O adeus de Cyro, ou a coragem mansa
Samarone Lima
Aconteceu sexta-feira passada, mas só agora tive tempo de relatar. Estava num seminário internacional, na Fundaj, quando meu amigo Iramarai chegou, do nada.
“Estamos indo para a despedida de Dr Cyro. Quer ir?”
Deixei o seminário para depois. Meia hora depois, chegamos a uma modesta casa de acolhimento, que faz parte de um projeto de medicina integral de Cyro de Andrade Lima, em Cidade de Deus (Vitória). A casa estava cheia. Na área, debaixo de telhas brasilit, as mulheres serviam a comida. Chegamos a tempo de presenciar a despedida de Dr Cyro como médico do posto de saúde. Aos 78 anos, ele vai se dedicar ao Projeto Vila Lucila, nas terras da família, um trabalho que inclui alfabetização, criação de cabras, adubos, peixe, vivências comunitárias e silêncio.
Os agentes de saúde, médicos, psicólogos, moradores da Cidade de Deus estavam visivelmente emocionados. Perderiam o convívio diário com um homem que já não vive essa vida besta da gente. Ele filosofa, sonha, defende o silêncio como grande estratégia para os embates humanos. É um médico que olha para seus pacientes com respeito, carinho, admiração. Acima de tudo, é um homem manso, o manso que vai zerar tudo em 12 de janeiro de 2009, quando completa 79 anos.
“Nenhum processo humano vai adiante sem o sossego”, lembrou.
As homenagens passaram por músicas como “Tocando em Frente”, acompanhadas de fotos das equipes de saúde. Depois, “Amigo é coisa pra se guardar”, quando as primeiras lágrimas surgiam timidamente.
Por último, Cyro falou. Disse que acredita firmemente que o silêncio é o melhor da caminhada humana. “É preciso silêncio para não haver confronto”. Perguntou se somos um cofre de dinheiro e ambição ou se somos um sonho. Reafirmou sua consciência de que o ser humano nunca foi bicho. Lembrou do período difícil, quando foi secretário estadual de Saúde. “Arraes nunca me chamou para a secretaria de Saúde, me levou para levar uma pisa”.
Enquanto ele falava, só me aparecia mesmo o esplendor da velhice. Um homem com 78 anos cheio de saúde, planos, capaz de falar sobre alongamentos, alimentação, de projetar a caminhada para o futuro. “Aos 79 anos, todo velho deveria zerar o velocímetros. No dia seguinte, ele estaria solto”.
Lembrei das vezes que Cyro nos acompanhou, nas ações do Programa Mãe Coruja Pernambucana (www.maerocujape.blogspot.com). Numa delas, começou a falar sobre ações em saúde, mas preferiu mudar o rumo da prosa. No centro de um auditório lotado de agentes comunitários de saúde, começou a fazer tai-chi-chuan. Aquele silêncio que se instalou na sala foi realmente poderoso. O silêncio eloquente.
Ao final da cerimônia, ele tirou a camisa, os sapatos, e fez os alongamentos que o ajudam a ter vigor, resistência. Disse que não precisava mais falar em sonhos, porque uma filha já estava fazendo isso melhor que ele. Se referia a Bebeth, sua filha, que não escondia as lágrimas.
“No egoísmo, se perde a noção da beleza da terra, de dar as mãos, de uma revolução sexual masculina e feminina”, lembrou.
Depois dos muitos presentes, dos agradecimentos, fomos ao almoço coletivo. Talvez o carinho das cozinheiras tenham deixado o sabor tão especial.
“Só me lembro de ter visto coisas lindas assim, feitas em comunidade, no final dos anos 1970″, disse Iramarai, um antigo militante.
Dessa época não posso falar muito, porque estava com meus 11 anos, e certamente brigando com meu irmão por causa de uma derrota em uma partida de futebol de botão. Mas se era bonito como na Cidade de Deus, foi um tempo bom.
Comemos juntos, partilhamos, celebramos, naquela mistura de tristeza pela partida, mas de alegria pela renovação das esperanças.
“Guardo a memória da terra. Mansidão e a coragem mansa”, disse o velho médico, que começou a se envolver com coisas de comunidade aos 19 anos, no 2o ano do curso de Fisiologia, pelas mãos de Nelson Chaves e Naíde Teodósio. Na sexta-feira, 60 anos depois, o servidor público recolheu suas armas. Vai para outros sonhos.
Foi isso o que guardei com mais força. A coragem mansa.
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