profunda, aguda, espantosa, para não dizer desesperante.
Cenas, movimentos, situações, mudaram radicalmente o cenário.
A paralisia do medo trincou.
Dizem que tem sempre algum gesto, uma palavra, uma cena, que faz isso.
Ontem, ao buscar o notebook na mesma assistência técnica de sempre, por detrás do Cine São Luís, o velho camarada me entregou o equipamento, paguei, a sala estava cheia, ele bateu no meu adesivo e disse:
“Vamos ganhar, visse!”
Ele estava falando comigo, mas mandando uma mensagem para vários outros clientes.
Era já tardinha/noite, fui tomar um sopa ali, perto da rua da Concórdia. Um sujeito negro, simples, que terminava de raspar o prato, pediu adesivo. Entreguei três. As atendentes pediram também. Sempre tenho material na mochila. O sujeito é guardador de carro,no entorno.
“A passeata do 13 vai ser gente até umas horas”, foi seu comentário, já com o adesivo no peito.
Isso era impensável, há 15 dias.
Mais gente nas ruas com adesivo, que passam e fazem um sinal positivo, o do reconhecimento. Como a dizer – “nós queremos Democracia, queremos respeito, cuidado, queremos ser governados para o bem comum, não por milicianos, não pelo fascismo”.
À noite, fui dar uma palestra numa Faculdade. O assunto foi poesia. Foi ótima a conversa, a turma fez muitas perguntas, um jovem poeta leu coisa suas. Coube a uma aluna fazer a última pergunta.
“Sim, mas como se posiciona neste momento político que estamos vivendo?”
Falei da gravidade, do Fascismo a galope, mas lembrei dos movimentos, da reação, das mobilizações em todo o país, até que abri a mochila e mostrei meu lote de adesivos.
Foi uma vibração coletiva.
Estava batucando este texto, quando veio o José, que sempre faz uns trabalhos pra mim, aqui em casa. Veio me ajudar a organizar umas caixas de livros.
“Professor, estamos virando o jogo”, foi a primeira coisa que disse.
Depois pedi a água mineral. Veio o mesmo gordinho de sempre, boa gente. Após pagar, estava fechando o cadeado, quando dei aquela última investida.
“Tás com quem, meu velho?”
“Tô com o Haddad, professor, que eu não sou doido”.
Até domingo, teremos uma longa estrada.
Hoje, a estrada vai nos levar ao pátio da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, no centro do Recife, para ver e apoiar nosso futuro presidente, o professor Fernando Haddad.
Como meu amigo que morreu há alguns anos e nunca esqueço, estarei lá, chorando, mas de felicidade.
Venceremos.

Para Edinaldo Miranda, sempre.

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Inaugurações

19 de setembro de 2018, às 13:05h por Samarone Lima

Estou em Fortaleza, metido num trabalho intensivo, só volto para a amada Olinda na primeira semana de outubro, e sigo com uma velha e estranha mania de ler jornais impressos (onde ainda existe isso no Brasil). Aqui, pela santa madre, tem o jornal O Povo, que, pasmem, tem bons cronistas, e pasmem, matérias sobre livros, escritores, boas entrevistas, até Ombudman. Como sigo com o velho e ultrapassado costume de recortar as melhores coisas que encontro nos jornais, dou uma boa retalhada no O Povo e, aqui-acolá, algo do Diário do Nordeste, que perde de longe em edição e texto.

Então, no jornal de hoje (18.09.2018), na coluna do Eliomar de Lima tem uma informação importante: “Show de Fagner vai reinaugurar o Teatro São José”.

A informação é importante porque reinaugurar um teatro construído em 1914 (tem, portanto, a idade do glorioso Santa Cruz Futebol Clube), num momento em que tudo no país ou está desmoronando ou sendo queimado, num momento em que o fascismo mostra todas as suas garras e venenos, reinaugurar um teatro é abrir portas para o sonho, a criação, a dança, a música, a arte em geral. O teatro estava fechado desde 2010.

Mas, como profundo conhecedor dos jornais diários, as coisas mais importantes não estão nas manchetes, mas em pequenas notas, no pé de página de alguma matéria, alguma frase que escapuliu da sanha de algum cabotino (queria muito usar esta palavra hoje, por saudades do meu amigo Arsênio, que usava ela com parcimônia), que se espalharam pelas redações de jornais como pulgas.

Pois bem. O teatro vai ser reinaugurado com um “Pocket Show” de Fagner. O que há de novo nisso? Desde que o teatro foi construído, Fagner está aqui pelo Ceará, com seu vilão debaixo do braço, com as velas do Mucuripe saindo para pescas, levando as mágoas para as águas fundas do mar.

Mas o Eliomar informa que o evento de hoje será para o prefeito, Roberto Cláudio, “autoridades e convidados”. Nada novo. O PIB primeiro, o povão, depois.

Mas eis que surge a conjunção “enquanto”, que vai mudar totalmente o rumo da manhã, porque me deu a oportunidade de escrever mais uma crônica semanal. Eu só soube que “enquanto” é uma conjunção, após longa pesquisa nos dicionários.

“… enquanto no dia seguinte, quinta-feira, também a partir das 19 horas, haverá ato especial para os trabalhadores e seus familiares para deixar marcado que o equipamento também pertenceu ao Círculo Operário de Fortaleza”.

Fui vasculhar o Diário do Nordeste, o jornal adversário. Fala apenas da inauguração oficial.

Então é isso mesmo. O show será só para as autoridades. Os trabalhadores e familiares, que deveriam estar na inauguração, sendo recebidos pelo prefeito, com tapete vermelho e show gratuito, vão ter um “ato especial”. Francamente… Os caras deram uma mola no restauro durante dois anos – agosto de 2016 a agosto de 2018, e no final vão ficar de fora da festa. O dia seguinte a uma inauguração, nem que seja um carrinho de cachorro quente comprado à prestação nas Casas Bahia, é sempre o dia seguinte, não tem mais graça.

Isso me lembrou uma aventura do velho Netão, amigão das antigas do Monte Castelo, bairro da minha adolescência turbulenta e início de juventude. Aconteceu há muitos anos, e sempre que nos reencontramos, relembramos. É bom escutar de novo certas presepadas.

O Netão é desenrolado todo. Ficou sabendo que o teatro José de Alencar, após grande restauro, seria reinaugurado com os cantores que faziam parte do LP “Cantoria”. Só tinha fera: Geraldo Azevedo, Elomar, Xangai e Vital Farias.

O Netão, claro, decidiu ir lá. Tentaria assistir, mesmo sabendo que o evento era só para convidados – os que trabalharam na obra. Foi com um casal de amigos. Salvo engano, meu irmão Paulinho e sua amiga, apelidada de “Formiguinha”.

Estava tudo bem cheio, mas o Netão deu um jeito de chegar bem perto da entrada, onde os seguranças regulavam a entrada. Já perto de começar o show, o velho amigo puxou a última carta da manga. Deu um suspiro grave e falou alto:

“É sempre assim.  Como diz a velha música, a gente faz parte da construção, mas depois não pode entrar”.

No exato momento, passava uma moça responsável pelo evento, toda no preto básico. Escutou a frase e parou, atordoada.

“O senhor trabalhou no restauro do Teatro?”

“Trabalhei, senhora”, respondeu Netão, com aquela calma de sempre, já com cara de triste. “Mas nem se preocupe, foi só serviço de pintura…”

“Mas na parte do restauro fino, nos detalhes?”

“Imagina, dona. Eu sou um reles pintor de parede”.

“Não me diga que o senhor trabalhou com seu Zé Pequeno…”

“O próprio. Grande Zé Pequeno”.

“Pois o senhor vai entrar é agora”.

O Netão às vezes exagera na dose:

“Posso não, moça. Vim com esse casal de amigos, e não vou assistir um show desses e deixar ele aí, no sereno…”

Cinco minutos depois, o Netão estava num dos camarotes do teatro José de Alencar. O casal se deu bem.

Foi uma noite inesquecível. Se der tempo, vou tentar ir ao Teatro São José com o Netão, hoje.

**

Vai um pouco da Cantoria que o Netão assistiu de camarote, na voz única de Vital Farias…

 

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