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	<title>Estuário</title>
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	<description>Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias &#124; Por Samarone Lima</description>
	<lastBuildDate>Tue, 16 Mar 2010 19:48:09 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Autor em apuros</title>
		<link>http://www.estuario.com.br/2010/03/15/autor-em-apuros/</link>
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		<pubDate>Mon, 15 Mar 2010 15:29:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Aconteceu o que todo autor de livro quer. O meu &#8220;Viagem ao Crepúsculo&#8221; conseguiu sair do circuito do Recife, onde praticamente foi vendida a primeira edição (1.000 exemplares). Com o debate sobre Cuba, que participei no no programa Painel, da Globo News (sob comando do excelente William Waack), milhares de pessoas assistiram.
Na volta de São [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Aconteceu o que todo autor de livro quer. O meu &#8220;Viagem ao Crepúsculo&#8221; conseguiu sair do circuito do Recife, onde praticamente foi vendida a primeira edição (1.000 exemplares). Com o debate sobre Cuba, que participei no no programa Painel, da Globo News (sob comando do excelente William Waack), milhares de pessoas assistiram.</p>
<p>Na volta de São Paulo, um sujeito no aeroporto veio falar comigo, querendo comprar um exemplar. Eu, claro, não tinha nada na bolsa. Vai o link:</p>
<p><a href="http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1528788-17671,00.html">http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1528788-17671,00.html</a></p>
<p>No sábado, saiu uma excelente matéria do Ronaldo Bressane, no jornal Brasil Econômico. De longe, a melhor e mais articulada matéria que saiu sobre o livro.O cara entendeu tudo, e tem um texto de primeira linha.</p>
<p> Tentei encontrar na versão digital, mas não consegui. O Bressane reproduziu em seu blog, então segue:</p>
<p><a href="http://impostor.wordpress.com/">http://impostor.wordpress.com/</a></p>
<p>Mas é um momento estranho, esse que vivo. Como a editora é pequena e com dificuldades de distribuição, falta livro em todo canto. No sábado, fui à  Livraria Cultura do Conjunto Nacional, tinham encomendado 8 livros.  Nenhum exemplar nas prateleiras, sequer para remédio. A sorte é que passei na casa do velho e bom Abel Menezes, que pegou 20 livros para deixar lá, a título de consignação.</p>
<p>Na Cultura daqui, hoje zerou o estoque. É o mesmo filme do que passei com &#8220;Zé&#8221;, meu primeiro livro.</p>
<p>Hoje de manhã, uma pessoa me informou que não encontrou o livro no Recife.</p>
<p>Eu queria um dia chegar a esse momento sublime na vida de um escritor, que é quando o sujeito escreve, trabalha duro, dá o melhor de si, acompanha todo o processo da feitura de um livro, que é exaustivo, e depois que é publicado, acompanha o andamento das coisas.</p>
<p>Neste momento, sou um autor em apuros. Nada pior do que escutar a frase:</p>
<p>&#8220;Não estou encontrando teu livro em canto nenhum&#8221;.</p>
<p>É o que mais tenho escutado.</p>
<p>Na hora do almoço, quando escreveria crônica nova, terei que encher mais uma mochila e sair para distribuir os livros. </p>
<p>Amanhã escrevo algo decente. Ou depois.</p>
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		<title>Diálogos</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Mar 2010 17:08:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Nota: Neste sábado estarei no programa &#8220;Painel&#8221;, apresentado pelo jornalista William Waack, debatendo Cuba e temas afins. Os debatedores são Bolivar Lamounbier e Cláudio Gonçalves Couto.
É pela Globo News (TV a cabo). Vai ao ar às 22h no sábado, com repeteco no domingo, às 20h. Espero que gostem. De resto, segue crônica nova.
***
Estou numa minúscula [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nota</strong>: Neste sábado estarei no programa &#8220;Painel&#8221;, apresentado pelo jornalista William Waack, debatendo Cuba e temas afins. Os debatedores são Bolivar Lamounbier e Cláudio Gonçalves Couto.</p>
<p>É pela Globo News (TV a cabo). Vai ao ar às 22h no sábado, com repeteco no domingo, às 20h. Espero que gostem. De resto, segue crônica nova.</p>
<p>***</p>
<p>Estou numa minúscula agência do Banco Real. Estranhamente, tem apenas duas funcionárias, bem vestidas e jovens. Uma fala ao telefone, sentada à sua mesa, outra está sentada em um móvel, de costas para a janela. Não tem um cliente, exceto eu, que acabei de entrar. Estranhamente, portanto, é porque acho muito difícil o sujeito entrar numa agência de um banco, no Brasil, e encontrar somente duas funcionárias, bem vestidas e jovens, e só um cliente. Mas deixemos isso de lado, porque coisas esquisitas acontecem comigo com uma facilidade incrível.</p>
<p>Chego com um dinheiro num envelope, escondidíssimo, fruto de um bom frila.</p>
<p>- Posso depositar aqui?</p>
<p>- Pode não. Aqui não tem máquina para depósito. Tem máquina para depósito no corredor.</p>
<p>Puxo o cartão, tenho dificuldade para encontrar o número da agência e da conta. Tenho também dificuldades com muitas coisas, especialmente as mais óbvias.</p>
<p>- Moça, dá para você me dizer aqui qual é o número da conta e da agência?</p>
<p>Ela olha.</p>
<p>- Sua conta é conta salário, não pode fazer depósito nela, só em conta corrente.</p>
<p>Miséria, lá vou eu caminhar por essas ruas com um bom dinheiro intocado. Às vezes eu penso que dinheiro tem cheiro, porque nunca vi ladrão adivinhar tanto que a gente está bem forrado. Quando o sujeito está liso de doer, o ladrão muda até de calçada, parece que viu uma flor.</p>
<p>Sento numa cadeira, aproveito o ar-condicionado para me refrescar um pouco. O calor no Recife está derretendo até pinguim de geladeira.</p>
<p>Vou anotar algo que preciso fazer, um de meus vícios, eu sou cheio de vícios, quando uma das mulheres desliga o telefone.</p>
<p>- Saiu o resultado. Meu avô está com câncer na boca. Semana que vem começa a quimioterapia.</p>
<p>A outra mulher, que estava ao telefone, olha.</p>
<p>- Mas eu sou muito realista. Minha avó é que fica chorando toda aperreada, mas eu sou realista.</p>
<p>- Você não é realista, é mais fria que realista.</p>
<p>- Quando meu primo morreu, eu estava grávida, todo mundo chorando, eu disse que aquilo era previsível.</p>
<p>- Se eu fosse tua prima, te matava. Oi, bom dia, sim. Ah, me dê o número da sua conta, que eu vejo agorinha. Agora.</p>
<p>A mulher do telefone encaminha algo, desliga o telefone, e emenda a conversa do mesmo ponto, como se não houvesse interrupção.</p>
<p>- Você não é mais realista, você é mais fria. Ou Maciel, eu iria te ligar agorinha. Pausa. Resolve outra coisa. Desta vez, o seguro de um carro, creio. Mas mil e trezentos? Hoje de manhã fiz uma cotação para mim, deu mil e cem.  Termina a ligação, a outra completa do mesmo ponto.</p>
<p>- Talvez eu seja assim porque nunca vi um parente muito próximo morrer.</p>
<p>- Não é isso não. Banco Reall, bom dia. Pois não. Qual é o número da agência. Sim senhor, claro. Vamos ver aqui. Termina a ligação.</p>
<p>- Não é isso não. Sinceramente, eu acho que você.  Alô, bom dia. Pois não. Não é nesta agência, senhora. Vou dar o número do telefone correto. Fim da ligação.</p>
<p>- Não é isso mesmo. A questão é outra. Você.</p>
<p>O telefone toca de novo. Mais uma questão envolvendo seguro, talvez a mesma. Minha curiosidade foi aguçada ao extremo, mas o telefone tocava demais, o trabalho me aguardava, e eu já estava chamando a atenção, porque ficava anotando tudo numa rapidez incrível em meu bloquinho.</p>
<p>Saí da agência com aquela boa grana, mas encafifado, encasquetado, contrariado,  querendo saber o que era, mas nunca saberei.</p>
<p>Tem certas coisas que a pessoa nunca vai saber mesmo.</p>
<p>Passei na livraria e comprei um livro que estava paquerando há muito tempo, depois fui caminhando até o trabalho, com aquela alegria de saber que terei um belo livro para ler, a mais tarde. Um sol de derreter qualquer cabeção e eu assobiando uma música do Vinícius. Aquele negócio manhoso do se todos fossem iguais a você, que maravilha viver. Eu estava até entoado hoje, parecia um Pixinguinha do bico. Fiii forofo forofóoooo. Fii farafi fi fifi.</p>
<p>Só agora me ocorreu algo. Custava ter esperado mais um pouco, para saber mesmo o que era?</p>
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		<title>A impressionante arte de lançar livro</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Mar 2010 19:15:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Definitivamente, minha vocação para lançar livros aos poucos vai se tornando um folhetim. Ontem, fui lançar o &#8220;Viagem ao Crepúsculo&#8221; em Natal e repeti façanhas aqui já relatadas, de lançamentos em outras cidades.
Às 9h, estava dentro do ônibus da Viação Progresso, uma empresa que eu faço questão de denunciar. Invariavelmente, pego ônibus com um péssimo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Definitivamente, minha vocação para lançar livros aos poucos vai se tornando um folhetim. Ontem, fui lançar o &#8220;Viagem ao Crepúsculo&#8221; em Natal e repeti façanhas aqui já relatadas, de lançamentos em outras cidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Às 9h, estava dentro do ônibus da Viação Progresso, uma empresa que eu faço questão de denunciar. Invariavelmente, pego ônibus com um péssimo ar-condicionado, sem água, e banheiro de boteco falido.  O de ontem foi um show à parte. Não tinha sequer água para lavar as mãos, papel, sabonete. O ar-condicionado era uma vaga lembrança.  Melhor seria viajar com as janelas abertas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando chegar a Natal, vou ligar para o 0800 da ANTT, que é a agência reguladora dos transportes no Brasil, foi o que pensei.</p>
<p style="text-align: justify;">Às 14h33 desembarcamos, eu e a caixa de livros (40 exemplares, era minha tosca esperança de vender no lançamento). Uma turma da ANTT estava fazendo uma pesquisa na rodoviária, fui logo dando o nome para falar, mas a moça queria saber apenas de onde eu vinha e quanto tempo iria ficar, e se voltaria de ônibus. Falei com a moça sobre o ar-condicionado, ela respondeu bestamente:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Ah, isso é o que mais reclamam&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Achei uma besteira a pesquisa, mas órgão governamental adora fazer pesquisa. Fui com minha caixa de livros e uma bolsa à tira-colo ligar para os amigos jornalistas, mas dei com os burros n&#8217;água. Meu celular estava descarregado, e os três amigos estavam em suas obrigações jornalísticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Do orelhão, liguei para a ANTT. Um atendente, de nome Jander, pediu meu nome, identidade, cpf, número do bilhete, placa do ônibus, e de vez em quando me dizia &#8220;aguarde um momento, senhor&#8221;. Isso durava de três a cinco minutos. Depois voltava, pedia o número do bilhete, senha, detalhes, pensei que ele iria pedir um retrato falado do motorista, meu tipo sanguíneo, clube de coração, livro preferido, tamanho do sapato, e arrematou minha reclamação pedindo que eu mandasse a cópia da passagem por fax. Mais fácil deve ser abrir uma empresa e pagar impostos.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Escuta amigo, isso é para o cara reclamar ou é um censo que vocês estão antecipando?&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Acho que o Jander não gostou muito da minha pergunta.</p>
<p style="text-align: justify;">Tomei uma cerveja para relaxar, e às 16h descobri que era um verdadeiro idiota latinoamericano. O lançamento, no Bar Prozac, seria somente às 19h. Para que diabos peguei o ônibus das 9h, se tinha um às 11h?</p>
<p style="text-align: justify;">Sem conseguir falar com ninguém, sem saber onde era o bar, meio desolado, um sol de rachar, pude utilizar o banheiro da rodoviária de Natal, uma das coisas mais imundas que já tive oportunidade de conhecer. Depois, pedi um sanduíche, um dos piores que comi nos últimos dez ou doze anos. Só mesmo um lampejo de esperança poderia me salvar.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi quando olhei para o outro lado da rua e vi:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Hotel Cidade do Sol&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Deixei a caixa de livro num box e fui lá. A diária custava R$ 15,00 mas expliquei meu problema, a moça baixou para R$ 12,00.</p>
<p style="text-align: justify;">Paguei, peguei a chave, fui lá. Era um labirinto de quartos. No meu, um ventilador medíocre, uma toalha muito antiga e um sabonete de motel fuleiro. Meu plano era tomar um banho, cochilar, descobrir onde ficava o Prozac e seguir para o lançamento de táxi, com minha caixa. Nesse período, comprei um carregador de celular por R$ 10,00.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltei para buscar a caixa no box. Nisso, eu já estava cansado pacas, igual à Baleia, do Graciliano, pensando num mundo cheio de preás. </p>
<p style="text-align: justify;">Quando estava pensando em rezar, pedindo ajuda aos meus santos, o Carlos  Magno me liga.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Sama, vou te buscar. Te deixo lá em casa, tu toma um banho, come algo e depois o Tácito vai te buscar, para ir ao lançamento&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi uma das frases mais lindas da língua portuguesa que escutei este ano &#8211; &#8220;Sama, vou te buscar&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltei para o hotel, expliquei à moça que iria embora, mas os R$ 12,00 ela dividisse com a faxineira. A moça abriu um sorriso. Voltei para o quarto, deu tempo de cochilar vinte minutos, depois desci, com a caixa e os 40 livros, minha mochila e meu terno de escritor, que uso em lançamentos.</p>
<p style="text-align: justify;">Carlos Magno me levou para a casa dele. Fiquei sozinho, morrendo de fome e sede. Ele me apresentou a casa inteira, mas o melhor cômodo que achei mesmo foi a geladeira, cheia de tapauer com opções de rango. Mandei ver num macarrão com almondegas, fora uma salada de verdura e um pouco de purê. Um vinho tinto gelado completou a cena.</p>
<p style="text-align: justify;">Às 17h30 estava debaixo de um banheirinho morno. Depois, foi só botar a roupa, ligar o ventilador no três e esperar o Tácito chegar.</p>
<p style="text-align: justify;">Tácito é pontual pacas e me levou ao Prozac. No lançamento não deu tanta gente, mas a mesa ficou uma delícia. Sônia e Carlão, Demétrius e Raíssa, Xico Guedes, Tácito, Carlos e Elizandra. O excelente Dinarte, que fez uma matéria muito bacana para o <em>Novo Jornal</em>, também chegou por lá. Depois, o Carlos Magno. Também registro a presença do pai e da mãe de Inácio, meu dileto amigo.</p>
<p style="text-align: justify;">A conversa girou em torno de Cuba, que é o tema do livro. Foi uma delícia. O Demétrius, que é poeta, saiu com essa:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Foi uma revolução que gorou&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">O Xico contou que estava em Havana na época do julgamento do coronel Uchoa, homem queridíssimo pelo povo Cubano, que foi fuzilado. Para muitos  cubanos, ali foi o início do fim.</p>
<p style="text-align: justify;">Foram conversas deliciosas sobre o mundo, viagens, impressões, sonhos, esperanças. Eu adoro conversar com velhos comunistas, os que não endureceram o pensamento. Rimos muito quando começaram a lembrar das marchinhas de Carnaval que caíram no gosto popular.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Cuba Cuba Cuba/</p>
<p style="text-align: justify;">Andou na contramão/</p>
<p style="text-align: justify;">Vai descansar no Paredão&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma música lembrou muito minha tia Flocely.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;O Brasil vai lançar foguete/</p>
<p style="text-align: justify;">Cuba também vai lançar/</p>
<p style="text-align: justify;">Lança Cuba, lança/</p>
<p style="text-align: justify;">Quero ver Cuba Lançar&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Ra ra ra ra. Quando eu fui viajar para Cuba, a saudosa Flocely repetia:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Sama vai cuba lançar&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Às 23h55 eu estava dentro do ônibus, voltando para o Recife, trazendo novamente a caixa quase cheia e alguns amigos novos. Minto. Alguns ótimos amigos novos.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje de manhã fiquei pensando comigo. Algum dia vou chegar numa cidade, vai ter aquele pessoal do receptivo com uma plaquinha e meu nome. Depois vou para um hotel bacana, numa Van, onde poderei descansar, tomar banho, e à noite vai ter o lançamento, e meio mundo de gente para comprar o livro. E depois, uma baita farra, e eu não vou nem olhar para a conta.</p>
<p style="text-align: justify;">Ah, mas se não tiver essas coisas, não tem problema, porque vou me divertindo à beça com esses improvisos. Ruim é quando a pessoa fica querendo demais uma coisa, e deixa de se divertir com as outras coisas boas que estão por perto.</p>
<p style="text-align: justify;">O lançamento em Natal foi uma ótima desculpa para uma deliciosa roda de conversas com novos e velhos amigos, e isso já é uma dádiva.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Agradecimentos especiais a Tácito e Carlos Magno. </strong></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Teoria e Método + Divulgação do livro novo</title>
		<link>http://www.estuario.com.br/2010/03/01/teoria-e-metodo/</link>
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		<pubDate>Mon, 01 Mar 2010 13:37:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Nota do autor
Nesta quinta-feira (4/03), estarei no bar Prozac, em Natal, lançando meu &#8220;Viagem ao Crepúsculo&#8221;, a partir das 19h.
Na sexta (5/03 &#8211; lógico), participarei de um debate na Rádio Jornal AM com Plinio de Arruda Sampaio e Maurílio Ferreira Lima sobre &#8220;A esquerda, hoje&#8221;. Vou falar é sobre meu livro, isso sim.
Uma leitora querida [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nota do autor</strong></p>
<p>Nesta quinta-feira (4/03), estarei no bar Prozac, em Natal, lançando meu &#8220;Viagem ao Crepúsculo&#8221;, a partir das 19h.</p>
<p>Na sexta (5/03 &#8211; lógico), participarei de um debate na Rádio Jornal AM com Plinio de Arruda Sampaio e Maurílio Ferreira Lima sobre &#8220;A esquerda, hoje&#8221;. Vou falar é sobre meu livro, isso sim.</p>
<p>Uma leitora querida mandou o link para escutar o programa. O linque da tua entrevista no JC: <a href="http://jc3.uol.com.br/jornal/2010/02/28/not_367842.php">http://jc3.uol.com.br/jornal/2010/02/28/not_367842.php</a>   (é só clicar em cima que abre direto, viu?)<br />
 <br />
O sítio da rádio JC, e é só clicar na coluna à esquerda, no nome do Geraldo Freire: <a href="http://jc3.uol.com.br/radiojornal/canal.php?canal=43">http://jc3.uol.com.br/radiojornal/canal.php?canal=43</a>  (idem)</p>
<p>Mas voltemos ao texto original. Não botei outro novo por causa desse tumulto do livro novo. Se o cara não se esforçar, o livro mofa na editora e o prejuízo é grande.</p>
<p>***</p>
<p>Tinha uma matéria na faculdade que me fazia sofrer terrivelmente &#8211; Teoria e Método de Pesquisa. Fora a experiência da reprovação em matemática, na quinta e oitava séries, foi o período da vida em que me senti mais burro. Eu não captava a teoria, nem desenvolvia um método. Não sei até hoje como terminei o curso de Jornalismo, se tínhamos a cadeira de TV por quatro semestres seguidos. Essas loucuras que não entendo. Quatro cadeiras de TV e nenhuma de filosofia ou literatura.</p>
<p>Disso resultou uma enorme dificuldade com as teorias, em geral, e com os métodos. Desenvolvi duas alternativas no que se refere ao meu ofício, que é escrever. Criei uma especulação e um jeito de escrever.</p>
<p>Hoje mesmo, acordei já pensando em uma crônica nova, mas me faltava o tema. Entrou a especulação. Uso meu instrumento básico de trabalho, que são as cadernetas e cadernos, que são muitos. Estão cheios de frases, cenas, observações, inutilidades. Tenho também cadernos com inúmeros recortes de jornal, com notícias estranhas e inusitadas. Fora isso, tenho um chamativo para malucos e pessoas que adoram me contar suas vidas em cinco minutos. Eu também tenho uma vasta coleção de inutilidades, que servem muito para a escrita.</p>
<p>Exemplo. Ontem, fiquei sabendo que o Brasil tem um Ministério do Esporte no Gelo. Não confirmei com minhas fontes em Brasília, mas deve ser verdade. Pensei em escrever sobre isso, mas me faltou elegância e astúcia. Fica para depois.</p>
<p>Passada a fase da especulação, chego ao jeito de escrever. Tenho o meu, cada um tem o seu. O principal é escrever sobre o que gosto. Como já tem muita gente escrevendo sobre os problemas do Brasil e do mundo, tento ir para a vida cotidiana, que é meu grande assombro. Só de vez em quando entro nesses litigios maiores, porque também não estou vivendo sem interagir, e muitas coisas me doem.</p>
<p>O melhor horário, disparado, é de manhã. De preferência, bem cedo. Quanto mais cedo, melhor. Como tenho minhas esquisitices, sou um cearense radicado em Pernambuco que bebe chimarrão quase todo dia de manhã. Estou aqui, portanto, com a cuia e a garrafa térmica. Os amigos nunca deixam faltar a erva-mate em suas viagens. Adriana Dória me trouxe recentemente uma erva argentina que era uma delícia, mas já acabou.</p>
<p>Teve uma época em que eu só escrevia de madrugada. É ótimo, mas o cara cansa muito no outro dia. Na época de Casa do Estudante, eu varava as noites em claro, com a ajuda do Nescafé. Eu também fumava, mas como só gostava de cigarro forte, o Derby, a essa altura, meus pulmões já estariam pifando. Hoje em dia, só fumo quatro cigarros, nos dias dos jogos do Santa Cruz. Dois no primeiro tempo, dois no segundo.</p>
<p>Escrever crônica é uma delícia, mas é preciso ter cuidado. Se a pessoa ficar falando demais dela, começa a ficar chato. Morro de medo de ficar chato. Se ficar também só fazendo análises, críticas, acaba ficando repetitivo. Para mim, o grande mestre da crônica continua sendo o Rubem Braga. Daqui de Pernambuco, o Renato Carneiro Campos me encantou com um livro magistral, &#8220;Sempre aos Domingos&#8221;.</p>
<p>Adoro escrever crônicas. É uma conversa com os leitores. Me divirto e, de certa forma, me realizo. Não dependo de nenhum meio de comunicação para me comunicar com as pessoas. Acabei de olhar no contador interno de Estuário. Esta crônica é a de número 580. Uma leitora está fazendo uma seleção rigorosa, para transformar em livro. É bom que ela faz a seleção e me manda comentários filosóficos, sociológicos, articulando com seus pensadores prediletos. Eu fico todo cheio de bossa, mas isso dura cinco minutos.</p>
<p>Com livro, trata-se de uma batalha. Leva tempo, cansa, dá trabalho. O sujeito sofre. Levei cinco anos na pesquisa e escrita de &#8220;Zé&#8221;, meu primeiro livro. É preciso das uns descontos, porque a primeira versão eu perdi integralmente. A segunda, creio, ficou melhor. Depois veio &#8220;Clamor&#8221;, que durou uns três anos. A batalha maior, comigo, é para definir como vou contar a história. O &#8220;como&#8221; me atormenta muito. O primeiro capítulo é meu maior sofrimento. São dias, semanas, meses, até achar o tom, o jeito. Quando ele fica pronto, o primeiro capítulo, desenho mentalmente a estrutura dos capítulos, anoto num caderno, e aos poucos, vai nascendo.</p>
<p>O livro de Cuba, por exemplo, me custou um ano e meio de trabalho puxado. Só consegui acertar o prumo quando decidi o seguinte &#8211; vou tentar levar o meu leitor comigo, pelas ruas de Havana.</p>
<p>O grande problema de quem escreve é tempo. Sempre falta tempo. Eu queria muito ter um mecenas, alguém rico que me desse uma bolsa de trabalho por uns três anos, mas os ricos do Brasil vão para Miami gastar o dinheiro todo lá, nunca tive essa sorte.</p>
<p>Mas um dia a gente para de reclamar, deixa de besteira, porque tem que sobreviver, pagar as contas etc. Adotei o método de escrever todo dia um pouco. Mesmo que 30 linhas de um texto. Cada dia um pouquinho. Assim, o sujeito vai construindo algo. Nessa luta, já vou com meus quatro livrinhos, e estou muito satisfeito com o andar da carruagem.</p>
<p>É claro que o retorno dos leitores é uma maravilha. Aqui em Estuário, tem o espaço dos comentários, que geralmente me dão muitas alegrias. Leio todos, até porque vão direto para minha caixa de email. É bom ver a diversidade de opiniões, de visões. Fico feliz. Geralmente respondo, mas não sei se as pessoas querem resposta, querem mais só comentar mesmo.</p>
<p>Os livros são outro tipo de retorno. Um amigo disse que só chorou com dois livros na vida: &#8220;Zé&#8221;, e &#8220;Meu pé de laranja-lima&#8221;. Achei sensacional, estar ao lado de &#8220;Meu pé de laranja-lima&#8221;, porque chorei com o filme, quando era pequeno. Outro mandou um email dizendo que começou a ler o livro sobre Cuba e se empolgou tanto, que passou da parada. Só se o cara for muito besta, para dizer que não se importa com isso, esses afetos cheios de bondade.</p>
<p>Fora a especulação e o método, algo me move profundamente &#8211; a teimosia. Sou teimoso pacas. Taurino turrão, me disseram outro dia. Estou numa pesquisa sobre um livro que começou em 1992. São 18 anos de luta paciente, coleta de informações, visitas a arquivos etc. Mas é bom ver que ele está se tornando realidade. Semana passada escrevi o capítulo 13. Tem dia que não consigo pegar no texto, mas fico remoendo aqui no cabeção, pensando nas cenas, só aguardando a hora de ficar com ele. Acho que a vida fica muito menos chata quando a gente tem uma teimosia dessas para dar conta.</p>
<p>Bem, eu tinha pensado inicialmente em escrever sobre o Ministério do Esporte no Gelo. Acabei mergulhado nessas reflexões e manias, um pouco dos bastidores da minha criação.</p>
<p>No fundo, eu queria mesmo era agradecer aos leitores que passam por cá, leem e deixam uma notinha ao pé da página.</p>
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		<title>Quem lamenta sou eu, presidente</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Feb 2010 15:02:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Em janeiro de 2008, voltei de uma viagem a Cuba que durou um mês, que resultou em um livro (Viagem ao Crepúsculo, Editora Casa das Musas). Naquele janeiro, o presidente Lula visitou a ilha, e acompanhei a mobilização de dezenas de estudantes de Medicina brasileiros, para tentar uma audiência. Em pauta, a revalidação do diploma. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1308" class="wp-caption aligncenter" style="width: 72px"><img class="size-full wp-image-1308" title="orlando zapata" src="http://www.estuario.com.br/wp-content/uploads/2010/02/orlando-zapata.jpg" alt="Orlando Zapata" width="62" height="121" /><p class="wp-caption-text">Orlando Zapata</p></div>
<p>Em janeiro de 2008, voltei de uma viagem a Cuba que durou um mês, que resultou em um livro (Viagem ao Crepúsculo, Editora Casa das Musas). Naquele janeiro, o presidente Lula visitou a ilha, e acompanhei a mobilização de dezenas de estudantes de Medicina brasileiros, para tentar uma audiência. Em pauta, a revalidação do diploma. O máximo que conseguiram foi falar com o ministro da Saúde, José Gomes Temporão.</p>
<p>Nos jornais e rádios estatais, a visita foi cercada de silêncio. Lula chegou, encontrou com o velho amigo Fidel, tirou fotos, tudo muito divertido e afável. Entre os muitos amigos cubanos, havia um ranger de dentes. Uma raiva interior confessada em palavras baixas. Lula jamais deu uma palavra sobre prisões de dissidentes, violações de direitos humanos, a absoluta falta de liberdade que impera na ilha.</p>
<p>Desta vez, Lula chegou a Havana no fim da agonia de Orlando Zapata Tamoyo, de 42 anos, um bombeiro hidráulico e prisioneiro de consciência. Após 85 dias em greve de fome, ele morreu. À noite, no necrotério, sua mãe, Reina, deu um breve e comovente depoimento, uma indignação dolorosa e profunda.</p>
<p>“Eu digo ao mundo. Esta é a minha dor. Meu filho foi torturado durante todo o período em que esteve preso. Foi assassinado”.</p>
<p>Depois de relatar as torturas sofridas pelo filho durante todo o período em que esteve preso (desde 2003), ela não esqueceu dos demais infelizes que ousaram levantar a voz contra o regime:</p>
<p>“Que exijam a liberdade dos demais presos e demais irmãos”.</p>
<p>O depoimento da mãe pode ser escutado no blog da única voz possível vindo de Cuba, a blogueira Yoani Sánchez  (<a href="http://www.desdecuba/generaciony">www.desdecuba/generaciony</a>)</p>
<p>Forçado pelas circunstâncias a falar  sobre a morte de Orlando, Lula respondeu assim:</p>
<p>“Lamento profundamente que uma pessoa se deixe morrer de greve de fome. Pelo amor de Deus, ninguém que queira fazer protesto peça para eu fazer greve de fome, que eu não farei mais”.</p>
<p>Quem lamenta sou eu, presidente. A circunstância da visita permitiria, pela primeira vez, que uma voz reconhecida mundialmente trouxesse à tona um dos maiores crimes cometidos pelo regime cubano – a perseguição implacável a qualquer voz dissidente, tratados como “mercenários financiados pelos Estados Unidos”. No mínimo, uma negociação pela libertação dos que estão com graves problemas de saúde, os mais velhos, para que possam morrer perto dos parentes.</p>
<p>Lamento que a vítima, um bombeiro hidráulico passe de vítima a culpado. Claro, ele “se deixou morrer&#8221; na greve de fome.</p>
<p>Havia uma carta dos dissidentes, que deveria ser entregue a Lula. Ele não recebeu e explicou o seguinte:</p>
<p>“Eu não recebi carta nenhuma. As pessoas precisam parar com o hábito de fazer cartas, guardar para si e depois dizer que mandam para os outros”.</p>
<p>Tristeza, decepção, indignação. É o que sinto pela morte de um preso de consciência, após a agonia de 85 dias, e pelo que diz o presidente do meu país, com palavras que passam pela vulgaridade. Um homem que tem planos de ser um estadista mundial, que pretende mediar conflitos.</p>
<p>Mas vai uma confissão. Essa postura de Lula não é nenhuma novidade para mim, bem como o profundo, meticuloso e inabalável silêncio de praticamente todas as pessoas esclarecidas e de esquerda no Brasil sobre a realidade cubana.</p>
<p>Após o lançamento do meu livro, que mostra a vida cotidiana, o sofrimento, a penúria e repressão naquela ilha, participei de vários debates. Há os defensores radicais do regime, que me apontam o dedo e dizem que não vi os avanços em saúde e educação. Há dedos em riste, acusadores, as famosas perguntas, se vi crianças nas ruas, se vi mendigos.</p>
<p>Em nenhum dos debates, algum defensor ardoroso perguntou ou falou sobre esta palavra que me move diariamente, e com a qual caminharei até o último dia: Liberdade.</p>
<p>Os cubanos não são livres. Não podem sair do país. Não podem criticar o regime na fila do pão, sob o risco de serem rapidamente presos pelos infiltrados, e condenados a 20, 30 anos de prisão, após julgamentos rápidos. Não podem escrever um artigo para publicar no Granma, pedindo respeito aos direitos humanos.</p>
<p>Conheci de perto a azeitada máquina repressiva cubana. A rigorosa cobrança da identidade aos jovens mulatos. Os infames “Comitês de Defesa da Revolução”, verdadeiras máquinas de vigilância e delação, instalados em todos os bairros. Escutei relatos sobre a vida nas prisões de Cuba, por uma mulher admirável, que me hospedou, enquanto juntava os trocados para visitar o filho preso, a cada 15 dias.</p>
<p>O que está acontecendo em Cuba é uma tragédia humana que um dia será contada. A Anistia Internacional calcula em mais de 200 presos de consciência. Não mataram, não roubaram, não desviaram dinheiro. Ousaram falar, escrever, questionar.  </p>
<p>Orlando Zapata Tamoyo passou por uma longa agonia, e morreu às vésperas da chegada de um presidente que foi preso porque liderou operários, em busca de liberdade.</p>
<p>Zapata não se deixou morrer, presidente Lula.</p>
<p>Ele tinha a mesma fome que tenho, e que jamais saciou: de liberdade.</p>
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		<title>In memorian</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Feb 2010 04:30:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Orlando Zapata, 42 anos.
Preso de consciência da ditadura cubana.
Morreu em uma greve de fome, após dois meses.
Lula encontrou Fidel e Raul Castro, tirou fotos, mas não soube de Orlando.
Numa entrevista desastrosa, lamentou que &#8220;uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome&#8221;.
Isso é lamentável e muito triste. Há mais de 200 presos políticos na ilha.
No [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Orlando Zapata, 42 anos.</p>
<p>Preso de consciência da ditadura cubana.</p>
<p>Morreu em uma greve de fome, após dois meses.</p>
<p>Lula encontrou Fidel e Raul Castro, tirou fotos, mas não soube de Orlando.</p>
<p>Numa entrevista desastrosa, lamentou que &#8220;uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome&#8221;.</p>
<p>Isso é lamentável e muito triste. Há mais de 200 presos políticos na ilha.</p>
<p>No blog da Yoani Sánchez, a voz na surdina dos familiares de Orlando.</p>
<p><a href="http://www.generaciony.com">www.generaciony.com</a></p>
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		<title>Previsões e anotações</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Feb 2010 21:51:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Criar um nome no skype. Criar um bom dia menos careta. Aceitar finalmente os pedidos para aderir ao facebook.  Botar minha face no meu book predileto. Abrir uma conta no Orkut. Fechar a conta do Bradesco. Entender finalmente a lógica do twitter. Botar uma tweeter melhor no som do carro. Descobrir o maravilhoso das redes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Criar um nome no skype. Criar um bom dia menos careta. Aceitar finalmente os pedidos para aderir ao facebook.  Botar minha face no meu book predileto. Abrir uma conta no Orkut. Fechar a conta do Bradesco. Entender finalmente a lógica do twitter. Botar uma tweeter melhor no som do carro. Descobrir o maravilhoso das redes sociais. Dormir mais na rede social da sala. Postar minhas filmagens no youtube. Postar as cartas noturnas que nunca mais escrevi. Aprender a baixar música. Aprender a baixar o tom nas discussões. Aprender a baixar filme. Aprender a baixar o vidro. Postar mais no blog. Me irritar menos com meu bloco de Carnaval. Ver o MySpace. Deixar dessa frescura de &#8220;meu espaço&#8221;. Ver como comprar no sebo virtual. Abrir um sebo de verdade. Buzz. Não sei do que se trata. &#8220;Reputação é tudo na rede social Naymz&#8221;.</p>
<p>&#8220;Não posso ver porque estou sem óculos e nem quero botar&#8221; (Fernando). &#8220;O prato mais sofisticado que comi foi sardinha Coqueiro&#8221; (Ibdem). &#8220;Escrevente: Aquele que sabe escrever, mas não é escritor&#8221; (Roland Barthes). &#8220;Quando se ama, combate-se, porque se combate a apatia do outro para fazê-lo tornar-se aquilo que ele é, isto é, mais singular,  porque o que procuramos nele é sua singularidade, e o outro tem sempre a tendência de renunciar à sua singularidade&#8221; (Bernard Stiegler, salvo engano). &#8220;Em arte, de nada serve o método, mais vale a loucura&#8221; (Alfred Döblin, romancista autor de Berlin Alexanderplatz, em 1929).</p>
<p>&#8220;Existem coisas que não existem, mas que &#8220;consistem&#8221;, e são as coisa mais importantes&#8221; (Bernard Stiegler). &#8220;Acredito que as coisas que não existem, consistem&#8221; (Ele, de novo). &#8220;&#8230;é melhor perder o paraíso por uma falsa maçã vermelha do que pelo fruto do saber seco, verdadeiro&#8221; (Cabrera Infante, Três Tristes Tigres).</p>
<p>Quase não vou aos gerúndios/nem aos particípios. Bom é olhar teu rosto fosforescente/ Nuvens são apenas adensamentos de lágrimas que evaporam/Sim. às vezes me canso de ti, me lembro de ti/ Por tua causa desfaço as manhãs, as malas/Na esperança de outro amanhã/ Vou caminhando, cheio de gerúndios.</p>
<p>E finalmente, concordo inteiramente como Charles:</p>
<p>&#8220;O estado do belo é um duelo em que o artista grita de medo antes de ser vencido&#8221;.</p>
<p>Hasta la vista. Deixa pra lá.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Sonho adiado</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Feb 2010 15:20:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[
Meu sonho de criar uma biblioteca comunitária no Poço da Panela foi por mangue abaixo mais uma vez. A casa foi encontrada, visitamos, é uma belezinha, pequena mas confortável, dentro da comunidade, onde os livros mais precisam estar, pero&#8230;.
Depois de dúzias de telefonemas, idas e vindas, conversa pessoal com o proprietário, a coisa não tem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-1293" title="bilbioteca comunitária projeto maritaca" src="http://www.estuario.com.br/wp-content/uploads/2010/02/bilbioteca-comunitária-projeto-maritaca.bmp" alt="Crianças lendo no Projeto Maritaca, na cidade de Aracati, Ceará." /></p>
<p>Meu sonho de criar uma biblioteca comunitária no Poço da Panela foi por mangue abaixo mais uma vez. A casa foi encontrada, visitamos, é uma belezinha, pequena mas confortável, dentro da comunidade, onde os livros mais precisam estar, pero&#8230;.</p>
<p>Depois de dúzias de telefonemas, idas e vindas, conversa pessoal com o proprietário, a coisa não tem definição. É péssimo esse negócio do &#8220;vamos ver&#8221;, &#8220;quem sabe&#8221;, &#8220;está quase definido&#8221;. São meses nessa expectativa. O dono da casa é agradabilíssimo, a casa está vazia, mas não sei o que há. Será que o fato de alugar uma casa, botar estantes, transformá-la em uma biblioteca comunitária, pode desvalorizar o imóvel?</p>
<p>Não posso negar um sentimento de frustração, especialmente porque vários leitores já mandaram email, oferecendo bons livros. Seu Vital já recebeu algumas caixas, foi guardando no seu bar/mercearia, mas já está ficando impaciente comigo. Todo mundo sabe como não é bom deixar Seu Vital impaciente.</p>
<p>Nessas horas, eu queria ter um dinheiro sobrando, uns trinta mil reais, para comprar uma casinha no Poço e abrir a sonhada biblioteca. Mas eu nunca tive essas boquinhas com dinheiro, é melhor primeiro eu pagar minhas contas em dia, antes de ficar feito um Dirceu Borboleta dos livros.</p>
<p>Daniel Buarque, um ex-aluno, que morava em São Paulo e foi passar seis meses em Nova York, me mandou uma caixa, tenho que ir buscar esta semana. Papoula se mudou recentemente, me ligou, informado de vários bons livros para a Biblioteca Comunitária do Poço da Panela, mas não tenho mais onde botar livros, se não tenho como facilitar o acesso, democratizar a leitura. Tive que declinar da oferta. Damaris, a generosa diretora da Escola Municipal Nilo Pereira, tem vários kits de brinquedos infantis, já ofereceu ajuda. Tudo esperando uma casa.</p>
<p>Vou continuar alimentando este sonho, que venho acalentando há um bom tempo, com o gordinho Naná e com o velho amigo Boy. Tem horas que o cara engasga, dá uma agonia. A biblioteca mais próxima do Poço é a do Sesc Casa Amarela, longe pacas.</p>
<p>Tem uma geração de meninos que conheci, no Poço, com cinco, seis anos. Estão todos adolescentes hoje, e o livro ainda não entrou na vida. O Recife pode ter o melhor Carnaval do mundo, mas é uma cidade mesquinha com livros. Há pouquíssimas bibliotecas públicas.</p>
<p>Mas não chore ainda não, que tenho um violão e nós vamos cantar, como diz o poeta. Um dia vamos inaugurar esta pequena biblioteca e o sonho será realizado. Já posso ver o sorriso do gorducho Naná. Melhor: o sorriso de Déa e Marquinhos, que me procuraram, se oferecendo como voluntários da biblioteca.</p>
<p><strong>Ps</strong>. dia 8 de fevereiro foi inaugurada a Biblioteca de São Paulo, na área da antiga Casa de Detenção, o Carandiru. Custou R$ 12,5 milhões. O acervo tem 30 mil livros, CDs, DVDs, mesas reguláveis, que se adaptam a qualquer tamanho de cadeira de rodas, folheadores automáticos de páginas (para quem perdeu os movimentos das mãos) e computadores adaptados. Nos 4.200m2 destinados somente aos mais jovens, no térreo, funcionam alas para faixas etárias (zero a três anos, quatro a 11 anos, e 12 a 17 anos). Nessas áreas, com estantes baixas, há livros, discos e fillmes, que ficam diretamente expostos aos jovens. Só me resta mesmo dar os parabéns. Sonhos maiores estão sendo realizados.</p>
<p><strong>ps2</strong>. A foto que descolei na Internet é de crianças lendo no Projeto Maritaca, em Aracati, no Ceará.</p>
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		<title>Maria Vaidade</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Feb 2010 16:09:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Foi na sexta-feira de Carnaval. Tive a brilhante idéia de pegar o IPVA da minha mãe, que continua no meu nome por questões monetárias. Tudo pago, inclusive as muitas multas de Dona Ermira, fui ao Detran do Shopping Plaza, só para receber o papel verdinho que libera a gente de muitos problemas. Onze e meia da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Foi na sexta-feira de Carnaval. Tive a brilhante idéia de pegar o IPVA da minha mãe, que continua no meu nome por questões monetárias. Tudo pago, inclusive as muitas multas de Dona Ermira, fui ao Detran do Shopping Plaza, só para receber o papel verdinho que libera a gente de muitos problemas. Onze e meia da manhã, pouca gente, era só pegar o documento, botar nos Correios e pegar a fantasia.</p>
<p>De cara, estranhei a presença nervosa de uma jovem mulher. Estava de pé, parecia bem de vida, a julgar pela roupa colada ao corpo, cabelos bem cortados, brincos, colares, todas as condições favoráveis. O sujeito com um certo traquejo na vida sabe de longe quando uma mulher passa bem, faz academia, tem bons cremes, não tem problemas com o abastecimento da geladeira e não sabe o que é um CDU/Boa Viagem/Caxangá.</p>
<p>Mas a mulher reclamava. Estava impaciente, indócil, intranquila, intolerável. Olhava para o relógio a cada dois minutos. Ofegava. Precisava resolver aquilo logo, queria falar com o supervisor. Eu pensei logo algo como um carro preso por alguma falta de pagamento, e a pessoa tendo viagem marcada com toda a família para uma bela praia, mas fiquei por ali mesmo, na minha, porque nessa de querer ajudar, vivo me metendo em encrenca. Peguei minha senha e aguardei. Eu e mais quatro marmanjos esperávamos a liberação do supervisor, para pegarmos nosso IPVA.</p>
<p>Até que a mulher encontrou o supervisor, um rapaz alto e bem educado. Começou uma conversa longa. Que era consumidora, que tinha direitos, que isso, que aquilo. Bem Educado ponderava, dizia umas coisas num tom mais ameno, observava que não dependia dele, mas a mulher não arredava o pé. Era um Siri na Lata.</p>
<p>Os cinco buscapés (eu e outros quatro) ficamos esperando o desenlace. Especulamos sobre o problema. Que o Detran na certa tinha perdido os documentos dela. Que algum despachante fuleirou. Que ela pagou as multas e não deram baixa.</p>
<p>Por último, Grandão Educado resumiu tudo.</p>
<p>&#8220;A senhora pode falar com fulana ou sicrana, lá na sede do Detran&#8221;.</p>
<p>&#8220;Aquele fim de mundo? Mas hoje é sexta-feira, amanhã é Carnaval&#8221;, respondeu a mulher.</p>
<p>Um funcionário gente boa que esperava a liberação do IPVA para nos entregar, completou:</p>
<p>&#8220;Pois eu estou doido é para encerrar meu expediente e cair na folia&#8221;.</p>
<p>Até que resolvemos intervir. Já eram 12h10, a ladaínha não terminava, e a loja do Detran inteira aguardava o desenlace do drama da loira. Falamos com Grandão Educado, cada um explicou seu problema, precisávamos somente receber um documento que dependia da liberação dele. Tinha motorista de carreta, de Kômbi, de lotação, e tinha eu também, que não vivo só de fulozô.</p>
<p>Grandão pediu licença, entrou numa sala. Iria liberar nosso IPVA. Ficamos do lado de fora, esperando. O vigilante disse um &#8220;é foda, velho&#8221; e explicou o que estava acontecendo. Foi mais um desabafo.</p>
<p>&#8220;Vocês sabem por que está acontecendo esta confusão todinha?&#8221;</p>
<p>Nenhum de nós sabia.</p>
<p>&#8220;A loira ali tirou uma foto para renovar a carteira. A moça que tirou a foto mostrou a imagem dela no computador, a loira aprovou, e a moça mandou imprimir o documento&#8221;.</p>
<p>Ele ajeitou a calça, o boné da empresa de segurança e prosseguiu.</p>
<p>&#8220;Pois desde que a loira recebeu a carteira, está essa confusão. Ela cismou que as pontas dos cabelos estão mais loiras na foto do que realmente são. As pontas dos cabelos, velho, já pensasse? Não aceita o documento de jeito nenhum. Já tem uns 40 minutos que ela vai pra lá, vem pra cá, essa confusão toda é por causa disso, porque ela tem certeza que as pontas dos cabelos dela estão mais loiros na foto do que no original. O pior é que o documento está pronto, ela já podia era estar em casa, almoçando com a família. Eu mesmo não vejo a hora de almoçar&#8221;.</p>
<p>A turma do IPVA ficou de boca aberta, sem acreditar. Só não chamaram a loira de santa.</p>
<p>Quando estava pegando meu IPVA, escutei ela, a loira, pegando o nome da atendente. Anotou o nome completo, em um pedaço de papel. Certamente iria reclamar com o Detran.</p>
<p>Quando eu saía do shopping, olhei para o céu. Meio nublado e calorento, esse Recife, foi o que pensei. Por mim, eu devia ter ido logo era para o Mercado da Boa Vista. Uma boa galinha a cabidela e uma cerveja, para ficar pensando melhor.</p>
<p>Só me ocorreu um nome para a criatura: Maria Vaidade.</p>
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		<title>Conto de Carnaval</title>
		<link>http://www.estuario.com.br/2010/02/10/conto-de-carnaval-2/</link>
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		<pubDate>Wed, 10 Feb 2010 14:28:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[25 de fevereiro de 2009, às 19:40h por  Samarone Lima

O bom do cara escrever com frequência é que tem texto de reserva, quando está sem tempo e inspiração. Vai uma postagem do Carnaval de 2009. Deixa o frevo rolar, eu só quero saber, se você vai brincar, ai meu bem sem você não há [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>25 de fevereiro de 2009, às 19:40h por <img src="../wp-content/themes/bridge/images/author.gif" alt="" /> Samarone Lima</p>
<div>
<p style="text-align: left;">O bom do cara escrever com frequência é que tem texto de reserva, quando está sem tempo e inspiração. Vai uma postagem do Carnaval de 2009. Deixa o frevo rolar, eu só quero saber, se você vai brincar, ai meu bem sem você não há Carnaval…</p>
<p style="text-align: left;"><img class="aligncenter size-full wp-image-1281" title="tubas" src="http://www.estuario.com.br/wp-content/uploads/2010/02/tubas.jpg" alt="tubas" width="350" height="262" /></p>
<p style="text-align: left;">Para desanuviar, um pequeno conto de Carnaval, inspirado em fatos irreais.</p>
<p>Era terça-feira de Carnaval. Os dois tinham noivado uma semana antes, marcaram o casamento, começaram as compras. Tudo para a nova casa, a nova vida. Meu Deus, mas para que isso de noivado? Uma fase de teste?</p>
<p>Já tinham bebido muito. Pequenas desavenças, exageros na bebida. Ela, irritada com algo, disse duas ou três vezes:</p>
<p>“Não vou mais casar”.</p>
<p>Ele se irritou com aquilo. Precisava dizer na frente dos amigos, quando a orquestra começava a rugir?</p>
<p>Sei que o whisky começou a pegar. Uma olhada mínima para os lados, ela reclamava. Um comportamento estranho dele, e ela questionava o casamento. Ele também não estava fácil. Qualquer movimento, dizia coisas contra. Os dois estavam se estranhando por nada. Coisas do Carnaval.</p>
<p>Ao anoitecer, ela se irritou com sua derradeira gracinha. Num rompante, tirou a aliança e a jogou longe. Passava uma orquestra de frevo, dessas que passam à deriva, no Recife Antigo. A aliança caiu dentro de uma tuba.  Jogou sem pensar, como quem bate uma porta no meio da discussão. No mesmo instante, já bebia do arrependimento.</p>
<p>Ele não viu a cena. Pegava mais gelo para o whisky. Melhor assim.</p>
<p>Na manhã seguinte, de ressaca, ele viu sua mão vazia. A falta completa, na quarta-feira de cinzas. Ressaca dupla. Não comentou. Esperaria que ela acordasse.</p>
<p>Ela acordou, sentiu o dedo pesado. Lembrou da cena, da tuba. Meu Deus, que loucura eu fiz.</p>
<p>Aproveitou um descuido dele, saiu de casa logo cedo.</p>
<p>Passou a quarta-feira de cinzas vasculhando tubas de orquestras, como uma cinderela do dedo.</p>
<p><strong><em>Para Pedoca e Emília, que inspiraram este conto, hoje casados e com a filhota Ana a caminho.</em></strong></div>
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