Algumas experiências na vida eu não tive e acho que agora é tarde para ter. Exemplo. Aos 43 anos, nunca vivi a cena de ir a uma concessionária para olhar, esquadrinhar, cheirar, testar, analisar, observar e comprar um carro do ano. Em diferentes fases da minha vida, carro pertencia aos outros, que me davam caronas ocasionais. Comprei, certa feita, um Fusca azul, 1968, numa negociação que envolveu o amigo Naná.
Batou o dono do carro se declarar torcedor apaixonado do Santa Cruz, que Naná passou a resgatar a história do Santa, os títulos, o camarada que venderia o Fusca passou a dizer o lugar em que ficava no Arruda, os lances dramáticos e com a emoção coral em campo, o preço foi baixando vertiginosamente, até que fechamos, depositei o dinheiro e voltei para o Poço da Panela, onde morava, com um Fusca azul lindo. Bati, uns três anos depois, e como estava sem dinheiro para consertar, acabei me desfazendo do bichinho.
Acho que é uma coisa minha mesmo. Não tenho paixão nenhuma por carro. Zero. Acho apenas uns mais confortáveis que outros, outros mais bonitinhos, mas nada que justifique uma preocupação com o assunto. Em caso de dinheiro extra, o tema “comprar um carro” sequer é citado nas minhas pesquisas internas. Uma boa viagem para um lugar bem bonito me dá mais alegria. Livro também. Várias outras coisas, bem mais em conta, me dão mais alegria.
Não sei de onde surgiu este tema, nesta quinta-feira de muito calor no Recife. É que minha indiferença com o assunto se mistura a uma certa perplexidade. Nunca vi tanta gente agressiva nas ruas, especialmente dentro dos carros. Pessoas que devem gostar de música, poesia, de uma boa roda de samba, que devem contar histórias para o filho dormir, mas que viram uns cavalos batizados, quando estão ao volante. Conheço vários. O pior é que não há remédio – a situação só vai piorar.
Parei de atravessar na faixa de pedestre aqui na rua Princesa Isabel, quando o sinal fica verde para nós, que estamos numa calçada, tentando chegar do outro lado da rua. Sempre tem gente “aproveitando o embalo”, para passar no vermelho. Todo dia acontece.
Eu até soltava um bom palavrão, com o motorista ou motoqueiro que queimava o sinal vermelho, mas vi que não adianta nada. Geralmente, os vidros estão fechados, a pessoa não escuta nada. O motoqueiro, de capacete, também não está nem aí.
Também nunca me interessei por previdência privada. Na verdade, deveria pensar – e rápido. Olhei outro dia minha carteira de trabalho. O último carimbo é do final de 2001, quando saí da Universidade Católica. Já são 12 anos sem contribuir para a Previdência Social, ajudando a aumentar o rombo das contas do governo. Neste período, não sei quantos milhares reais já paguei de imposto.
Nesses 12 anos fui vivendo das várias estradas, atalhos e ramificações que um jornalista e escritor pode trilhar. Frilas (para revistas, já que os jornais daqui não sacaram ainda a beleza que é ter matérias especiais, feitas por gente de fora da redação). Frila, para alguns que não sabem, é o resumo de “free-lancer”. Eu nunca soube o que é mesmo “free-lancer”, como ainda não sei, aos 43 anos, o que é o minimalismo, apesar das inúmeras explicações do amigo Caio. Além disso, fiz muitos trabalhos como “sistematizador”.
O “sistematizador” é um sujeito com habilidade para digitar rápido e precisa de um pouco de inteligência recente, coisa que tenho. Ele é convidado para sistematizar um seminário, um encontro, um debate, fica com seu notebook registrando o que as pessoas dizem. Em alguns casos, só os momentos mais importantes. Cansa pacas, porque as pessoas gostam de falar muito, especialmente se for encontro envolvendo ONGs. Mas, no geral, o brasileiro quando está reunido, fala pelos cotovelos. Até as pessoas que vão fazer perguntas, em seminários, encontros, fazem verdadeiros tratados filosóficos, antes da pergunta.
No final, você revisa, manda para os organizadores, que pagam o acertado, mandam imprimir, encadernar, e depois ninguém, mas absolutamente ninguém se dá ao trabalho de ler.
Neste 12 anos fui também professor de literatura para jovens da periferia. Foi uma das coisas mais bonitas que fiz na vida. Durou um ano e oito meses. Um dia ainda vou escrever sobre isso. Pra variar, foi a época profissional em que ganhei o pior salário de todos os tempos. Mas valeu pelo processo.
Também fui coordenador de literatura da Fundarpe por alguns meses, mas dei com os burros n’ água. Nunca trabalhei tanto, participei de tanta reunião, nunca tive tantas idéias (que as pessoas achavam bem legais), mas e nunca contribuí tão pouco pela literatura de Pernambuco. Não deixei nada de bom, só a boa intenção mesmo, que não conta muito.
Nestes 12 anos sem décimo terceiro, fundo de garantia, essas coisas todas, fui tocando também meus projetos. Fui vendo também que não estar amarrado em um canto dá mais tampo para escrever. Depois que saí da Católica, peguei a indenização e fui reescrever alguns capítulos do “Clamor”, que foi publicado em 2003. Não conseguiria isso com os 280 alunos que tinha, no último semestre que lecionei. Esqueci de dizer que, neste período, fui dono de bar duas vezes, coisa que não recomendo nem para o maior inimigo.
Em 2005, consegui publicar o “Estuário – crônicas do Recife”, com a ajuda do pessoal do Ateliê. Ficou uma edição bonita pacas.
Foi graças a essa liberdade nos trabalhos que consegui viajar a Cuba, entre o final de 2008 e início de 2009 – o que resultou no meu queridíssimo “Viagem ao Crepúsculo”, que segue seu bom caminho entre os leitores. Ainda tive tempo de participar da organização, com o velho amigo Gustavo de Castro e com o jornalista Carlos Magno de Araújo, do livro “A cabeça do futebol”. Tem textos de Inácio França, Raimundo Carrero, Abel Menezes, Josmar Josinho, além de Juca Kfouri, Enrique Vila-Matas, José Roberto Torero, entre outras feras.
Fui consultor do Unicef algumas vezes. Geralmente para sistematizar alguma experiência bacana, que depois se tornou livro. Foram três. A vantagem é que o Unicef paga um salário decente e não tem descontos. Se acertarem cinco mil por mês, o governo brasileiro fica chupando o dedo. Cai o dinheiro inteirinho na conta. Teve uma época que meu amigo Inácio França era consultor também, a gente se divertia muito e aproveitava para fazer as reuniões de pauta do Blog do Santinha.
Também ganhei lá uma graninha sendo mediador de festas literárias, especialmente a Fliporto. O mediador é aquele sujeito chamado para apresentar rapidamente os convidados, fazer com que a conversa ande, aparecer o mínimo possível, receber as perguntas, fazer uma triagem e encerrar sem muita solenidade. Em suma, é deixar que a estrela dos convidados brilhe. Tem mediado que não entende bem sua função e quer roubar a cena. É uma coisa melancólica.
Por umas presepadas do destino, acabei assumindo a assessoria de Imprensa de Ariano Suassua, em sua caminhada cósmica pelo estado de Pernambuco, dando aulas-espetáculo. Nunca imaginei que isso aconteceria, e foi justamente por isso que aconteceu. Me faltava a pretensão para o cargo. Simplesmente a conjunção dos astros favoreceu, e já estou nessa pisadinha há três anos e meio. Desde julho de 2009, já passamos por tudo o que é de cidade de Pernambuco, da capital ao sertão mais distante. É uma experiência humana, estética, ética que levarei para a vida inteira. O que já vi, convivi, escutei e aprendi não tem preço. Devo ter assistido umas 90 aulas-espetáculo, por baixo. Também tenho a missão de acompanhar Ariano nas entrevistas, é outra hora de aprender muitas outras coisas sobre muitos outros assuntos.
Isso compensa o meu trauma. Quando estudava Educação Artística, na UFPE, teria aula de Estética com Ariano. Pois no semestre que iria estudar com ele, Ariano se aposentou.
Quando terminar meu trabalho na secretaria, com Ariano, não sei o que vou fazer da vida. Por mim, ficaria vivendo só de brisa, lendo, escrevendo, vadiando, vagabundeando entre um cinema e outro, sofrendo com meu Santa Cruz querido, dando minha contribuição para a biblioteca do Poço. Além disso, minas corridinhas matinais, por entre as pontes do Recife e a pelada da quarta-feira, com a turma do Bola de Primeira.
A meu favor conta esse crescente mercado das feiras literárias, bienais etc. De vez em quando me chamam, entra uma graninha legal, para um trabalho que não pode ter melhor no planeta. Viajar, ficar hospedado e depois ir para uma mesa, conversar sobre o que o sujeito mais gosta de fazer na vida. Depois, pegar o famoso “pro-labore”. Hoje mesmo chegou um convite, para falar sobre poesia, em Bodocó. Já confirmei.
Comecei a falar sobre carro, acabei enveredando por outros caminhos. É o exemplo de Ariano que nunca consigo pegar. Ele começa a falar sobre um assunto, faz uma volta, passa pelas terras mais remotas, e quando a gente pensa que ele perdeu o rumo, volta exatamente ao ponto. Eu, quando pego um atalho, não encontro nuca mais o lugar onde estava.
É por isso que anoto tanto as coisas em meus caderninhos. Deveria batizá-los de “Anotações de um desaprumado”.