Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Ex-amigo

19 de setembro de 2008, às 10:22h por Samarone Lima

Ontem recebi um email de uma pessoa que adoro. Trabalhamos juntos em um belo projeto, sonhamos juntos, vimos que era possível mudar certas realidades, sofremos juntos com o desmonte do projeto e saímos juntos. Outro dia a encontrei, quando atravessava uma ponte do Recife, rumo ao Cais de Santa Rita. Ela, com família completa. O carro estacionou no meio da ponte, e falamos as frases imediatas, que diziam da saudade, precisamos marcar um encontro, o que tens feito. Os filhos dela, atrás, sorriam.  

Pois bem, minha amiga disse que, diante da falta de conversas, encontros, telefonemas, se considera uma ex-amiga. Não sei por qual motivo, acabei concordando. Agora, procuro uma nova palavra para definir essa pessoa que adoro, que compartilha idéias e sonhos, e que vejo uma vez perdida.

Descubro que tenho vários amigos que se incluem nesta categoria. Vamos começar pelo meu amigo Valdemir Leite, que trabalha na TV Jornal. Fomos unha e carne na Católica desde o primeiro dia de aula. Val usava cabelos imensos e camisas psicodélicas. Era mais tímido que hoje, e conquistou logo a musa da turma, nos causando traumas diversos. Depois a musa foi para a Inglaterra, ele casou com a antiga namorada e teve duas filhotas, igual ao cinema.

Nosso principal esporte tem sido marcar encontros que nunca mais acontecem. Houve um tempo muito remoto em nossas vidas, que nos encontrávamos toda quarta-feira, mesmo com todo o degelo da Antártida e o imenso buraco de ozônio. Não lembro quando foi nosso último encontro.

Num rompante, acordo saudoso e digo que hoje, e não passará de hoje, tomarei umas cervejas com meu amigo. Contaremos todo o acumulado, daremos risadas infernais, encontraremos soluções para nossos problemas e até para o Santa Cruz. Mas olho uma lista de viagens até dezembro, e vejo que mais tarde vou para Escada.

De Marcus Galindo e Stella, nem posso falar. Temo inclusive que eles não me reconheçam, quando nos encontrarmos. Outro dia, encontrei a filha deles, Clara, e aquela meninota estava na rua de Lazer, da Católica, com sua turma de amigos. Salvo engano, cursa Jornalismo. Daqui a pouco, nos encontraremos em alguma dessas lidas da vida, em uma pauta, pedirei ajuda com alguma informação que passou e não vi.

Quando Stela e Marquinhos moraram na Holanda, nos falávamos obsessivamente, e parecia que a Holanda era uma ilha, que estava sendo levada para algum mar distante. Cartas aconteciam aos montes, e bastou eles chegarem de volta, que nunca mais nos vimos. Outro dia, vi uma foto de Marquinhos no Diário de Pernambuco e dei graças a Deus. Continua com aquela cara de leso, que combina bem com suas piadas formidáveis e histórias de trancoso. Stella deve estar na UFPE, dando aulas e cuidando do Núcleo de Estudos Indigenistas (NEI), que foi minha segunda casa durante um bom tempo. Não lembro quando foi nosso último encontro.

Tenho também uma leva de amigos que deveriam mesmo estar recolhidos na Tamarineira, mas o Movimento Antimanicomial não tem deixado. Falo de Cézar Maia, Marcelo Barreto, Ivanzinho, João “Peruca” Henrique, entre outros. Vou mudar a frase, porque iniciar um texto com “falo de Cezar Maia” vai me custar caro. “Lembro de Cezar Maia…” fica melhor. A situação é tão dramática, que Maia admitiu, já meio de porre, que estava com uma leve, distante e ainda não confirmada ponta de saudades.

Ex-alunos que se transformaram em amigos já devem estar me considerando ex-amigo mesmo. João Valadares, Marcel Tito, Bruno Fontes e Geraldo de Fraga, o “Quarteto Coral”, se espalhou em veículos os mais diversos. Leio, vejo, escuto as coisas deles, mas uma boa conversa para matar saudades, é a mais pura lenda. Costumávamos nos encontrar antes de jogos do Santa, mas como o meu clube resolveu jogar apenas no Estadual, para não se misturar, muito, só voltaremos ao Arruda em 2009. Soube que Marcel inclusive já é pai. Pelos meus cálculos, não nos vemos há dois anos.

Theresa mora em Arcoverde, a encontrei outro dia, inclusive descolei a bóia na casa dela, com seu filhote lindo e o maridão maluco como sempre. Descubro um truque - basta a pessoa morar em outra cidade, que fica mais fácil encontrar.

Só tem uma solução para encontrar meus amigos todos. Ser dono de bar novamente.

Quando era proprietário do La Prensa, encontrava todos esse e mais outros amigos de verdade quase toda noite. Meu deus, posso até ver o desgraçado do Álvaro Claudino reclamando todos os dias, porque a cerveja era long-neck, “um roubo”. A coisa piorou com o Garrafus, porque era celeiro de aniversários. Claudino chegava com aquela conversa mole e passava a reclamar que a cerveja não estava gelada.

Mas a solução me custaria caro demais. Não tenho condições psicológicas para me meter numa loucura dessas. Vou fazer o seguinte: semana que vem, vou dedicar todos os dias a reencontrar os amigos que um dia eu deixei a chorar de alegria, que acompanham o meu violão.

Vou começar pelo domingo. Farei surpresas as mais diversas. Chegarei sem aviso prévio. Em alguns casos, entrarei em surto psicótico - pagarei a conta.

Nem me venham com história de ex-amigo. Pode existir tudo que é “ex” na vida, mas amigo, de verdade, nunca será um ex. Excuse-moi. Ra ra ra, o trocadilho foi infame.  

Para Adriana Dória, Ana Luisa, Luzilá, Lourival, Flávia Suassuna, Lucila, Sirley, Naire, Beth, Rosana, Fred Jordão, Peste, Gustavo et alii.

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Afogados da Ingazeira:impressões de viagem

15 de setembro de 2008, às 16:41h por Samarone Lima

Saio para caminhar pelas ruas de Afogados da Ingazeira. A beleza dos muros baixos. O frio matinal do Sertão do Pajeú. O silêncio. A praça principal, cheia de gameleiras, flores, e o singelo aviso: “não pise no canteiro”. Os primeiros rostos matinais, os bons dias. Os olhos bons do povo do sertão. Passo por uma casa com três gaiolas na frente. Um passarinho é um galo de campina, conheço de longe. Há um azulão. Pergunto ao senhor simpático, que troca a comida, qual é o terceiro. “É um bigode”, diz com satisfação.

Tenho sorte. Hoje é dia de feira. São 6h15, as barracas estão quase todas montadas. Percorro as ruas, à procura de algo. Um canivete, um peão, sandálias de couro, uma roupa para minha tia. Chego ao Mercado Público. Bebo um café doce, sentado em um banco de madeira. Ao meu lado, duas moças comem um prato completo, com arroz, macarrão e carne. Um menino quer engraxar minha sandália de couro, mas nunca gostei de gente agachada diante de mim, para nada. Bebo o café bem doce e olho tudo.  

Sacas de feijão, farinha, fava. Ovo de galinha caipira. Passa um homem com seis galinhas penduradas nos braços, que não reclamam. Amigo, se você tiver galinha caipira e ela estiver dando trabalho, pendure-a um pouco no seu braço, é um santo remédio. Ao meu lado, três homens com o tradicional chapéu de feltro, duros e quietos, fumam um cigarro de palha. Ah, que bom fumar sem essa paranóia urbana do cigarro, que delícia desfrutar de seu vício sem multas. Eu, que não sou fumante, adoro esta calma de quem bafora cigarros de palha em um banco de feira. 

Percorro as ruas. Há divisões temáticas. As barracas que vendem roupas, com preços módicos. Procuro uma camisa do Santa Cruz, mas os ventos são desfaforáveis. Há camisas dos clubes do sul. Uma área é destinada a facas, apetrechos da vida, dos animais. Bolsas de couro, sandálias, abridores de lata, panelas. Meninos passam com seus carrinhos de mão, levando feiras alheias e juntando alguns trocados. São meninos com a cara boa, estão se mexendo, têm um olhar muito mais feliz que os meninos que pedem dinheiro.

Saio caminhando, descobrindo a cidade. Ah, que delícia seguir sem rumo, sem mapa, dobrando esquinas, vendo as ruas largas de Afogados. Um homem me conta que o nome da cidade veio por causa de um casal, que foi atravessar o rio Pajeú, e morreu afogado. Os corpos foram encontrados enganxados num pé de ingazeira, me diz, e eu acretido.

O sol vai esquentando. É o final da manhã, paro em um boteco. O som é conhecido. Waldick Soriano. “E despertou meu coração adormecido/Eu tenho medo de não ser correspondido”. Tomo uma água de côco. Pergunto por fumo de rolo, para meu amigo Iramarai. “Só na 15 de Novembro”, responde o proprietário, antes de me contar que tem amigos no Recife. Ao saber que sou do Crato, ele me mostra o ventilador do teto, que comprou de um vendedor que era da minha terra. “Tem 15 anos e nunca quebrou”. Sento em sua cadeira de balanço e vou bebericando o côco. Ah, como sou feliz andando pelo mundo, como adoro encontrar desconhecidos, conversar, prosear, escutar. Nasci para a estrada mesmo, nisso imito o meu avô.

Volto ao Mercado Público. De tanto andar, tenho fome. Paro na venda de uma senhora que usa o óculos na ponta do nariz. Me serve arroz mexido, salada de verdura, arroz, cuscuz, guisado.  Peço que ela tire metade, antes de comer. É comida para dois homens do meu porte. Como, tudo está delicioso. Alguns homens já beberam um bocado. Um deles está mamadinho, gesticula, fala alto, coisas que nem ele compreende. Pouco depois, está sentado, no chão. Seus amigos riem. Termino de comer, bebo um delicioso café e pergunto quanto custou o almoço: “Três reais”.

Volto para o hotel. A cidade está em polvorosa. Motos, carros, têm bandeiras dos dois cordões. Totonho, o atual prefeito, tenta a reeleição. Do outro lado, Gilza. O embate será duro, uma peleja e tanto. Pelo que escutei do povo, Totonho é o homem da esquerda, que tem uma visão mais completa de seu trabalho. Gilza foi citada como a mulher que distribui cestas básicas e coisas do tipo. Não fiz perguntas, apenas escutei. Que ganhe o melhor para os afogadenses.

À noite, antes de sair para minha despedida, vejo na TV que 90% dos municípios brasileiros não têm cinema, 80% não têm museus, e somente 21% têm políticas culturais. As bibliotecas, minha paixão, não foram citadas. Os livros, coitados, sempre em último lugar.

Fico sentado na praça de alimentação. A lua cheia vai subindo. Um cão preto, de patinhas brancas, chafurda no lixo, à procura de alguma sobra. Um carro passa com o som altíssimo. “Levantou poeira” puxa a militância de algum candidado a vereador, que não anotei o número. Estão todos de vermelho, com balões. Há homens, velhos, crianças. Aqui não tem guia na TV. Quem vai definir a eleição é o mano a mano, ombro a ombro. Será na raça. Crianças correm, brincando de pega-pega. Faço “chip chip” para o cachorro, ele se empolga demais, tenho que afastá-lo.

Um surdo vem com um adesivo. Tem algo escrito atrás, dizendo que é surdo, precisa de aguda. Faço ouvidos de mercador, ele vai embora. Olho a alegria do povo, o clima da cidade, fico feliz por ter conhecido Afogados. Vim para uma palestra sobre literatura, parece que voltarei em novembro, para uma oficina de dois dias. Trarei meu amigo Iramarai. E não posso deixar de agradecer a Dona Terezinha Barbosa pelo banho que tomei em sua casa, pouco antes de viajar. Diana Moura, sua sobrinha, disse que eu pedisse “arroz de festa”, mas o máximo que ousei foi pedir água. Na próxima, quem sabe.

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Coisas e pessoas, rumo ao Sertão do Pajeú

13 de setembro de 2008, às 12:36h por Samarone Lima

Estou em Agrestina, acompanhando mais uma aula-espetáculo de Ariano Suassuna. A aula vai acabando, aproveito para conversar com o maestro Josenilson Silva, de 43 anos, natural de Altinho. Magro, duro, de gestos precisos, ele conta que iniciou com a banda “Pulquém José de Souza” em 28 de maio de 2006. Em pouco mais de dois anos, conseguiu uma proeza. Dos 23 jovens que participam, 15 sabem tocar algum instrumento, lendo na partitura. “Músico tem que saber ler. Se não lê, não é músico de verdade”, diz.

Há pouco, eles tocaram num ritmo perfeito “Cabelo de Fogo”, do maestro Nunes, e fiquei impressionando com um menino de uns sete anos, tocando com firmeza um trompete.

O maestro diz que seu maior objetivo é a socialização dos jovens. Aprendeu a tocar na Febem de Caruaru, hoje Fundac. Duas vezes por semana, dá aulas em Agrestina. Aos sábados, tem ensaio. Dia de terça-feira, ele abre sua barraca na feira da sulanca, em Caruaru. Sai de casa 1h da madruga, volta somente à tardinha. Vende bijouterias

“Se não fosse a feira da sulanca, não dava para sobreviver”, diz.

Termina a aula, são 21h40, preciso viajar para Afogados da Ingazeira, no Sertão do Pajeú, onde darei uma palestra sobre “O amor à literatura”. Meia hora depois de conversar com o maestro, estou na rodoviária de Caruaru, para pegar o ônibus da meia-noite para Afogados.

O vendedor da progresso, com cara de vendedor de diamantes contrabandeados da África, me explica com um certo prazer que não tem mais ônibus, só um que vai para Sertânia, “daqui a meia hora”. Olho meu mapa surrado. Sertânia já é no Pajeú, acho melhor seguir. Vejo os primeiros lances de Brasil X Bolívia e penso que não vai dar em nada.

Em Sertânia, vou ao guichê tentar algo para Afogados, o motorista da Progresso, com cara de cantor de tango aposentado, me diz que é melhor eu seguir até São José do Egito, diz as vantagens, que de lá tenho carro toda hora etc. Caio na conversa, ele consegue me arrancar 10 mangos. Volto para o ônibus.

São 3h30 da manhã, sou despejado num cruzamento em São José do Egito. O frio da noite dá para segurar. Não tem viva alma para uma boa prosa. Olho a placa: São José do Egito-Afogados 55km.

Às 5h em ponto, vem o dono da Veraneio, a primeira que vai para Afogados. É o carro mais arrumado do Sertão do Pajeú. O proprietário, um senhor que não sei o nome, na faixa dos 50, abre a porta, diz que a viagem custa R$ 6,00. “Seis reais” foi a única coisa que ele disse, a viagem inteira. Olhos para o carro: sua vida toda parece estar ali. Tem rádio para se comunicar com outros povos, tudo é cromado, aspirado, limpo, e ele vai serpenteando a estrada como se tivesse calculado e anotado a localização exata de cada buraco. A estrada que liga São José do Egito a Afogados parece um queijo daqueles que a gente nunca come, cheio de enormes buracos.

São 6h07, estou em Afogados. Devo buscar o “Hotel Brasilino”. Um motoqueiro me leva, após uma luta selvagem para conseguir encaixar o capacete na minha cabeça de cearense. Pego o quarto número 4, tomo um café e vou dormir. Só terei que estar desperto á tarde, para terminar de ler minha palestra na Fafopai.

Antes de cochilar, resolvo olhar minhas anotaçãos sobre a tarde anterior, em Agrestina. Está escrito assim:

“Não está nada fácil esta minha vida de caixeiro viajante das palavras. Em Agrestina, encontrei um clima politico que está bem próximo das “vias de fato”. Estava coletando minhas primeiras impressões sobre a cidade, quando o carro de som passou, num volume altíssimo, anunciando:

“Agrestina sabe quem recebe sem trabalhar, fica o dia inteiro bebendo, em mesa de bar, sem trabalhar”, diz uma voz grave, repetindo tudo a todo momento. O ouvido da pessoa parece que vai explodir.

Tentei pegar qual era o cordão, se o vermelho ou o azul, mas não deu.

“Eles mesmo pixam suas casa, e dizem que foi a nossa militância”.

Pelos meus cálculos, a população de Agrestina deve saber muito quem são “eles”, e quem é a “nossa militância”. Mesmo com minha boa cancha de jornalista, fiquei voando.

Estou tomando minhas notas avulsas, quando escuto a frase mais forte da campanha:

“O ódio pesa. Querem nos agredir, porque não aceitam a derrota”.

Nem precisava ter complemento. Tem frase mais forte do que “o ódio pesa”?

Diante do que vem sendo dito no carro de som, julgo importante chamar a Guarda Nacional e as tropas do Exército, que vivem se exercitando no Rio de Janeiro. Pensando bem, deixemos os soldados por lá mesmo, que vamos resolvendo nossas coisas por aqui na conversa.

“O filho mais novo de Dona Carmem foi ameaçado mais uma vez. Isso é desespero”.

Ah, meu amigo do carro de som, chega né? Não dá para deixar um pouco desse terror? Saio de onde estou, a praça principal da cidade, e descubro que no dia seguinte, Agrestina completará 80 anos. A data do aniversário: 11 de setembro. Por isso esse clima de guerra, penso.

Me dedico a observar os candidatos.

Zé Caruba (11.123)

Gordo (10.111)”.

Em Afogados, eu encontraria criaturas ótimas:

Dona Miúda (23.023)

Antônio da Caixa (23.000)

Mécias de Sebastião (23.123)

Franklin de Zé Nazário (15.000)

Arnaldo da Sapataria (23.200)

Não sei ainda o candidato da minha amiga afogadense Diana Moura, mas sobre Afogados, falarei amanhã, na minha tradicional crônica de domingo, se aparecer lan house dando sopa, como aqui, um troço com 32 computadores, meninos loucos gritando, mas tudo por R$ 1,00 a hora. Para quem trabalhou em redação de jornal, aqui é um paraíso.

Entro numa lojinha (estou falando de Agrestina), compro um terço para tia Flocely. Naldo diz que amanhã será o aniversário da cidade.

“Justo no dia que derrubaram o World Trade Center”, diz, num inglês impecável, melhor que o do CCAA.

Fico escutando.

“Passou um filme em Tela Quente essa semana”, completa.

Pergunto se ele vai assistir à aula-espetáculo de Ariano, no Centro Cultural.

“Eu tô sabendo. Se der, vou lá”.

Pela cara, sei que não vai.

Saio andando, preciso trabalhar. No Bara da Madalena, a caminho da aula, vejo o aviso:

“Por favor não cente na mesa”.

Paro no bar seguinte, o “Stop Bar”. Na enorme TV, uma dupla sertaneja que desconheco nome e origem. O dono do bar já tomou umas, eu sei. Ele deveria ser dono de uma casa de shows, porque as caixas de som, eu vou dizer. Atrás de mim, na parede, um quadro imenso, com a moldura do São Paulo Futebol de Regatas, “tetracampeão brasileiro”. Grande coisa. O Santa Cruz já foi tri-super e uma vez pentacampeão estadual.

Há duas mesas. Uma tem três bêbados, outra um só, que está quieto como um passarinho bêbado.

“Ele agora vai cantar uma música que vai direto no meu coração”, diz um deles, que tem um nariz de pimentão.

Ato contínuo, o dono do bar bota um CD medonho, do “Cowboys do Forró”.

Terei que contar sobre isso amanhã. Meu tempo na lah house de Afogados acabou, e mais tarde tem comício de Totonho. Disse o rapaz do carro de som, há pouco, que “a terra vai tremer em Afogados”, e não quero perder este momento histórico.

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“Zé” disponível para fotocópia

12 de setembro de 2008, às 10:49h por Samarone Lima

Caros leitores,

Seguindo minha velha luta contra esse negócio de “direito autoral”, disponibilizei o livro “Zé- José Carlos Novais da Mata Machado, reportagem biográfica”, na xerox do senhor Coelho, ao lado da Universidade Católica (rua do Príncipe, 666, Boa Vista). Telefones dele: 9654.8034/8866.7676.

Podem copiar o livro na íntegra, sem pena. O Coelho também trabalha com encadernação e capa dura, coisa bonita mesmo.

Sou contra esse negócio de direitos autorais até que me provem o contrátio. “Zé”, por exemplo, é um livro que escrevi sobre um militante da Ação Popular que lutou e morreu combatendo pela liberdade. As pessoas que me deram depoimentos fizeram isso de forma gratuita, espontânea. Os arquivos públicos que consultei, não me cobraram nada. A família me entregou caixas de documentos sem ressalvas. A história não é minha, apenas contei. Não foi o dinheiro que me moveu, foi a paixão por uma história de amor e sonhos.  Além disso, os direitos foram vendidos para o cinema. Se a questão for grana, ganhei uns trocados.

Acho mesmo que todo autor deveria liberar os direitos de seus livros, depois de no máximo cinco anos da publicação.

Como o Clamor está perto do fim da segunda edição, vou ver se consigo isso com a editora também.

Até hoje agradeço pelas milhares de páginas fotocopiadas que li, naqueles anos duros de UFPE e Católica.

Amanhã, posto crônica nova, falando das minhas impressões sobre as andanças por Agrestina, Sertânia, São José do Egito e Afogados da Ingazeira, no Sertão do Pajeú. Não sei se Agrestinha é (do Sertão do Pajeú), mas isso aqui também não é guia de viagens.

Salve salve.

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Um bar para chamar de seu

5 de setembro de 2008, às 17:05h por Samarone Lima

Bar Princesa Isabel, centro do Recife. São 18h50. Na TV, um DVD com “O melhor do brega”, e Waldick Soriano ainda nem tinha morrido. Barthô Galeno ataca de “No toca-fita do meu carro/Uma canção me faz lembrar você/Acendo mais um cigarro/E procuro te esquecer”. Lembro da minha época de Casa do Estudante, quando conheci o fino do brega, numa época em que os motes eram mais sofridos e não tínhamos sido soterrados pelo “beber, cair e levantar”.

Era uma época de cantores e cantoras que tinham nome, sobrenome, fossa pessoal, dores irreversíveis, que uniam humanidades. Barthô Galeno, Adelino Nascimento, Waldick Soriano, Fernando Mendes.

Certa vez, mostrei ao tio Paulo a fita com “Sara/Onde é que você se esconde/Sara/Minhas cartas por que não respondes”, e ele acendeu imediatamente seu Hollywwod selvagem e começou a rir, lembrando de sua Sara, creio. Escutou e voltou infinitas vezes a fita, até que um dia morreu, o meu tio. Até hoje, a música de uma mulher que nunca responde me lembra meu velho tio, com suas histórias intermináveis, recontadas a cada ano.

Mas voltemos ao bar. Todo homem precisa de um bar para chamar de seu. Quatro fregueses dividem o balcão. Dois estão do lado de dentro, grau máximo de intimidade em qualquer boteco: beber no lugar sagrado, onde deve estar o proprietário. A ruptura da fronteira. A grande intimidade, conquistada após muito convívio.

Ao meu lado, um casal se beija com ardor. Ela, uma gorduchinha negra, vestida com sua moda. Ele, um rapaz moço, de boné, e muito mal intencionado. A mão está na coxa da moça, que já passou dos trinta há um par de anos. Há um certo exagero do rapaz, mas a cerveja, a latinha de Pitu e o brega correndo solto, ajudam. “Por que amor eu te chamo tanto e você não responde?”, segue alguém cantando, que não consigo identificar bem.

Placas informam: “Cerveja Nobel”; “Conhaque Domus”, e “Temos miúdo de galinha”. Nenhum está com o preço. O garçom, Gomes, foi rebatizado por mim e Iramarai, de “Robertilha”. É um cinqüentão simpático, aposentado, e talvez o primeiro “garçom voluntário” do Recife. Todo dia está lá. Segundo Seu Azevedo, o dono, Gomes é aposentado, mora perto, e vai ajudar, sem cobrar nada. Gomes me confirmou. Vai diariamente, atende, brinca, bebe seu whisky, anota tudo. Mientras tanto, ajuda muitíssimo. Seu Azevedo e Dona Nice (“Ai que saudade me dá/Do bate pap/Do disse-me-disse/Lá no Café Nice/Ai que saudade me dá”) são já velhos, na casa dos 70, e estão cansados. Robertilha é um reforço de luxo.

A vantagem: ninguém conhecido. Engano. Aqui-acolá, um aceno de alguém que já me viu, com meu caderno, algum livro da hora. O aceno distante, de quem não sabe sequer meu nome. Na parede, em uma moldura, um poema do Alberto Cunha Melo. Feliz do poeta, vivo ou morto, que tem um poema seu, emoldurado na parede do seu bar.

Em Seu Vital, a essa hora, o dominó corre solto. Mais tarde, a cerveja haverá de faltar. O tira-gosto de sempre já terá circulado em pratos de plástico: queijo com mortadela. Mas é o meu bar. Ali, vivi momentos lindos, ao lado dos meus companheiros. Bebemos a morte do nosso amigo Barrabás, recentemente lamentamos a partida de Elpídio. Ali, planejamos revoluções inacabadas, fundamos blocos, elegemos reis, compartilhamos esperanças. Ali, fizemos reuniões infrutíferas, discutimos sem saber o motivo, arengamos por males próprios, e no dia seguinte, esquecemos o que havíamos planejado. Ali, fomos a Waterloo, sangramos na Batalha dos Guararapes, recebemos os noivos em suas promessas. Ali, cantamos a plenos pulmões alguma louvação à vida. Ali, sempre voltamos.

Vital, meu bar coletivo. É onde estão meus companheiros. Sabemos a conversa de cada um, e a que nos interessa. Vou ao Princesa Isabel para o recolhimento, para tomar notas, olhar os ônibus que passam, ler na quietude. Descobri uma mesa azul, eternamente livre, e nela me aconchego.

A cozinheira Nininha sabe que gosto de peixe assado e ao molho de côco. Seu Azevedo me recebe com um aperto de mão, me fala de sua esposa, que fez recentemente a cirurgia de catarata. Robertilha, quando demora a chegar, é porque “está namorando”.

Bendito o bar que tem um garçom voluntário, e que chega atrasado porque estava namorando.

Para Elpídio, nosso confrade, que partiu semana passada.

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