Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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O adeus de Cyro, ou a coragem mansa

1 de dezembro de 2008, às 12:57h por Samarone Lima

Aconteceu sexta-feira passada, mas só agora tive tempo de relatar. Estava num seminário internacional, na Fundaj, quando meu amigo Iramarai chegou, do nada.

“Estamos indo para a despedida de Dr Cyro. Quer ir?”

Deixei o seminário para depois. Meia hora depois, chegamos a uma modesta casa de acolhimento, que faz parte de um projeto de medicina integral de Cyro de Andrade Lima, em Cidade de Deus (Vitória). A casa estava cheia. Na área, debaixo de telhas brasilit, as mulheres serviam a comida. Chegamos a tempo de presenciar a despedida de Dr Cyro como médico do posto de saúde. Aos 78 anos, ele vai se dedicar ao Projeto Vila Lucila, nas terras da família, um trabalho que inclui alfabetização, criação de cabras, adubos, peixe, vivências comunitárias e silêncio.

Os agentes de saúde, médicos, psicólogos, moradores da Cidade de Deus estavam visivelmente emocionados. Perderiam o convívio diário com um homem que já não vive essa vida besta da gente. Ele filosofa, sonha, defende o silêncio como grande estratégia para os embates humanos. É um médico que olha para seus pacientes com respeito, carinho, admiração. Acima de tudo, é um homem manso, o manso que vai zerar tudo em 12 de janeiro de 2009, quando completa 79 anos.

“Nenhum processo humano vai adiante sem o sossego”, lembrou.

As homenagens passaram por músicas como “Tocando em Frente”, acompanhadas de fotos das equipes de saúde. Depois, “Amigo é coisa pra se guardar”, quando as primeiras lágrimas surgiam timidamente.

Por último, Cyro falou. Disse que acredita firmemente que o silêncio é o melhor da caminhada humana. “É preciso silêncio para não haver confronto”. Perguntou se somos um cofre de dinheiro e ambição ou se somos um sonho. Reafirmou sua consciência de que o ser humano nunca foi bicho. Lembrou do período difícil, quando foi secretário estadual de Saúde. “Arraes nunca me chamou para a secretaria de Saúde, me levou para levar uma pisa”.

Enquanto ele falava, só me aparecia mesmo o esplendor da velhice. Um homem com 78 anos cheio de saúde, planos, capaz de falar sobre alongamentos, alimentação, de projetar a caminhada para o futuro. “Aos 79 anos, todo velho deveria zerar o velocímetros. No dia seguinte, ele estaria solto”.

Lembrei das vezes que Cyro nos acompanhou, nas ações do Programa Mãe Coruja Pernambucana (www.maerocujape.blogspot.com). Numa delas, começou a falar sobre ações em saúde, mas preferiu mudar o rumo da prosa. No centro de um auditório lotado de agentes comunitários de saúde, começou a fazer tai-chi-chuan. Aquele silêncio que se instalou na sala foi realmente poderoso. O silêncio eloquente.

Ao final da cerimônia, ele tirou a camisa, os sapatos, e fez os alongamentos que o ajudam a ter vigor, resistência. Disse que não precisava mais falar em sonhos, porque uma filha já estava fazendo isso melhor que ele. Se referia a Bebeth, sua filha, que não escondia as lágrimas.

“No egoísmo, se perde a noção da beleza da terra, de dar as mãos, de uma revolução sexual masculina e feminina”, lembrou.

Depois dos muitos presentes, dos agradecimentos, fomos ao almoço coletivo. Talvez o carinho das cozinheiras tenham deixado o sabor tão especial.

“Só me lembro de ter visto coisas lindas assim, feitas em comunidade, no final dos anos 1970″, disse Iramarai, um antigo militante.

Dessa época não posso falar muito, porque estava com meus 11 anos, e certamente brigando com meu irmão por causa de uma derrota em uma partida de futebol de botão. Mas se era bonito como na Cidade de Deus, foi um tempo bom.

Comemos juntos, partilhamos, celebramos, naquela mistura de tristeza pela partida, mas de alegria pela renovação das esperanças.

“Guardo a memória da terra. Mansidão e a coragem mansa”, disse o velho médico, que começou a se envolver com coisas de comunidade aos 19 anos, no 2o ano do curso de Fisiologia, pelas mãos de Nelson Chaves e Naíde Teodósio. Na sexta-feira, 60 anos depois, o servidor público recolheu suas armas. Vai para outros sonhos.

Foi isso o que guardei com mais força. A coragem mansa.

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Urgente! Solidariedade ao povo de Santa Catarina

28 de novembro de 2008, às 16:59h por Samarone Lima

Amigos leitores, deixo de lado a briga intimista e sexual dos residentes da Casa do Estudante da UFPE para convocar para um tema mais nobre - a solidariedade. Precisamos ajudar com toda a urgência e força o povo de Santa Catarina, que vive uma catástrofe.

Até agora, 1,5 milhão de pessoas foram atingidas pelas inundações, e oito cidades estão isoladas: São Bonifácio, São João Batista, Rio dos Cedros, Garuva, Pomerode, Itapoá e Benedito Novo.

Não adianta a gente ficar olhando para os jornais, lamentar as mortes, o sofrimento. Nessas horas, o negócio é arregaçar as mangas e ajudar. Como Santa Catarina está muito longe, podemos fazer outros caminhos.

Montei um pequeno esquema com amigos. Quem quiser fazer doação (roupas, alimentos, produtos de higiene), favor deixar na venda de Seu Vital, no Poço da Panela, que Naná, o motorista amigo da humanidade, vai levar.

Quem não puder ir ao Poço, pode ligar para Naná (8773.3934), que ele vai buscar em sua casa. A Confraria dos Amigos do Poço vai pagar a gasolina de Naná. Por gentileza, bote um bilhete, uma carta, um agrado, dando força a quem perdeu tudo. Bote um livrinho infantil, um romance, um livro de poesia. Isso também ajuda a confortar.

O plano mais direto é fazer uma doação em dinheiro, direto para a conta da Defesa Civil de Santa Catarina:

Banco do Brasil

Agência 3582-3

Conta Corrente: 80.007-7

O nome da pessoa jurídica é Fundo Estadual da Defesa Civil, e o CNPJ é 04.426.883/0001-57.

Vamos lá. Ajuda importante é aquela que chega na hora.

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CEU

27 de novembro de 2008, às 15:18h por Samarone Lima

A Casa do Estudante Universitário da UFPE é chamada de “CEU”, sem acento. Quando morei lá, passei por dias infernais, quando a reitoria cortava verba para o Restaurante Universitário, e a gente tinha que fazer passeata, esperar horas por uma audiência, numa fome dos diabos. Mas naqueles quatro anos de CEU, vivi dias felizes, aprendi muito com meus companheiros. Alguns se tornaram mesmo umas “formigas aladas”, como diz o Joaquim Cardoso em um de seus poemas.

Foram quatro anos dedicados à leitura, aulas, estágios, no jogo da sobrevivência. Ali, botei as estacas da minha jornada. Na minha época, tinha todo tipo de gente, credos, vícios, normal em um lugar que abrigava quase 200 homens, todos jovens, grande parte gente do interior do Nordeste. Se consumia maconha, alguns tomavam porres danados, um camarada tinha surtos psicóticos e ficava 15 dias zanzando, com uma lata de cola. Tinha a “ala gay”. Nessa diversidade, vivíamos, estudávamos, nos aporrinhávamos, brigávamos. Eu, quando me zangava, escrevia artigos devastadores, rebatidos em tréplicas que faziam o mural pegar fogo.

Vejo agora nos jornais do Recife alto estarrecedor. O atuais residentes da CEU estão envolvidos numa guerra interna envolvendo homossexuais, que concorreram às eleições em uma das chapas e perderam. Após a eleição, os muito machos ficaram meio irados, e o clima ficou esquisito.

Li as notícias e fiquei perplexo. Acusações mútuas, investigação no Departamento de Assuntos Estudantis (DAE), ameaças. A defesa dos muito machos diz que os gays usam roupa de mulher e pintaram o orelhão de rosa. Chega a ser patético.

Tudo o que posso dizer a esses rapazes é que correm o risco de perder um dos melhores momentos da vida. Gays e machões podem fazer coisas lindas dentro de uma universidade pública. Podem fazer juntos uma horta, podem plantar mais árvores ao redor da CEU, como fez um camarada da minha época, que esqueci o nome agora, e que chorou de emoção, quando voltou anos depois, e viu as árvores enormes, dando sombra.

Podem fazer como Xico Sá e Ronaldo Correia de Brito, que aproveitaram os anos de CEU e saíram de lá para encantar as pessoas, com suas prosas e modas. Podem sair das páginas policiais e tentar fazer algum trabalho voluntário, no Engenho do Meio. Ao invés de gritos histéricos, poderiam procurar a Ivana Fechine, professora da Comunicação, que faz um trabalho fantástico com jovens do Coque, e se oferecer para trabalhar como voluntário.

Tive brigas políticas as mais radicais com um bloco adversário, que eram resolvidas em assembléias que pegavam fogo, que cresciam com textos colocados no mural. Nunca chegamos ao absurdo das ameaças e ofensas pessoais, como acontece agora. Acho que todos cresceram de alguma forma. Anos depois, nos encontramos, demos mãos, admitimos uma certa admiração pela firmeza em defender nossos pontos de vista.

Aos declaradamente gays e machos-machos, espero que se lembrem que são seres humanos, vivendo na mesma casa. Deixem de besteiras, chamem uma assembléia, conversem, discutam, mas não voltem às páginas policiais. A CEU não merece se transformar num inferno. A vida já está muito dura, meus irmãos.

Samarone Lima, ex-apartamento 314.

Aos companheiros daqueles tempos: Erik Nunes (Moral), Negão 70, Naninho, Dragão, Canoa, Gêgê, Tourão, Geovane, Manoel Rocha, Pérsio Pé Duro, Tijolinho e tantos outros grandes sujeitos.

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Geração 65: aquela coisa toda

25 de novembro de 2008, às 1:00h por Samarone Lima

“Geração 65: aquela coisa toda”, de Luci Alcântara, fez sua estréia oficial ontem, no lendário Cinema da Fundação, no Derby. O documentário resgata a trajetória de um grupo de poetas daquele período, que foi descoberto numa peripécia do acaso, pelo poeta e crítico César Leal. São 90 minutos delicados e dedicados à poesia, o amor à poesia. Uma geração de homens que se encontravam para compartilhar belezas. Vidas poéticas, num período de repressão. A criatura sai da sala de cinema respirando flores, recitando poemas, sentindo o coração cheio de borboremas. O certo seria ter uma banquinha à saída do cinema, com as obras dos poetas, para a gente já ir lendo no ônibus.

No filme, se destaca um poeta e tanto, Jaci Bezerra. O homem tem jeito contido, manso, modesto, mas cheio de força. Quando recita um poema seu, a beleza jorra de verdade. Pesquei algo dele na internet:

Este livro é o livro dos remorsos
Inventário de um tempo hoje disperso:
Nele sou uma cor, e me despeço,
Sou também uma luz, e, nele, endosso
A sede de ternura e a minha fome
De ser só o que sou, nele me expurgo;
Eu, neste libro, não me evado ou fujo,
E aceito a cinza hostil que me consome.
Há muito quis fazer este inventário,
Mas me faltou o ócio da manhã,
Além do ócio, o sal, a palha, a lã
E o alfabeto mofado dos diários.
Ao escrevê-lo eu sou pedra e chama,
Memória de um momento perturbado,
Nele me oferto inteiro e tatuado,
Rendido à solidão que me reclama.
Escrevo uma canção para quem ama
E entre angústia e tormento se procura,
Vida que se renova e se tortura,
Insônia que me invade e que me inflama.
Aqui, contabilizo o Deve e o Haver,
O momento fraterno e a omissão;
Aqui, serenamente, o coração
Deixa o que fui e sou acontecer.
(In: O Livro das Incandecências”, lançado em 1985, pelas Edições Pirata e Alternativa Apoio Cultural).

O homem é um poeta e tanto. Ao seu lado, Alberto da Cunha Melo, Carlos Targino, Marco Polo e outros que mexeram com a vida cultural do Recife. Todos merecem a atenção, e nisso a Luci foi uma sábia diretora - deixou todos bailarem na mesma festa, sem mergulhar na vida particular de cada um, nos encontros e desencontros de qualquer geração.

O que é bom no filme é o seguinte: a pessoa sai da sala de cinema louco por poesia. Quer ir à livraria mais próxima e procurar pela Geração de 65 de Pernambuco. Quer ler os poetas todos, de norte a sul, botar debaixo do braço, lamentar não tê-los conhecido antes. Dá tempo redescobrir. Geração 65: aquela coisa toda é mesmo uma coisa daquelas. Matei minha fome provisória e eterna de poesia.

Eu mesmo, um obcecado por poesia, conhecia mais a fundo somente o Alberto da Cunha Melo, que vem sendo a leitura do meu amigo Gustavo, em Brasília. Fora isso, ele, o Alberto, tem um poema sobre o bar Princesa Isabel, numa moldura. Era lá que ele bebia, e que encosto de vez em quando, para rabiscar minhas prosopopéias.

Ao final da exibição, palmas normais, contidas. Não sei que diabos os pernambucanos têm, que não soltam uivos, gritos, palmas de 15 minutos, quando uma coisa é boa. Agora, se for para vaiar, prepare o ouvido, que é uma esculhambação. A vaia de um pernambucano destrói carreiras.

A Luci Alcântara fez um trabalho lindo, durante um ano inteiro, pensou em desistir, mas foi até o fim. É um documentário que vai circular pelo país, e que merecia aplausos mais calorosos. Fiquei frustrado com os aplausos burocráticos. Temos que celebrar de forma mais selvagem as coisas muito boas.

Depois da estréia, fomos convidados para um coquetel no Bar Central. Falei do Jaci Bezerra, que me encantou, e a Andréia Mota cismou de me apresentar ao camarada. Fui lá, a contragosto e a favorgosto. Ele me recebeu bem, pude apertar sua mão e dizer que sua poesia é muito boa. Ele foi gentilíssimo, me deu até o email, que sua esposa abre e imprime. Tentarei visitá-lo qualquer dia desses, para um breve colóquio.

Da Geração de 65, fica o sentimento de homens que viveram com e para a poesia. Creio que viveram uma vida melhor.

O mundo fica melhor com os poetas, e com gente como a Luci, que faz documentários sobre os poetas.

Para completar: www.65aquelacoisatoda.com

Encerro com o poema “Condições nem tanto objetivas”, de Alberto da Cunha Melo:

Tudo isso aconteceu
enquanto os sóbrios
chegavam cedo em casa
para alcançar os filhos acordados.

Tudo isso aconteceu
enquanto os mansos
apertavam nas mãos
o cascalho de ferro
para não matar
os que matavam em paz.

Tudo isso aconteceu
enquanto os justos
consultavam “O Eclesiástico”
para dividir a castigo
em partes iguais.

Tudo isso aconteceu
enquanto o amor, o trabalho
e outras desculpas verdadeiras
se tornavam a ponte
para que isso acontecesse.

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Aleatórias

17 de novembro de 2008, às 18:26h por Samarone Lima

Talvez eu seja o sujeito no Brasil que mais programa seu dia, e que mais descumpre o que programou, ao longo do mesmo dia. Fora isso, sou esquecido, com tendência à desatenção generalizada. À beira dos 40 anos, sei que a cura está cada vez mais longe. Acabo de chegar de uma viagem, e descubro que perdi o pen-drive, com dezenas de arquivos. Deve estar no hotel onde me hospedei. Paciência. A vida segue, mesmo sem as tecnologias. Se alguém encontrar um pen-drive branco, que perdi em Garanhuns, favor entrar em contato com a produção.

Outro dia, numa viagem com Iramarai, derramei toda a água em cima da roupa e dos livros da mochila, os pen-drives ficaram ensopados, pensei que tinha perdido tudo. Assoprei, como quem tira cisco no olho da outra pessoa, “fff”, “fff” e os pen-drives ficaram jóias.

Talvez seja por isso que eu goste tanto de caminhar. Sempre tem novidade nas ruas do Recife, ou nas ruas do mundo. Para gente distraída como eu, é como entrar num daqueles parques de antigamente, com roda-gigante, pula-pula e pipoqueiro. Outro dia, fiquei em dúvida se pegara a rua da Moeda ou a Marquês de Olinda, e nessa errância, encontrei o Pedro Saldanha, filósofo da nova geração, intelectual orgânico, crítico do marxismo ortodoxo, com sua vocação para escapar da marcação sem ficar impedido. Ele morava em Brasília, pelo que constava em ata, e estava num café, bucolicamente, conversando suas lorotas.

Semana passada, passei por Brasília, pensei em dar um pulinho na casa dele. Pedro está de volta ao Recife desde julho, e eu não sabia.

Mas acho bom isso. Me acostumei com o improvável, o imprevisto. Tento me divertir com essa sofreguidão do mundo, esse desespero das pessoas quando abre um sinal de trânsito, a indelicadeza mórbida de não fazer uma bondade, o dia inteiro. Tento entender a falta de gentileza que é o simples gesto de baixar um vidro para receber um anúncio, de uma pessoa que está trabalhando num sol de arrancar o couro. Não sei o que custa baixar o vidro para esses meninos que tentam lavar os vidros nos sinais, mesmo para dizer “velho, estou sem nada”.

Tenho achado que o mundo é dos gestos. Não é o Obama que me comove, é Rosa, que levanta o astral de minha tia-avó, quando ela está querendo ficar muito triste. É um professor da rede pública, que tenta fazer o seu, apesar desse mundo perverso, dessa grosseria generalizada nas salas de aula, como fala a nossa genial Grão de Bico. É a santa torcida do meu time, que vai ao estádio acompanhar as obras de recuperação do estádio, enquanto o campeonato não chega.

Um ex-aluno disse que graças a uma psicóloga da escola que trabalhamos, ele olhou pela primeira vez na vida para os olhos de outra pessoa. Ele estava com 18 anos. Ela, Ana Luiza, talvez nem saiba, que provocou isso numa criatura - a descoberta dos olhos alheios, de quem andava olhando maia para as calçadas que para as estrelas. Meu mundo é por aqui, por essas frestas, essas ranhuras, esses orvalhos ao meio dia, num mundo que vai se fechando em pequenas bolhas.

Distraídos, esquecidos, improváveis, errantes, saibam que não estão sós. Ontem, esqueci uma bolsa em cima da mureta da casa de tia, no Cabo. Dentro, o notebook que não é meu, dois cadernos de anotações quase cheios de inutilidades, e recortes de jornal, com as matérias mais bestas que encontro nos jornais. Numa delas, um juiz perdoava um jumento que tinha invadido uma pista de um aeroporto.

Rosa, sempre ela, encontrou a bolsa e me ligou, num celular que nunca funciona.  Perguntou onde eu estava com a cabeça.

Ah, Rosa, essas perguntas difíceis…

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