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	<title>Estuário</title>
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	<description>Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias &#124; Por Samarone Lima</description>
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		<title>Férias</title>
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		<pubDate>Tue, 14 May 2013 14:52:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Acabo de decretar 21 dias de férias, Até breve, Samarone]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Acabo de decretar 21 dias de férias,</p>
<p>Até breve,</p>
<p>Samarone</p>
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		<title>Morrer de graça</title>
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		<pubDate>Tue, 07 May 2013 11:40:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Conheci Peixe há alguns anos, quando morava no Poço da Panela e embarquei na aventura do gordinho Naná, que tinha (e tem) uma Kombi e resolveu levar a meninada para a escola, gratuitamente. Peixe, já virando adolescente, achava aquilo muito infantil. Seguia de bicicleta, tinha um corte radical no cabelo e um olhar que acenava [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Conheci Peixe há alguns anos, quando morava no Poço da Panela e embarquei na aventura do gordinho Naná, que tinha (e tem) uma Kombi e resolveu levar a meninada para a escola, gratuitamente. Peixe, já virando adolescente, achava aquilo muito infantil. Seguia de bicicleta, tinha um corte radical no cabelo e um olhar que acenava para o perigo.</p>
<p>Um dia, a bicicleta quebrou e ele foi com a gente. Naná, sabiamente, colocou ele no banco da frente, para ir conversando e, principalmente, para demonstrar afeto. Melhor, dar afeto.</p>
<p>Peixe foi algumas vezes até o Nilo Pereira, escola municipal comandado pela valente Damaris, na estrada do Encanamento. Nunca dizia obrigado. Descia e sumia dentro da escola. Certa vez ele desceu, olhou para mim e Naná e disse uma palavra que parecia arrancada a fórceps do seu peito:</p>
<p>&#8220;Obrigado&#8221;.</p>
<p>Ali começou a mudar o jeito. Pouco tempo depois, fez amizade com Gustavo, que é um mecânico de primeira no Poço e passou a aprender os primeiros caminhos da profissão. Dava gosto quando passava e Peixe estava deitado, debaixo de um carro, consertando algo complicado. Bastava perguntar, e ele explicava a peça, o que estava fazendo.</p>
<p>Da geração dele, que foi com a gente de Kombi, Peixe foi um dos poucos que abraçou uma profissão. Virou mecânico, com carteira assinada, salário em dia, fora os extras, em uma oficina na Avenida Norte.</p>
<p>Há dois anos, inauguramos a Biblioteca Comunitária do Poço da Panela. Um dos irmãos de Peixe, Rafael, passava longe, talvez achando esse negócio de livro, leitura, coisa de criança. Um dia, chegou um professor de violão e Rafael entrou na biblioteca. Nunca mais saiu. Todo sábado está lá, aprendendo novas músicas com o voluntário Gustavo.</p>
<p>De vez em quando encontrava Peixe. Sempre com um sorriso bom, tinha moto, virou papai, estava com 21 anos, a vida inteira pela frente.</p>
<p>No domingo, comemorava a vitória do Santa Cruz com amigos, no Poço, quando recebeu o telefonema de uma mulher, sua namorada. Teria levado dois tapas de um sujeito, ex-namorado, ex-presidiário. Peixe resolveu ir lá. Essas coisas de honra que eu não entendo bem. Os amigos tentaram fazê-lo desistir. Peixe ligou a moto, que não pegou. Ficaria por ali. Tomaria mais umas cervas com os amigos, iria dormir e no outro dia a coisa se resolveria até com uma conversa. Ele pegou outra moto emprestada e foi lá, resolver algo insolúvel. Não teve tempo de nada. Um tiro na cabeça e o fim da vida que mal começava.</p>
<p>Ontem foi o enterro. Não pude ir. Todos aqueles meninos que levamos dezenas, centenas de vezes para a escola, estavam lá, com rostos amarrotados, chorando a morte do amigo, do irmão. Cada morte dessa mata um pouco a comunidade inteira.</p>
<p>À noite, fui ao Poço. Conversei com Gustavo, seu professor de mecânica. Estava arrasado. O que sinto é um vazio aqui dentro, me disse, triste como um irmão que cultivou ao longo de vários anos.</p>
<p>Lá pelas tantas, chegou o ônibus que levou a comunidade para o enterro. Os olhares para o chão, os pés arrastados. Nessa hora, não há muito o que dizer. Veio Rafa, irmão de Peixe, demos um abraço. Agora, vamos ter que cuidar deste menino, foi o que pensei. &#8220;Colar&#8221;, como diz sempre Naná. Que a música o conforte.</p>
<p>&#8220;Morreu de graça&#8221;, foi o que mais escutei.</p>
<p>Em todo este processo, nenhum dos envolvidos buscou agentes da lei para solucionar o que poderia ser apenas uma confusão de domingo, pós-bebedeira, pós-jogo, pós-tudo. Nem a mulher agredida registrou a agressão, nem o que foi buscar justiça por conta própria passou numa delegacia. A solução veio de um revólver fácil. Apertar o gatilho é um dos gestos mais fáceis criados pela humanidade &#8211; e um dos mais dolorosos.</p>
<p>Para quem ama a vida, essa estupidez gratuita é nossa chaga diária.</p>
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		<title>Agendas, cadernos e outras previsões inúteis</title>
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		<pubDate>Thu, 02 May 2013 20:12:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Tenho uma fixação infantil e antiga por agendas, cadernetas, cadernos, bloquinhos, tudo o que sirva para anotações, rabiscos, idéias inúteis, errâncias etc. No caso da agenda, sou mais infantil ainda. De manhã, após o café, costumo registrar tudo o que pretendo fazer ao longo do dia. É um negócio quase militar, a quantidade de coisas [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho uma fixação infantil e antiga por agendas, cadernetas, cadernos, bloquinhos, tudo o que sirva para anotações, rabiscos, idéias inúteis, errâncias etc.</p>
<p>No caso da agenda, sou mais infantil ainda. De manhã, após o café, costumo registrar tudo o que pretendo fazer ao longo do dia. É um negócio quase militar, a quantidade de coisas que estabeleço. Se cumprisse tudo, acho que estragaria minha vida ou seria um chato de galocha. Um monge estressado.</p>
<p>Fui olhar a agenda de hoje num bloquinho novo. Como eu estava sem muito tempo para a agenda, anotei os seguintes ítens-desafios:</p>
<p>Cobrir rombo na conta;</p>
<p>Atualizar rombo financeiro da biblioteca (referente à Biblioteca Comunitária do Poço da Panela, que está no vermelho há três meses);</p>
<p>Papo com Deyvson e Ninha (da biblioteca) sobre a formação em mediação de leitura amanhã;</p>
<p>Remarcar aniversário da biblioteca (seria amanhã, ficou para a semana seguinte, dia 11);</p>
<p>Criar conta no facebook;</p>
<p>Abrir conta no twitter;</p>
<p>Comprar chimarrão e chás;</p>
<p>Email pessoal da Paraíba e Lula (não o presidente, mas um amigo novo, que conheci no retiro em Barthô);</p>
<p>Poemas novos para Arsênio (ele é meu consultor de luxo para poesia velha, seminova ou nova);</p>
<p>Comprar cadeira nova (os gatos detonaram a atual);</p>
<p>Escrever capítulo do livro do Guararapes após a reunião com Zarattini na Comissão da Verdade. Prisão no Doi-Codi. Roupas dos Presos. Fome X revolução (essa é uma longa história de outro livro);</p>
<p>Ouvir depoimentos;</p>
<p>Sauna no Português. Se der, nadar depois;</p>
<p>Cinema.</p>
<p>***</p>
<p>Às 16h olhei de novo a agenda. Não tinha feito absolutamente nada do que elencara de manhã. Digno de nota, apenas:</p>
<p>Comprei flores para casa (um belo buquê por R$ 10,00);</p>
<p>Lavei as louças todas, finalmente;</p>
<p>Dei comida da boa para os gatos;</p>
<p>Li mais um capítulo de Ana Karenina;</p>
<p>Li mais algumas páginas do fabuloso &#8220;Dossiê Drummond&#8221;, do Geneton Moraes Neton;</p>
<p>Vi os gols da rodada de ontem (Copa do Brasil) e os melhore lances do jogão Santa X  Ínter;</p>
<p>Fui à sauna, mas não nadei;</p>
<p>Deu preguiça de ir ao cinema (a Rosa e Silva também estava congestionada pacas).</p>
<p>Como hoje (03) é meu aniversário, não anotei nada na agendinha. Só tomar umas com os amigos mais tarde, que ninguém é de ferro&#8230;</p>
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		<title>De Ouricuri a Bodocó, a poesia é uma só</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Apr 2013 19:57:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[O Sesc me convidou para a Jornada Literária Chapada do Araripe, um projeto maravilhoso envolvendo dezenas de escritores, circulando entre os municípios de Bodocó, Granito, Exu, Timorante (distrido de Exu), Ouricuri, Araripina, Nascente (distrito de Araripina) e Trindade. Desses, só não conhecia Timorante. Minha mesa era dia 19 de abril, com o tema precioso &#8211; [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O Sesc me convidou para a Jornada Literária Chapada do Araripe, um projeto maravilhoso envolvendo dezenas de escritores, circulando entre os municípios de Bodocó, Granito, Exu, Timorante (distrido de Exu), Ouricuri, Araripina, Nascente (distrito de Araripina) e Trindade. Desses, só não conhecia Timorante.</p>
<p>Minha mesa era dia 19 de abril, com o tema precioso &#8211; &#8220;De Exu a Bodocó a poesia é uma só&#8221;. Coisas que saem da cabeça de Cida Pedrosa e Sennor Ramos, curadores mais que especiais das coisas boas do Sesc Pernambuco, com o aval do José Manoel Sobrinho.</p>
<p>Pela segunda vez, eu falaria sobre meu livro de poesias, lançado em outubro do ano passado. Primeira é modo de vez, porque já acontecera. Foi ano passado, um fiasco completo, o Festival Internacional de Poesia, sob a batuta do super-super Wellingtom Melo. Nervoso, resolvi tomar umas para falar com mais calma e falei foi muito chapado e trôpego, isso sim.</p>
<p>Fui para o TIP, peguei o metrô e o Princesa do Agreste para Ouricuri. Esqueci que minha hospedagem era em Bodocó, mas tudo bem. Na mochila, uma tapauer com arroz e peixe. Isso se chama herança cultural (ou tradição, segundo os mais entendidos). Minha avó, em toda viagem, levava uma latinha com galinha assada e farofa. Era a tapauer dos anos 1970, a latinha de leite ninho. O ônibus fazia a linha Recife-Teresina, tinha que ficar esperto para não passar de cidade.</p>
<p>Cheguei em Ouricuri já na madrugada e chovia muito. Só deu tempo pegar um táxi, bater dois hotéis à procura de vaga e ficar no Hotel Plaza. Cochilei e fiquei ligado para pegar o café da manhã, que vai sempre até 10h.</p>
<p>Banhado, com a camisa azul nova do Santa Cru, perguntei a uma moça com cara de escritora se ela era do Sesc.</p>
<p>&#8220;Você é o Saramago?&#8221;, respondeu ela, com esta pergunta interessantíssima.</p>
<p>Bem, até que não seria nada desconfortável ser um Nobel, mas a modéstia falou mais alto.</p>
<p>&#8220;Não, sou o Samarone&#8221;.</p>
<p>&#8220;Ah, sim&#8230;&#8221;</p>
<p>Ela me deu o telefone da Carminha, do Sesc, me orientei todo e à tardinha fui de carona com o esperto Manassés, motorista do Sesc, para Bodocó. O Hotel Bodocó estava uma alegria só, com todo o pessoal hospedado lá. Fiquei no quarto com o Ivan Marinho, gente de primeira linha, acompanhando sempre seus bacamarteiros.</p>
<p>Tomei banho, jantei e fui para a igreja matriz de São José, onde teria a conversa. Sentei no banquinho da praça e logo apareceu uma mocinha de uns 12 para 13 anos. Não lembro o nome dela. Olhou, olhou, perscrutou, colheu impressões aleatórias, sentiu os ventos colaterais e finalmente perguntou:</p>
<p>&#8220;O senhor é daqui?&#8221;</p>
<p>&#8220;Não, sou do Crato&#8221;.</p>
<p>&#8220;É o senhor que vai rezar a missa hoje?&#8221;</p>
<p>&#8220;Vou sim. Estou aqui estou me preparando. Você vai?&#8221;</p>
<p>&#8220;Vou sim. Vou levar minha prima&#8221;, disse, apontando para a prima, da mesma idade que ela, só que mais calada.</p>
<p>A mesa foi mediada pelo José Manoel e a igreja tinha muita gente interessada em poesia.</p>
<p>No público, como bons fiéis rezadeiros, Lenice Gomes, Lourival Holanda, Xico Sá, Jorge Filó, Susana Moraes, Chico Pedrosa, Pedro Américo. Uma bancada para dar confiança. &#8220;De Crato a Bodocó é poesia só &#8211; uma conversa com Cida Pedrosa (Bodocó), José Maria Marques (Bodocó) e Samarone Lima (Crato)&#8221;, informava o programa do Sesc. O primeiro tema da mesa, proposto pelo Manoel, foi sobre a presença da infância em cada um dos autores.</p>
<p>No meu caso, tudo. Vários dos meus poemas falam da infância, do meu pai, mãe, meus tios, viagens ao Crato nas férias. Fiquei tão à vontade que comecei a fazer, com uma certa naturalidade, algo que era um verdadeiro aperreio espiritual &#8211; ler em público meus poemas.</p>
<p>A conversa foi boa, ritmada, com espaço para todos falarem, para leitura de poesias, declamações de Cida, perguntas do público.</p>
<p>Após a conversa, uma moça bem simples, tímida, pegou meu livro e perguntou se eu estava doando. Eu disse que não, mas ela disse que adorava poesia &#8211; ela e suas irmãs -, então peguei um e fiz uma dedicatória. Alguma coisa sempre fica desses encontros.</p>
<p>Saímos dali para uma &#8220;tertúlia&#8221; no Sesc, à beira da piscina. Em outro lugar, chamariam logo &#8220;rave&#8221;. Aproveitei para botar os assuntos em dia com o pilantra do Sá. Tinha lá também umas biritinhas, que não somos de ferro. O único perigo que achei foi nossa mesa ao lado da piscina. Foi uma noite bem divertida, com os drinks custando R$ 1,00 e o whisky pelo dobro do preço: R$ 2,00.</p>
<p>Voltamos no dia seguinte, eu e o velho Xico Sá, tomando umas latinhas e proseando. O motorista, Manassés, comandou tudo, ao som de Odair José. Assim também é demais.</p>
<p>Vi o meu caderninho há pouco, com várias anotações.</p>
<p>&#8220;Eu só rio em Bodocó, eu quero sofrer!&#8221; (Xico Sá).</p>
<p>Xico também contou a história triste e comovente do período em que era pegador de Pintassilgo. Pegou e vendeu mais de mil. Pegou não, caçou com vida, porque ninguém &#8220;pega&#8221; passarinho assim. Tem que ter estratégia, armadilha, alpiste. Na verdade, descobri um traficante precoce de Pintassilgo.</p>
<p>Certo dia, uma mulher chegou e caiu na sua velha e temperada lábia.</p>
<p>&#8220;Ela veio para mim como um Pintassilgo&#8221;, contou, cheio de lirismo e infância.</p>
<p>Ele desceu em Salgueiro, onde iria encontrar com o amigo Otto, que faria um show à noite, depois iria para uma farra com vários amigos. Pensei até em descer, mas meu fígado me deu um cutucão e reclamou &#8211; &#8220;Tás doido? Essa eu não aguento!&#8221;.</p>
<p>Então segui com o Manassés, embalado pelo Odair José. Cheguei em casa são e salvo.</p>
<p>Não sei se a moça da praça e sua prima assistiram a &#8220;missa&#8221; sobre poesia, com a participação deste falso padre cratense&#8230;</p>
<p><strong>Ps. a Jornada segue até sábado: Hoje (24) OUricuri; 25 e 26 &#8211; Araripina; 26 &#8211; Nascente (Distrito de Araripina); 27 &#8211; Trindade. </strong></p>
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		<title>Desculpas de cronista para a má fase</title>
		<link>http://www.estuario.com.br/2013/04/17/desculpas-de-cronista-para-a-ma-fase/</link>
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		<pubDate>Wed, 17 Apr 2013 20:19:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Amigos leitores, simpatizantes, visitantes ocasionais deste Estuário, venho através desta pedir desculpas pelos atrasos de postagens, demora nas publicações, fora os textos inexplicáveis, anunciando Volume I sem a segunda parte (ou terceira, se for o caso), além de uma falta generosa de criatividade, uma coisa preocupante também para o próprio autor. A má fase tem várias [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Amigos leitores, simpatizantes, visitantes ocasionais deste Estuário, venho através desta pedir desculpas pelos atrasos de postagens, demora nas publicações, fora os textos inexplicáveis, anunciando Volume I sem a segunda parte (ou terceira, se for o caso), além de uma falta generosa de criatividade, uma coisa preocupante também para o próprio autor.</p>
<p>A má fase tem várias explicações, detalhes técnicos, imprevistos, coisas da vida contemporânea, que espero não atrapalhar nossa relação. Quero avisar que estou voltando ao batente, já com uma viagem engatilhada para Bodocó, amanhã à noite, para a Jornada Literária do Sesc. Viagem sempre rende textos interessantes e pode ser que o velho cronista retome seu tino, acerte a mão, traga alguma alegria ou regozijo, ao clicar este velho endereço.</p>
<p>Alguns fatos estranhos também prejudicaram o rendimento. A Justiça, mais uma vez, deu uma busca nas minhas contas e fisgou uma grana boa (R$ 2.665,oo para ser exato), num processo kafkiano que venho enfrentando, desde 2000. Perdi uma carteira de identidade num Carnaval, em 1998, não dei queixa, nada, me botaram como laranja de uma empresa, que depois deu calote no mercado. Outro dia consegui resgatar uma parte que estava bloqueada, pensei que estava tudo resolvido e agora voltou tudo de novo. Por causa disso, nem uma bicicleta posso ter em meu nome.</p>
<p>Neste período, também caí na malha fina do Imposto de Renda, apesar de ter feito tudo conforme o figurino, inclusive foi o senhor Inácio França, dono do Caotico.com.br o responsável pelo envio dos dados.</p>
<p>A culpa não foi dele, apenas esqueci de declarar dois rendimentos bestas, dois trabalhos para revistas, a Receita Federal é fogo. Fiz mil malabarismos para fazer a retificação, consegui até criar o código, mas não cheguei ao ponto máximo do desenvolvimento intelectual, que é ficar na boa com a Receita Federal, de forma que acionei Reginaldo, filho de seu Vital, craque nisso. Ele prometeu me salvar.</p>
<p>Neste período, as doações para a Biblioteca Comunitária do Poço da Panela caíram 100% e entrei no vermelho. Um advogado anônimo que depositava o dinheiro inteirinho do aluguel (R$ 440,00) deve ter viajado em março, de férias, então ficamos na lona. Ou seja, estou com uma conta bloqueada e a outra no vermelho, mas a biblioteca continua viva e pulsando.</p>
<p>Neste período aconteceu um fato inédito. Nosso gato Armorial, um moleque invocado de sete meses, resolveu atacar a nossa faxineira (tá bem, diarista), obrigando-a a se trancar apavorada num dos quartos do apartamento. Numa operação dramática, consegui falar com o porteiro do prédio, Alexandre, que subiu ao vigésimo andar, botou o armorial num quartinho, mas depois foi atacado também, salvando-se por pouco. É bem provável que a diarista não retorne jamais, e com a nova lei, vai ser difícil conseguir outra. Não sabemos ainda o que motivou o repentino ataque, já que o Armorial é extremamente carinhoso, beirando à carência, diferentemente de Azeitona, a gata preta que tem uma vida mais independente e prefere pouco carinho.</p>
<p>Neste período de má fase como cronista, comecei a ler Anna Karenina, na tradução do Rubem Figueiredo. Fiquei tão envolvido com a história toda, cada vez mais pasmo com esse Liev Tolstói, que acabei não dando atenção suficiente ao meu trabalho de cronista. Além disso, o novo livro do Paulo Leminsky, suas obras completas e outros tantos que leio aos montes, nas circunstâncias as mais diversas.</p>
<p>Tinha muitos temas na cabeça, como a nova febre das ciclofaixas no Recife, a obsessão dos recifenses em geral por reuniões, por qualquer motivo, o perfil psicológico de um amigo que parou de beber e virou atleta, a peça &#8220;A alma imoral&#8221;, que assisti no sábado passado (que peça impressionante!), minha fulgurante participação na Corrida das Pontes, há umas três semanas, mas fui acumulando informações, impressões, até que o computador, semana passada simplesmente não quis papo e zerou tudo.</p>
<p>Perdi tudo, foi o que pensei, para arrematar a fase, mas o  Alfredo, da IntelliNote (Computer Doctor, diz o cartão), informou há pouco que foi uma coisa simples, apenas &#8220;corrompeu o sistema&#8221;, o que me pareceu uma cois gravíssima, mas disso eu não entendo nada. Ele, mais uma vez, fez o serviço sem informar o preço, mas tudo bem, custou R$ 80 mangos. Nunca pensei que corromper coisas, no computador, fosse tão simples. Os arquivos estão todos lá e não posso reclamar do preço, apesar de não estar propriamente nadando em dinheiro.</p>
<p>De forma que estou na pista, de volta, na peleja. De Bodocó, mandarei as novas. A má fase deve estar chegando ao final , vamos à luta.</p>
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		<title>Sobre corridas e outras descobertas (Parte I)</title>
		<link>http://www.estuario.com.br/2013/04/09/sobre-corridas-e-outras-descobertas-parte-i/</link>
		<comments>http://www.estuario.com.br/2013/04/09/sobre-corridas-e-outras-descobertas-parte-i/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 09 Apr 2013 13:08:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando eu era adolescente, queria ser corredor. Neto, meu velho amigo do Monte Castelo, em Fortaleza, sabe bem disso. Corremos muitas manhãs pelas ruas do bairro, depois cortando para a Leste-Oeste. Ganhamos até um treinador, um coroa que tinha um pique inacreditável, especialmente nos últimos quilômetros. Achava que ser maratonista seria uma coisa formidável, mas [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Quando eu era adolescente, queria ser corredor. Neto, meu velho amigo do Monte Castelo, em Fortaleza, sabe bem disso. Corremos muitas manhãs pelas ruas do bairro, depois cortando para a Leste-Oeste. Ganhamos até um treinador, um coroa que tinha um pique inacreditável, especialmente nos últimos quilômetros.</p>
<p>Achava que ser maratonista seria uma coisa formidável, mas descobri que correr é uma coisa que também cansa muito, especialmente se for tratada como uma coisa destinada a vitórias, pódium, reconhecimento. Acho que por isso não fui adiante. Além disso, minha adolescência e começo de juventude foram um tumulto só. Minha e da humanidade quase toda, creio.</p>
<p>Os anos passaram. Aliás, muitos anos passaram. Vinha mantendo meu impulso de correr apenas nas peladas semanais, mas jogar pelada é uma coisa, correr por alguns quilômetros é outra completamente diferente. Você não tem que marcar ninguém enquanto corre, nem bater lateral, nem reclamar do juiz. Você só precisa correr.</p>
<p>Então veio a Corrida das Pontes do ano passado. Me animei. Como moro na rua da Aurora, nada melhor que retomar a carreira no palco da corrida. Hora de voltar a correr, cuidar do corpoe, velho Sama.</p>
<p>Entrei numa academia, era simpática, pequena, pouco movimentada, fiz uma avaliação física nada animadora, mas confesso que não tenho paciência com aquela música stunt stunt stunt. A vantagem era que o velho amigo Inácio tinha decidido cuidar da saúde e a frequentava também. A gente puxava um pesinho e conversava, dava uma corridinha na esteira e completava o papo. Mas era longe de casa.</p>
<p>Achei outra aqui na Cruz Cabugá, a &#8220;Academia Havana&#8221;. Fui lá. Tem várias fotos enormes de atletas cubanos. Como escrevi um livro sobre Cuba, achei que tinha tudo a ver. Era mais barata, dava para ir andando, muitíssimo organizada, mas a qualidade acabava trazendo problemas. Está sempre cheia e o stunt stunt é mais alto. Além disso, tinha mais aquele lance das pessoas que fazem um exercício e ficam se olhando duas horas no espelho, para ver se a bunda de hoje está mais dura que a de ontem, se o bíceps está parecendo um tijolo ou não.</p>
<p>Comecei a encher o saco. A gota d&#8217; água foi numa manhã, quando um casal de namorados começou sua série de exercícios. Cada exercício, os dois se encontravam, como dois pombinhos, e comemoravam com um beijinho. Ela era toda gostosona, dessas mulheres gostosonas mas que não têm nenhuma graça, nenhum charme, nenhum estilo, nem mesmo um namorado decente. Se beijavam, se olhavam no espelho, o sujeito encolhia a barriga e daqui a pouco, mais beijinhos. Só faltava esfregar a ponta do narizinho um no outro, que é o símbolo do naufrágio de qualquer relacionamento.</p>
<p>A desvantagem de ter deixado a acadamia é que a esteira era bem legal, dá para modular a velocidade, reduzir na hora do cansaço, essas coisas bestas que a gente inventa quando tem uma certa preguiça.</p>
<p>Comprei um tênis e fui correr na rua.</p>
<p>Logo descobri a maravilha de voltar a correr nas ruas. Ah, logo cedinho botar um tênis, calção, uma camisa, fazer um aquecimento e sair pela cidade que se ama. Rua da Aurora, Ponte do Limoeiro, Marco Zero, Ponte Maurício de Nassau, Princesa Isabel, encerrar dando um tapinha nas costas da estátua do Manuel Bandeira, defronte à Assembléia Legislativa&#8230;</p>
<p>Quando abriram as inscrições para a Corrida das Pontes me animei todo. Seria dia 25 de março, saindo do Marco Zero, passando inclusive na frente do prédio onde moro, o Capibaribe.</p>
<p>Inscrito direitinho, já dando umas corridinhas até mais caprichadas, veio o desastre. Na pelada da quarta-feira, dia 22, levei um tostão na coxa (quando o atleta adversário acerta, voluntária ou involuntáriamente, seu amável joelho na sua vulnerável coxa), e cheguei em casa com um hematoma rôxo.</p>
<p>Resultado: quinta, sexta e sábado parado, com gelo em cima e pomada para desinflamar. Mesmo assim, no sábado fui lá ao Carrefour buscar meu kit.</p>
<p>Então tive um susto. A quantidade de gente pegando kit era impressionante, todos animadíssimos, empolgados com a corrida. No kit vinha uma camisa com um tecido bem leve, uma garrafinha de água, um chip para amarrar no tênis e saber seu tempo e algum outro agrado que não lembro.</p>
<p>No domingo da corrida levantei da tumba. Pisei no chão com força, não doeu e decidi - não vou faltar à minha primeira corrida oficial, aos 43 anos.</p>
<p>Às 7h estava lá. O amigo Inácio França também.</p>
<p>Era uma multidão, feliz da vida, debaixo de um sol recifense de domingo que é uma coisa estonteante. No meio da multidão, comecei a encontrar vários amigos que também corriam, e que eu nem sabia. Em mesa de bar a turma fala mais de futebol, política, piadas novas e velhas, ninguém pergunta se a pessoa vai correr amanhã.</p>
<p>Ainda apreensivo com minha contusão, senti aquele friozinho na barriga quando tocou a sirene, anunciando a largada. Vamos lá, velho Sama, vamos dar o melhor de si, como dizem os jogadores de futebol, após as partidas.</p>
<p>Saímos.</p>
<p>A multidão alegre logo se transforma em um bloco imenso, feito de um barulho que se misturam duas coisas &#8211; os milhares de tênis no solo e a respiração de uma massa humana de idades as mais diversas.</p>
<p><strong>(continuo daqui a pouco, depois do dentista &#8211; e desculpem os erros eventuais, não deu para revisar&#8230;)</strong></p>
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		<title>Amores, cadeados</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Mar 2013 14:35:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Todo dia, quando vou ao trabalho, passo por alguns dos lugares mais bonitos e simbólicos do Recife, todos aqui na rua da Aurora. O Monumento Tortura Nunca Mais (e as lápides ao redor quase todas já sem nomes), mais adiante o manguezal, depois é possível ver o Capibaribe, cada dia mais morto, mas sempre um rio. [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Todo dia, quando vou ao trabalho, passo por alguns dos lugares mais bonitos e simbólicos do Recife, todos aqui na rua da Aurora. O Monumento Tortura Nunca Mais (e as lápides ao redor quase todas já sem nomes), mais adiante o manguezal, depois é possível ver o Capibaribe, cada dia mais morto, mas sempre um rio. Do outro lado o Palácio do Campo das Princesas, o Bairro do Recife. Caminhando em direção à ponte Princesa Isabel, é possível encontrar a estátua do poeta Manuel Bandeira, sentado, de óculos, pensativo, olhando não para o rio, o que é uma pena, mas para o lado da rua. Deve pensar &#8211; para onde vão tantos carros, meu Deus? E essa pressa, Recife, para quê? Deve estar olhando para o Espaço Pasárgada, onde viveu na infância, que fica ali bem perto, na rua da União.</p>
<p>A rua da União é uma das menos unidas do Recife, por conta dos carros que estacionam em fila dupla. De vez em quando, entra um carro mais largo, um caminhão para entregar alguma coisa, ele engancha, fica lá parado, é uma confusão dos diabos, reclamações, buzinas, tudo fica muito nervoso, até que alguém consegue localizar alguma chave de alguém, que sai de onde não deveria estar e tudo recomeça.</p>
<p>Outro dia, na rua da Aurora, surgiu um negócio engraçado. Alguém teve a idéia (a minha tem acento) de colocar uma grade, para as pessoas apaixonadas colocarem cadeados, selando o amor, tornando-o definitivo, e jogando em seguida as chaves no rio, que já não aguenta mais lixo.</p>
<p>Desde o começo, achei a idéia boba, apesar de ter seu romantismo de ilusão. Juntar grade, cadeado e jogar as chaves fora, dentro de um rio, para mim, é tudo o que não combina com amor.</p>
<p>A &#8220;Grade do Amor&#8221; foi matéria nos jornais, os casais apaixonados tiraram fotos, achei graça, mas uns quinze dias depois, alguém a roubou. Então os casais ficaram sem saber onde estava o cadeado do seu amor, as chaves estavam adormecidas no fundo do rio, o lugar não tinha mais nada que lembrasse o dia da celebração e dei minha risadinha maldosa, pensando &#8220;bem feito&#8221;. Apesar de torcer sempre pelo amor, certas idéias água com açucar me enchem a paciência. Além disso, tenho meu lado ruinzinho também.</p>
<p>O responsável pela Grade é incansável. Providenciou outra, no mesmo lugar. Novos cadeados foram grudados. Novos casais prometeram o amor que vai vencer o ferro, a ferrugem, a correnteza arbitrária e enlameada do rio Capibarine. Quando passo, acho graça, olho para o velho Manuel Bandeira e fico curioso para saber o que ele pensa dessas coisas.</p>
<p>Esta semana aconteceu algo maravilhoso. Estava a caminho do Espaço Pasárgada (onde trabalho) e vi a mocinha com as chaves na ponta dos dedos, à beira do rio. Era bem novinha, magra, com uma calça amarela vistosa. Estava sorrindo, balançando as chaves. O namorado, também um adolescente, creio, preparava a foto. Sim, o momento solene em que nos amarraremos em uma grade, nossos nomes ficarão ao sabor do vento boreal que sopra nos contornos da rua da Aurora.</p>
<p>Reduzi o passo para ver a cena. A mocinha então fez um balancinho e as chaves &#8220;glub&#8221; caíram no rio. Depois se beijaram e algum deles pode ter dito com absoluta certeza - te amarei para sempre.</p>
<p>Pensei em tirar uma foto da foto do casal, mas falta-me treino e artimanha para essas cortesias com o leitor. Depois terei que baixar no computador, ajeitar para postar, pedirei ajuda a algum amigo, de formas que é melhor nem perder tempo. Peço apenas que imagine a cena, caro leitor.</p>
<p>Depois olhei a grade, que já tem um bocado de cadeados. Vi de perto. Uns têm os nomes, iniciais. Um deles é enorme, é uma coisa bem agressiva, é cadeado de segurar até trator. Se o casal brigar, alguém terá que usar um maçarico para retirá-lo.</p>
<p>O velho Manuel Bandeira está de costas, não vê toda esta alegoria do amor, das chaves e cadeados. Lembrei de um de seus versos:</p>
<p>&#8220;Amor &#8211; chama, e, depois, fumaça&#8230;</p>
<p>Medita no que vais fazer:</p>
<p>O fumo vem, a chama passa&#8230;&#8221;</p>
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		<title>Livros, leitores e outras lorotas</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Mar 2013 12:27:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[formação de leitores]]></category>
		<category><![CDATA[leitura]]></category>
		<category><![CDATA[livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Sou bom em poucas coisa, mas em uma eu tenho um certo tino &#8211; despertar nos outros a paixão pelos livros. Os outros, que falo, é gente que ainda não tinha entrado no mundo dos livros. Neste aspecto, sou igual aos evangélicos. Toda é hora de buscar uma ovelha que nunca leu. Já fui professor [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Sou bom em poucas coisa, mas em uma eu tenho um certo tino &#8211; despertar nos outros a paixão pelos livros. Os outros, que falo, é gente que ainda não tinha entrado no mundo dos livros. Neste aspecto, sou igual aos evangélicos. Toda é hora de buscar uma ovelha que nunca leu.</p>
<p>Já fui professor nessa área, agora estou fora de sala de aula, mas a técnica é simples e esquecida por muita gente que trabalha no tema &#8211; saber o perfil dos alunos e atiçar o fogo por onde ele gosta. Ou seja &#8211; antes de passar uma lista, fazer uma lista das coisas que fazem parte do mundo dele.</p>
<p>Um exemplo. Numa turma de jovens de 16 a 19 anos, vários detestavam a palavra livro. O objeto, muito pior.</p>
<p>&#8220;Não, professor, me dá dor de cabeça, fico com sono&#8221;.</p>
<p>&#8220;Fico achando que estou perdendo tempo, eu com um livro em casa e meus amigos na esquina, conversando, olhando as minas&#8230;&#8221;</p>
<p>Issso sem falar que as bibliotecas públicas do Recife são poucas, nada confortáveis ou atraentes.</p>
<p>Fiz vários testes que deram certo. Um desses alunos me disse que detestava livro e perguntei do que ele gostava.</p>
<p>&#8220;Como assim, professor?&#8221;</p>
<p>&#8220;Que tipo de filme te agrada, que tema prende a tua atenção?&#8221;</p>
<p>&#8220;Ah, professor, adoro filme de guerra, especialmente da II Guerra Mundial&#8221;.</p>
<p>Peguei o anzol, coloquei a isca e voltei na semana seguinte com um calhamaço. Era um livro sobre o campo de concentração de Bunchewald, com fotos e tudo o mais. Tinha umas 300 páginas.</p>
<p>&#8220;Toma aí. Vê se tu vai ter sono com esses relatos&#8221;.</p>
<p>O camarada ficou doidinho. Na semana seguinte, disse que não largava o livro. Leu de cabo a rabo. Dei o livro, que era meu, de presente a ele. Depois da fisgada, é fundamental ele ficar com o objeto, livro. Dali pode nascer uma pequena biblioteca.</p>
<p>Acho que, psicanaliticamente, é uma redenção. Fui um larápio de livros durante muitos anos, agora estou devolvendo. Muitos anos é uma forma bem moderada para não revelar verdadeiras bibliotecas que confisquei, em nome da revolução.</p>
<p>Depois entreguei o &#8220;Diário de Anne Franck&#8221;, que ele devorou. Por fim, pegou &#8220;Olga&#8221;, do Fernando Morais, e virou leitor. Tempos depois, descobriu que o avô tinha uma biblioteca que estava ficando abandonada e foi atrás, para ver se a salvava.</p>
<p>Se eu tivesse começado com um Machado de Assis, José de Alencar, a possibilidade de vitória seria mínima. Esse negócio de livro obrigatório para o Vestibular, acho uma coisa absurda, mas tem muita gente que ganha dinheiro com isso.</p>
<p>Certa feita, um aluno veio com a mesma conversa.</p>
<p>&#8220;Não gosto, professor. Não tenho paciência mesmo, desculpe aí. Tem um texto pequeno, uma xerox não?&#8221;</p>
<p>Sondei seus gostos. O sujeito, de 18 anos, era louco por futebol.</p>
<p>Providenciei um livro não muito grande, com crônicas fantásticas do Nelson Rodrigues. Ele devorou.</p>
<p>&#8220;Já ouvisse falar do Garrincha?&#8221;, perguntei na semana seguinte.</p>
<p>&#8220;Ôx, professor, quem não ouviu falar. O cara jogava demais&#8221;.</p>
<p>Arranjei na semana seguinte o livro do Ruy Castro sobre o Garrincha, que não lembro agora o nome. Está aqui, na minha frente, e não lembro. Também não estou com paciência com o google. O Inácio vai me ajudar.</p>
<p>&#8220;Toma aí. É presente. Se não gostar, devolva&#8221;.</p>
<p>Aliás, é minha regra básica para formar leitores. Não gostou, devolve e pega outro livro. Pode fazer isso dezenas de vezes, até pegar um que goste.</p>
<p>Ele virou leitor.</p>
<p>Este meu vício funciona em todo canto. Cá no prédio já tenho meus leitores. O porteiro, o senhor Jota, por exemplo, me via sempre passando com livro, sondou o que tinha de bom. Perguntei o que ele gostava. Tricolor, conversa boa, sorrido a cada trinta segundos, descobri que gostava desses livros voltados para o conhecimento de coisas superiores, dei um livro de Osho para ele.</p>
<p>Toda vez que ele estava de plantão, me comentava, quando eu passava:</p>
<p>&#8220;O homem é quente&#8221;.</p>
<p>No plantão seguinte:</p>
<p>&#8220;O homem é uma fera&#8221;.</p>
<p>Terminou o primeiro livro e avisou:</p>
<p>&#8220;Quero outro. Do mesmo autor&#8221;.</p>
<p>Peguei outro. Tenho uma penca de livros do Osho.</p>
<p>Ele já leu sete e já está falando umas coisas bem diferentes.</p>
<p>Outro dia cheguei ao prédio, ele me olhou com os olhos bem arregalados:</p>
<p>&#8220;Samarone, o erro do homem é procurar a felicidade. Se ele procurar, ela se esconde. Se ele não procurar, ela aparece&#8221;.</p>
<p>Outro leitor que surgiu meio por acaso foi o senhor Gê. Trabalha no mercadinho aqui ao lado. Dei um exemplar do &#8220;Viagem ao Crepúsculo&#8221; (olha o merchandising, Samarone!), ele gostou muito. Cada vez que eu chegava para comprar pão, ele dizia onde estava, outro dia perguntou se eu pagaria o queijo coalho em &#8220;peso cubano&#8221; ou &#8220;peso convertible&#8221;.</p>
<p>Depois de terminada a leitura, ele pediu outro. Perguntei o que ele gostava, vi que um bom livro de aventuras cairia bem. Dei uma pequena bomba: &#8220;Memórias de um sobrevivente&#8221;, do Luiz Alberto Mendes.</p>
<p>É a história de um ex-presidiário que viveu as coisas mais barra-pesadas do mundo do crime, das prisões. O ex-presidiário é o próprio autor.</p>
<p>O senhor Gê ficou eufórico. Cada vez que chegava ao mercado, ele contava um detalhe:</p>
<p>&#8220;Rapaz, o cara só se mete em encrenca&#8230;&#8221;</p>
<p>Outro dia, estava chateado:</p>
<p>&#8220;Quando o ônibus vem cheio, é muito ruim. Não dá para ler. Também fica chato ler em pé. Mas que dá vontade, dá&#8221;.</p>
<p>O sujeito que tem vontade de ler em pé, num ônibus a caminho do trabalho, nesse calor matinal do Recife, não vai abandonar os livros jamais.</p>
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		<title>Evangelizações e outras lucubrações</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Mar 2013 22:39:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[evangelização]]></category>
		<category><![CDATA[religião]]></category>

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		<description><![CDATA[Eles vão dominar tudo. Cá no prédio, um dos funcionários da velha guarda, caneiro de primeira, me avisou há coisa de 15 dias. &#8220;Estou com a palavar do senhor&#8221;. Estranhei. Rubronegro encardido, chegado a um pagode e uma caninha, já contando as horas para largar e se encostar numa mesa de boteco, nos bares aqui perto, os [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Eles vão dominar tudo.</p>
<p>Cá no prédio, um dos funcionários da velha guarda, caneiro de primeira, me avisou há coisa de 15 dias.</p>
<p>&#8220;Estou com a palavar do senhor&#8221;.</p>
<p>Estranhei. Rubronegro encardido, chegado a um pagode e uma caninha, já contando as horas para largar e se encostar numa mesa de boteco, nos bares aqui perto, os arredores do Parque 13 de Maio, dando uma de migué para cima de mim?</p>
<p>&#8220;Mas Cantinflas, tu também?&#8221;</p>
<p>Mudei o nome para não chamar a atenção de eventuais moradores do prédio que ocasionamente lêem o Estuário.</p>
<p>&#8220;É verdade. Fui abençoado. Não sabes o que vale a palavra do senhor&#8221;.</p>
<p>Me olhou seriamente, botou a mão em cima da Bíblie a avisou:</p>
<p>&#8220;Inclusive ele tem um plano para ti&#8221;.</p>
<p>&#8220;Para mim?&#8221;</p>
<p>Pegou a Bíblia e puxou um salmo ou provérbio, sempre confundo. Algo sobre a regeneração e a capacidade de aceitar de peito aberto a palavra de Deus.</p>
<p>&#8220;É. Para ti&#8221;.</p>
<p>&#8220;Para mim?&#8221;</p>
<p>&#8220;É. Logo serás tocado pela Palavra&#8221;.</p>
<p>Nas semanas seguintes, Cantinflas estava mais animado. A qualquer movimento meu, passando pelo corredor, tinha um trecho da Bíblia na algibeira, decorado e elaborado.</p>
<p>Duas semanas depois, Seu Anoitecer, outro funcionário, chegou:</p>
<p>&#8220;O plano dele já está pronto. Te prepara, visse?&#8221;</p>
<p>Fiquei de sobreaviso. Anoitecer dobrava de rir. Quando eu descia, Cantinflas e me alcançava de longe:</p>
<p>&#8220;Prepara-te. O Plano está pronto para ti. A água suja que bebes será outra&#8221;.</p>
<p>&#8220;Água suja?</p>
<p>&#8220;Sim. Ele agora chama tudo que tiver bebiuda alcoólica de água suja&#8221;.</p>
<p>&#8220;Mas ele não bebia tanto?&#8221;</p>
<p>Ontem, eu vinha pelo Parque 13 de Maio, já pensando em tomar sentar no Bar do Paulo, que tem várias mesas na calçada do Parque 13 de Maio e o garçom é um tricolor gente boa. Vejo Cantinflas. Ele vem com seu passo ternário, com uma pasta debaixo do braço e já pensando no próximo ato (ou salmo).</p>
<p>Me esticou a mão e profetizou:</p>
<p>&#8220;Da água que bebes, jamais deixarás de ter sede. Da que bebo, jamais terei sede&#8221;.</p>
<p>Ele queria me catequizar já na mesa que alcancei, às duras penas.</p>
<p>Conversamos um pouco, ele disse que não escaparei do Plano de Deus e seguiu sua jornada.</p>
<p>Sentei. O garçom trouxe uma cerveja bem gelada e fiquei olhando o movimento do anoitecer no Recife, sexta-feira à noitinha. Pouco depois, passou um amigo que eu não via há algum tempo. Fora demitido do trabalho, após 11 anos. Não me parecia infeliz. Essa experiência eu nunca tive na vida, de ficar tanto tempo no mesmo trabalho. Acho que meu recorde é três anos e meio. Mas sempre fiquei muito feliz em todas as vezes em que fui demitido.</p>
<p>Depois veio um camarada com um remendo na perna, pedindo ajuda. Disse que era lixeiro e caiu do caminhão outro dia. Não sou muito de dar essas ajudas, mas ele contou a história com tanta paixão, quase pude vê-lo escorregando do veículo, o saco preto nas mãos. Dei uma força. Se era mentira, ele é um mentiroso apaixonado, tem talento.</p>
<p>A cerveja estava tremendamente gelada, diga-se de passagem. Depois tomei um &#8220;Ele-Ela&#8221; e tudo ficou tremendamente sossegado.</p>
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		<item>
		<title>Algumas anotações sobre os doze anos sem carteira assinada</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Feb 2013 14:21:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Algumas experiências na vida eu não tive e acho que agora é tarde para ter. Exemplo. Aos 43 anos, nunca vivi a cena de ir a uma concessionária para olhar, esquadrinhar, cheirar, testar, analisar, observar e comprar um carro do ano. Em diferentes fases da minha vida, carro pertencia aos outros, que me davam caronas ocasionais. [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Algumas experiências na vida eu não tive e acho que agora é tarde para ter. Exemplo. Aos 43 anos, nunca vivi a cena de ir a uma concessionária para olhar, esquadrinhar, cheirar, testar, analisar, observar e comprar um carro do ano. Em diferentes fases da minha vida, carro pertencia aos outros, que me davam caronas ocasionais. Comprei, certa feita, um Fusca azul, 1968, numa negociação que envolveu o amigo Naná.</p>
<p>Batou o dono do carro se declarar torcedor apaixonado do Santa Cruz, que Naná passou a resgatar a história do Santa, os títulos, o camarada que venderia o Fusca passou a dizer o lugar em que ficava no Arruda, os lances dramáticos e com a emoção coral em campo, o preço foi baixando vertiginosamente, até que fechamos, depositei o dinheiro e voltei para o Poço da Panela, onde morava, com um Fusca azul lindo. Bati, uns três anos depois, e como estava sem dinheiro para consertar, acabei me desfazendo do bichinho.</p>
<p>Acho que é uma coisa minha mesmo. Não tenho paixão nenhuma por carro. Zero. Acho apenas uns mais confortáveis que outros, outros mais bonitinhos, mas nada que justifique uma preocupação com o assunto. Em caso de dinheiro extra, o tema &#8220;comprar um carro&#8221; sequer é citado nas minhas pesquisas internas. Uma boa viagem para um lugar bem bonito me dá mais alegria. Livro também. Várias outras coisas, bem mais em conta, me dão mais alegria.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sei de onde surgiu este tema, nesta quinta-feira de muito calor no Recife. É que minha indiferença com o assunto se mistura a uma certa perplexidade. Nunca vi tanta gente agressiva nas ruas, especialmente dentro dos carros. Pessoas que devem gostar de música, poesia, de uma boa roda de samba, que devem contar histórias para o filho dormir, mas que viram uns cavalos batizados, quando estão ao volante. Conheço vários. O pior é que não há remédio &#8211; a situação só vai piorar.</p>
<p style="text-align: justify;">Parei de atravessar na faixa de pedestre aqui na rua Princesa Isabel, quando o sinal fica verde para nós, que estamos numa calçada, tentando chegar do outro lado da rua. Sempre tem gente &#8220;aproveitando o embalo&#8221;, para passar no vermelho. Todo dia acontece.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu até soltava um bom palavrão, com o motorista ou motoqueiro que queimava o sinal vermelho, mas vi que não adianta nada. Geralmente, os vidros estão fechados, a pessoa não escuta nada. O motoqueiro, de capacete, também não está nem aí.</p>
<p>Também nunca me interessei por previdência privada. Na verdade, deveria pensar &#8211; e rápido. Olhei outro dia minha carteira de trabalho. O último carimbo é do final de 2001, quando saí da Universidade Católica. Já são 12 anos sem contribuir para a Previdência Social, ajudando a aumentar o rombo das contas do governo. Neste período, não sei quantos milhares reais já paguei de imposto.</p>
<p>Nesses 12 anos fui vivendo das várias estradas, atalhos e ramificações que um jornalista e escritor pode trilhar. Frilas (para revistas, já que os jornais daqui não sacaram ainda a beleza que é ter matérias especiais, feitas por gente de fora da redação). Frila, para alguns que não sabem, é o resumo de &#8220;free-lancer&#8221;. Eu nunca soube o que é mesmo &#8220;free-lancer&#8221;, como ainda não sei, aos 43 anos, o que é o minimalismo, apesar das inúmeras explicações do amigo Caio. Além disso, fiz muitos trabalhos como &#8220;sistematizador&#8221;.</p>
<p>O &#8220;sistematizador&#8221; é um sujeito com habilidade para digitar rápido e precisa de um pouco de inteligência recente, coisa que tenho. Ele é convidado para sistematizar um seminário, um encontro, um debate, fica com seu notebook registrando o que as pessoas dizem. Em alguns casos, só os momentos mais importantes. Cansa pacas, porque as pessoas gostam de falar muito, especialmente se for encontro envolvendo ONGs. Mas, no geral, o brasileiro quando está reunido, fala pelos cotovelos. Até as pessoas que vão fazer perguntas, em seminários, encontros, fazem verdadeiros tratados filosóficos, antes da pergunta.</p>
<p>No final, você revisa, manda para os organizadores, que pagam o acertado, mandam imprimir, encadernar, e depois ninguém, mas absolutamente ninguém se dá ao trabalho de ler.</p>
<p>Neste 12 anos fui também professor de literatura para jovens da periferia. Foi uma das coisas mais bonitas que fiz na vida. Durou um ano e oito meses. Um dia ainda vou escrever sobre isso. Pra variar, foi a época profissional em que ganhei o pior salário de todos os tempos. Mas valeu pelo processo.</p>
<p>Também fui coordenador de literatura da Fundarpe por alguns meses, mas dei com os burros n&#8217; água. Nunca trabalhei tanto, participei de tanta reunião, nunca tive tantas idéias (que as pessoas achavam bem legais), mas e nunca contribuí tão pouco pela literatura de Pernambuco.  Não deixei nada de bom, só a boa intenção mesmo, que não conta muito.</p>
<p>Nestes 12 anos sem décimo terceiro, fundo de garantia, essas coisas todas, fui tocando também meus projetos. Fui vendo também que não estar amarrado em um canto dá mais tampo para escrever. Depois que saí da Católica, peguei a indenização e fui reescrever alguns capítulos do &#8220;Clamor&#8221;, que foi publicado em 2003. Não conseguiria isso com os 280 alunos que tinha, no último semestre que lecionei. Esqueci de dizer que, neste período, fui dono de bar duas vezes, coisa que não recomendo nem para o maior inimigo.</p>
<p>Em 2005, consegui publicar o &#8220;Estuário &#8211; crônicas do Recife&#8221;, com a ajuda do pessoal do Ateliê. Ficou uma edição bonita pacas.</p>
<p>Foi graças a essa liberdade nos trabalhos que consegui viajar a Cuba, entre o final de 2008 e início de 2009 &#8211; o que resultou no meu queridíssimo &#8220;Viagem ao Crepúsculo&#8221;, que segue seu bom caminho entre os leitores. Ainda tive tempo de participar da organização, com o velho amigo Gustavo de Castro e com o jornalista Carlos Magno de Araújo, do livro &#8220;A cabeça do futebol&#8221;. Tem textos de Inácio França, Raimundo Carrero, Abel Menezes, Josmar Josinho, além de Juca Kfouri, Enrique Vila-Matas, José Roberto Torero, entre outras feras.</p>
<p>Fui consultor do Unicef algumas vezes. Geralmente para sistematizar alguma experiência bacana, que depois se tornou livro. Foram três. A vantagem é que o Unicef paga um salário decente e não tem descontos. Se acertarem cinco mil por mês, o governo brasileiro fica chupando o dedo. Cai o dinheiro inteirinho na conta. Teve uma época que meu amigo Inácio França era consultor também, a gente se divertia muito e aproveitava para fazer as reuniões de pauta do Blog do Santinha.</p>
<p>Também ganhei lá uma graninha sendo mediador de festas literárias, especialmente a Fliporto. O mediador é aquele sujeito chamado para apresentar rapidamente os convidados, fazer com que a conversa ande, aparecer o mínimo possível, receber as perguntas, fazer uma triagem e encerrar sem muita solenidade. Em suma, é deixar que a estrela dos convidados brilhe. Tem mediado que não entende bem sua função e quer roubar a cena. É uma coisa melancólica.</p>
<p>Por umas presepadas do destino, acabei assumindo a assessoria de Imprensa de Ariano Suassua, em sua caminhada cósmica pelo estado de Pernambuco, dando aulas-espetáculo. Nunca imaginei que isso aconteceria, e foi justamente por isso que aconteceu. Me faltava a pretensão para o cargo. Simplesmente a conjunção dos astros favoreceu, e já estou nessa pisadinha há três anos e meio. Desde julho de 2009, já passamos por tudo o que é de cidade de Pernambuco, da capital ao sertão mais distante.  É uma experiência humana, estética, ética que levarei para a vida inteira. O que já vi, convivi, escutei e aprendi não tem preço. Devo ter assistido umas 90 aulas-espetáculo, por baixo. Também tenho a missão de acompanhar Ariano nas entrevistas, é outra hora de aprender muitas outras coisas sobre muitos outros assuntos.</p>
<p>Isso compensa o meu trauma. Quando estudava Educação Artística, na UFPE, teria aula de Estética com Ariano. Pois no semestre que iria estudar com ele, Ariano se aposentou.</p>
<p>Quando terminar meu trabalho na secretaria, com Ariano, não sei o que vou fazer da vida. Por mim, ficaria vivendo só de brisa, lendo, escrevendo, vadiando, vagabundeando entre um cinema e outro, sofrendo com meu Santa Cruz querido, dando minha contribuição para a biblioteca do Poço. Além disso, minas corridinhas matinais, por entre as pontes do Recife e a pelada da quarta-feira, com a turma do Bola de Primeira.</p>
<p>A meu favor conta esse crescente mercado das feiras literárias, bienais etc. De vez em quando me chamam, entra uma graninha legal, para um trabalho que não pode ter melhor no planeta. Viajar, ficar hospedado e depois ir para uma mesa, conversar sobre o que o sujeito mais gosta de fazer na vida. Depois, pegar o famoso &#8220;pro-labore&#8221;. Hoje mesmo chegou um convite, para falar sobre poesia, em Bodocó. Já confirmei.</p>
<p>Comecei a falar sobre carro, acabei enveredando por outros caminhos. É o exemplo de Ariano que nunca consigo pegar. Ele começa a falar sobre um assunto, faz uma volta, passa pelas terras mais remotas, e quando a gente pensa que ele perdeu o rumo, volta exatamente ao ponto. Eu, quando pego um atalho, não encontro nuca mais o lugar onde estava.</p>
<p>É por isso que anoto tanto as coisas em meus caderninhos. Deveria batizá-los de &#8220;Anotações de um desaprumado&#8221;.</p>
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