Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Morrer de graça

7 de maio de 2013, às 8:40h por Samarone Lima

Conheci Peixe há alguns anos, quando morava no Poço da Panela e embarquei na aventura do gordinho Naná, que tinha (e tem) uma Kombi e resolveu levar a meninada para a escola, gratuitamente. Peixe, já virando adolescente, achava aquilo muito infantil. Seguia de bicicleta, tinha um corte radical no cabelo e um olhar que acenava para o perigo.

Um dia, a bicicleta quebrou e ele foi com a gente. Naná, sabiamente, colocou ele no banco da frente, para ir conversando e, principalmente, para demonstrar afeto. Melhor, dar afeto.

Peixe foi algumas vezes até o Nilo Pereira, escola municipal comandado pela valente Damaris, na estrada do Encanamento. Nunca dizia obrigado. Descia e sumia dentro da escola. Certa vez ele desceu, olhou para mim e Naná e disse uma palavra que parecia arrancada a fórceps do seu peito:

“Obrigado”.

Ali começou a mudar o jeito. Pouco tempo depois, fez amizade com Gustavo, que é um mecânico de primeira no Poço e passou a aprender os primeiros caminhos da profissão. Dava gosto quando passava e Peixe estava deitado, debaixo de um carro, consertando algo complicado. Bastava perguntar, e ele explicava a peça, o que estava fazendo.

Da geração dele, que foi com a gente de Kombi, Peixe foi um dos poucos que abraçou uma profissão. Virou mecânico, com carteira assinada, salário em dia, fora os extras, em uma oficina na Avenida Norte.

Há dois anos, inauguramos a Biblioteca Comunitária do Poço da Panela. Um dos irmãos de Peixe, Rafael, passava longe, talvez achando esse negócio de livro, leitura, coisa de criança. Um dia, chegou um professor de violão e Rafael entrou na biblioteca. Nunca mais saiu. Todo sábado está lá, aprendendo novas músicas com o voluntário Gustavo.

De vez em quando encontrava Peixe. Sempre com um sorriso bom, tinha moto, virou papai, estava com 21 anos, a vida inteira pela frente.

No domingo, comemorava a vitória do Santa Cruz com amigos, no Poço, quando recebeu o telefonema de uma mulher, sua namorada. Teria levado dois tapas de um sujeito, ex-namorado, ex-presidiário. Peixe resolveu ir lá. Essas coisas de honra que eu não entendo bem. Os amigos tentaram fazê-lo desistir. Peixe ligou a moto, que não pegou. Ficaria por ali. Tomaria mais umas cervas com os amigos, iria dormir e no outro dia a coisa se resolveria até com uma conversa. Ele pegou outra moto emprestada e foi lá, resolver algo insolúvel. Não teve tempo de nada. Um tiro na cabeça e o fim da vida que mal começava.

Ontem foi o enterro. Não pude ir. Todos aqueles meninos que levamos dezenas, centenas de vezes para a escola, estavam lá, com rostos amarrotados, chorando a morte do amigo, do irmão. Cada morte dessa mata um pouco a comunidade inteira.

À noite, fui ao Poço. Conversei com Gustavo, seu professor de mecânica. Estava arrasado. O que sinto é um vazio aqui dentro, me disse, triste como um irmão que cultivou ao longo de vários anos.

Lá pelas tantas, chegou o ônibus que levou a comunidade para o enterro. Os olhares para o chão, os pés arrastados. Nessa hora, não há muito o que dizer. Veio Rafa, irmão de Peixe, demos um abraço. Agora, vamos ter que cuidar deste menino, foi o que pensei. “Colar”, como diz sempre Naná. Que a música o conforte.

“Morreu de graça”, foi o que mais escutei.

Em todo este processo, nenhum dos envolvidos buscou agentes da lei para solucionar o que poderia ser apenas uma confusão de domingo, pós-bebedeira, pós-jogo, pós-tudo. Nem a mulher agredida registrou a agressão, nem o que foi buscar justiça por conta própria passou numa delegacia. A solução veio de um revólver fácil. Apertar o gatilho é um dos gestos mais fáceis criados pela humanidade – e um dos mais dolorosos.

Para quem ama a vida, essa estupidez gratuita é nossa chaga diária.

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Algumas anotações sobre os doze anos sem carteira assinada

28 de fevereiro de 2013, às 11:21h por Samarone Lima

Algumas experiências na vida eu não tive e acho que agora é tarde para ter. Exemplo. Aos 43 anos, nunca vivi a cena de ir a uma concessionária para olhar, esquadrinhar, cheirar, testar, analisar, observar e comprar um carro do ano. Em diferentes fases da minha vida, carro pertencia aos outros, que me davam caronas ocasionais. Comprei, certa feita, um Fusca azul, 1968, numa negociação que envolveu o amigo Naná.

Batou o dono do carro se declarar torcedor apaixonado do Santa Cruz, que Naná passou a resgatar a história do Santa, os títulos, o camarada que venderia o Fusca passou a dizer o lugar em que ficava no Arruda, os lances dramáticos e com a emoção coral em campo, o preço foi baixando vertiginosamente, até que fechamos, depositei o dinheiro e voltei para o Poço da Panela, onde morava, com um Fusca azul lindo. Bati, uns três anos depois, e como estava sem dinheiro para consertar, acabei me desfazendo do bichinho.

Acho que é uma coisa minha mesmo. Não tenho paixão nenhuma por carro. Zero. Acho apenas uns mais confortáveis que outros, outros mais bonitinhos, mas nada que justifique uma preocupação com o assunto. Em caso de dinheiro extra, o tema “comprar um carro” sequer é citado nas minhas pesquisas internas. Uma boa viagem para um lugar bem bonito me dá mais alegria. Livro também. Várias outras coisas, bem mais em conta, me dão mais alegria.

Não sei de onde surgiu este tema, nesta quinta-feira de muito calor no Recife. É que minha indiferença com o assunto se mistura a uma certa perplexidade. Nunca vi tanta gente agressiva nas ruas, especialmente dentro dos carros. Pessoas que devem gostar de música, poesia, de uma boa roda de samba, que devem contar histórias para o filho dormir, mas que viram uns cavalos batizados, quando estão ao volante. Conheço vários. O pior é que não há remédio – a situação só vai piorar.

Parei de atravessar na faixa de pedestre aqui na rua Princesa Isabel, quando o sinal fica verde para nós, que estamos numa calçada, tentando chegar do outro lado da rua. Sempre tem gente “aproveitando o embalo”, para passar no vermelho. Todo dia acontece.

Eu até soltava um bom palavrão, com o motorista ou motoqueiro que queimava o sinal vermelho, mas vi que não adianta nada. Geralmente, os vidros estão fechados, a pessoa não escuta nada. O motoqueiro, de capacete, também não está nem aí.

Também nunca me interessei por previdência privada. Na verdade, deveria pensar – e rápido. Olhei outro dia minha carteira de trabalho. O último carimbo é do final de 2001, quando saí da Universidade Católica. Já são 12 anos sem contribuir para a Previdência Social, ajudando a aumentar o rombo das contas do governo. Neste período, não sei quantos milhares reais já paguei de imposto.

Nesses 12 anos fui vivendo das várias estradas, atalhos e ramificações que um jornalista e escritor pode trilhar. Frilas (para revistas, já que os jornais daqui não sacaram ainda a beleza que é ter matérias especiais, feitas por gente de fora da redação). Frila, para alguns que não sabem, é o resumo de “free-lancer”. Eu nunca soube o que é mesmo “free-lancer”, como ainda não sei, aos 43 anos, o que é o minimalismo, apesar das inúmeras explicações do amigo Caio. Além disso, fiz muitos trabalhos como “sistematizador”.

O “sistematizador” é um sujeito com habilidade para digitar rápido e precisa de um pouco de inteligência recente, coisa que tenho. Ele é convidado para sistematizar um seminário, um encontro, um debate, fica com seu notebook registrando o que as pessoas dizem. Em alguns casos, só os momentos mais importantes. Cansa pacas, porque as pessoas gostam de falar muito, especialmente se for encontro envolvendo ONGs. Mas, no geral, o brasileiro quando está reunido, fala pelos cotovelos. Até as pessoas que vão fazer perguntas, em seminários, encontros, fazem verdadeiros tratados filosóficos, antes da pergunta.

No final, você revisa, manda para os organizadores, que pagam o acertado, mandam imprimir, encadernar, e depois ninguém, mas absolutamente ninguém se dá ao trabalho de ler.

Neste 12 anos fui também professor de literatura para jovens da periferia. Foi uma das coisas mais bonitas que fiz na vida. Durou um ano e oito meses. Um dia ainda vou escrever sobre isso. Pra variar, foi a época profissional em que ganhei o pior salário de todos os tempos. Mas valeu pelo processo.

Também fui coordenador de literatura da Fundarpe por alguns meses, mas dei com os burros n’ água. Nunca trabalhei tanto, participei de tanta reunião, nunca tive tantas idéias (que as pessoas achavam bem legais), mas e nunca contribuí tão pouco pela literatura de Pernambuco.  Não deixei nada de bom, só a boa intenção mesmo, que não conta muito.

Nestes 12 anos sem décimo terceiro, fundo de garantia, essas coisas todas, fui tocando também meus projetos. Fui vendo também que não estar amarrado em um canto dá mais tampo para escrever. Depois que saí da Católica, peguei a indenização e fui reescrever alguns capítulos do “Clamor”, que foi publicado em 2003. Não conseguiria isso com os 280 alunos que tinha, no último semestre que lecionei. Esqueci de dizer que, neste período, fui dono de bar duas vezes, coisa que não recomendo nem para o maior inimigo.

Em 2005, consegui publicar o “Estuário – crônicas do Recife”, com a ajuda do pessoal do Ateliê. Ficou uma edição bonita pacas.

Foi graças a essa liberdade nos trabalhos que consegui viajar a Cuba, entre o final de 2008 e início de 2009 – o que resultou no meu queridíssimo “Viagem ao Crepúsculo”, que segue seu bom caminho entre os leitores. Ainda tive tempo de participar da organização, com o velho amigo Gustavo de Castro e com o jornalista Carlos Magno de Araújo, do livro “A cabeça do futebol”. Tem textos de Inácio França, Raimundo Carrero, Abel Menezes, Josmar Josinho, além de Juca Kfouri, Enrique Vila-Matas, José Roberto Torero, entre outras feras.

Fui consultor do Unicef algumas vezes. Geralmente para sistematizar alguma experiência bacana, que depois se tornou livro. Foram três. A vantagem é que o Unicef paga um salário decente e não tem descontos. Se acertarem cinco mil por mês, o governo brasileiro fica chupando o dedo. Cai o dinheiro inteirinho na conta. Teve uma época que meu amigo Inácio França era consultor também, a gente se divertia muito e aproveitava para fazer as reuniões de pauta do Blog do Santinha.

Também ganhei lá uma graninha sendo mediador de festas literárias, especialmente a Fliporto. O mediador é aquele sujeito chamado para apresentar rapidamente os convidados, fazer com que a conversa ande, aparecer o mínimo possível, receber as perguntas, fazer uma triagem e encerrar sem muita solenidade. Em suma, é deixar que a estrela dos convidados brilhe. Tem mediado que não entende bem sua função e quer roubar a cena. É uma coisa melancólica.

Por umas presepadas do destino, acabei assumindo a assessoria de Imprensa de Ariano Suassua, em sua caminhada cósmica pelo estado de Pernambuco, dando aulas-espetáculo. Nunca imaginei que isso aconteceria, e foi justamente por isso que aconteceu. Me faltava a pretensão para o cargo. Simplesmente a conjunção dos astros favoreceu, e já estou nessa pisadinha há três anos e meio. Desde julho de 2009, já passamos por tudo o que é de cidade de Pernambuco, da capital ao sertão mais distante.  É uma experiência humana, estética, ética que levarei para a vida inteira. O que já vi, convivi, escutei e aprendi não tem preço. Devo ter assistido umas 90 aulas-espetáculo, por baixo. Também tenho a missão de acompanhar Ariano nas entrevistas, é outra hora de aprender muitas outras coisas sobre muitos outros assuntos.

Isso compensa o meu trauma. Quando estudava Educação Artística, na UFPE, teria aula de Estética com Ariano. Pois no semestre que iria estudar com ele, Ariano se aposentou.

Quando terminar meu trabalho na secretaria, com Ariano, não sei o que vou fazer da vida. Por mim, ficaria vivendo só de brisa, lendo, escrevendo, vadiando, vagabundeando entre um cinema e outro, sofrendo com meu Santa Cruz querido, dando minha contribuição para a biblioteca do Poço. Além disso, minas corridinhas matinais, por entre as pontes do Recife e a pelada da quarta-feira, com a turma do Bola de Primeira.

A meu favor conta esse crescente mercado das feiras literárias, bienais etc. De vez em quando me chamam, entra uma graninha legal, para um trabalho que não pode ter melhor no planeta. Viajar, ficar hospedado e depois ir para uma mesa, conversar sobre o que o sujeito mais gosta de fazer na vida. Depois, pegar o famoso “pro-labore”. Hoje mesmo chegou um convite, para falar sobre poesia, em Bodocó. Já confirmei.

Comecei a falar sobre carro, acabei enveredando por outros caminhos. É o exemplo de Ariano que nunca consigo pegar. Ele começa a falar sobre um assunto, faz uma volta, passa pelas terras mais remotas, e quando a gente pensa que ele perdeu o rumo, volta exatamente ao ponto. Eu, quando pego um atalho, não encontro nuca mais o lugar onde estava.

É por isso que anoto tanto as coisas em meus caderninhos. Deveria batizá-los de “Anotações de um desaprumado”.

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A felicidade tem mil faces

5 de fevereiro de 2013, às 18:57h por Samarone Lima

Não dá mais para ver os telejornais, pelo menos no meu caso, sem sentir que algo muito estranho na TV brasileira. A violência se tornou imperiosa, ocupa todos os espaços, é o carro-chefe de tudo. Cenas de assalto num posto, tiros à queima-roupa, assassinatos à sangue frio, espancamentos, tudo vai passando e repassando, como se nossa vida fosse apenas isso, violência.

Ao meio-dia, cá no Recife, três emissoras entram com seus programas específicos voltados para o mundo da violência. Música de tensão, apresentador exaltado, aos berros. “Mostra ele aí! Mostra o safado!” Os presos são apresentados, entrevistados, não sei como funciona a audiência, mas nos botecos cá do centro, onde trabalho, são o acompanhamento do almoço. O sujeito dá uma garfada e vê sangue, barulho de bala, gritaria do apresentador. Parei de almoçar num bom lugar aqui perto por causa disso. Se tiver algo para entrar nos meus ouvidos, na hora do almoço, que seja uma boa conversa ou uma boa música, como fiz hoje com o amigo Inácio França.

À tardinha é outra insanidade. Tem um apresentador, Marcelo qualquer coisa, que tem uma voz já rouca de tanto gritar. Ele fala com o comandante de algum helicóptero, que deve ser Águia ou Alfa ou algum nome de brinquedo que ele não teve na infância. O comandante acompanha alguma viatura, que persegue alguém ou alguma coisa. “Fecha nele, comandante, fecha nele! Me dá a imagem! Cadê a imagem!” Ele vai ficando excitado, exaltado, parece um tira falando.

A regra básica parece ser apenas uma: quanto mais trágico, sofrido, demorado, doloroso, quanto mais envolver mulheres, crianças, psicopatas, quanto mais terrível for o sofrimento, mais o apresentador goza. Falta pouco para ejacular na tela. Não sei o nome direito porque vejo em alguns instantes e sinto tédio, nojo e não sei como as pessoas não cansam de ver desgraças o tempo todo.

O Inácio lembrou que outro dia viu o Jornal da Band, da noite, e uns cinco blocos foram só de crimes e violência. Você pega um país da dimensão do Brasil, com a terceira maior população do mundo, a possibilidade de ter crimes bárbaros, nas pequenas, médias e grandes cidades, é enorme. Cada afiliada seleciona a violência do dia e manda. Pronto, vem a inundação.  Estamos vivendo no pior país do mundo, vamos aumentar a cerca, fechar os condomínios e blindar os carros. E vamos também ser infelizes e medrosos, porque isso dá dinheiro para muita gente.

Mas sinto falta mesmo é de notícias que também sejam o contraponto. Há milhares de projetos, iniciativas, ações, gestos, atos, que revelam um país que não é o desses Datenas da vida. É uma pena, mas só vejo isso  (numa TV comercial de larga escala) em um programa como o Globo Rural, que mostra pequenos, médios e grandes agricultores fazendo pequenas revoluções em cultivos, descobertas, respeito à natureza. Melhor que isso: jornalistas que sentam (e sentem), conversam, escutam os entrevistados, numa atitude mais próxima, sem os padrões que costumam introjetar.

Outro dia, após as mortes no incêndio da boate Kiss, uma repórter entrevistava um homem do  Corpo de Bombeiros e teve a coragem de perguntar se “as pessoas costumam morrer dessa forma”. Meu Deus.

Aqui no Recife, para falar da minha aldeia, tinha um belo projeto da TV Globo, com o jornalista Bruno Fontes. Ele identificava pessoas simples, figuras humanas que mudavam a realidade onde vivem, fazia uma espécie de crônica da vida cotidiana, uma coisa linda, amorosa, emocionante. Se chamava “Vida Real”.

Certa vez, contou a história de Naná, amigo meu do Poço da Panela que há quase dez anos leva crianças gratuitamente para a escola, em sua Kômbi. Foram minutos preciosos no horário do almoço. Entrevistas com os meninos, que o consideram como um pai, amigos do bairro. Depois disso, Naná foi reconhecido em vários lugares, quando passava com sua Kômbi. “Ei Gordinho, vi você, parabéns pela iniciativa”, gritavam. Hoje, Naná é um dos coordenadores de uma biblioteca comunitária no Poço. Usa a Kômbi para levar e trazer livros.

Mas talvez isso não dê ibope. O programa não existe mais. Em seu lugar, tem um troço que acho chatíssimo, um tal de “calendário”. O repórter vai a uma comunidade, vê as mazelas, mostra a praça estropiada, uma rua cheia de buracos, vai atrás da prefeitura, tudo com um calendário na mão. Marca a data para voltar. Na data, tudo deve estar pronto. Quando não está, uma desculpa é arranjada e uma nova data é marcada. Sinceramente, um tédio completo.

Eu quero terminar de ver um programa é emocionado, não estropiado, dopado, anestesiado, como estão fazendo.

Durante o almoço de hoje, anotei uma frase que o Inácio me disse: “A felicidade tem mil faces”.

Elas, infelizmente, estão sumindo da TV brasileira.

 

 

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Em terra de muito VIP, quem vai de Troça é rei

30 de janeiro de 2013, às 12:56h por Samarone Lima

Colecionador obcecado de notinhas fuleiras de jornal, notícias sem importância ou estranhas, outro dia arregalei os olhos, com a notícia do aniversário de um senador pernambucano. O evento, num local chique pacas, tinha biritas mil, buffet etc. Desconfio até que era o que estão chamando de “open bar”. Pois bem. Dentro do bar, havia um “cercadinho”, a “área VIP”, onde o whisky era 12 anos. Ou seja, era o VIP dentro do VIP.

No Carnaval, a coisa está ficando complicada. A continuar assim, brevemente a turma vai pular o Galo da Madrugada em fila indiana. Vi ontem no Diário de Pernambuco que uma empresa vai instalar uma área VIP para o Galo com 12 mil metros quadrados e 500 vagas para estacionamento. Só de área VIP naquela região da Avenida Sul e Rua Imperial, contei nove camarotes, com capacidade para até 2.500 pessoas. O mais fraco tem apensa 1.200 ingressos disponíveis, quase todos vendidos.

Pela minha pouca experiência em áreas VIP e camarotes, a turma geralmente vai com a camiseta dos organizadores e acaba frequentando a mesma classe social. Numa festa como o Galo, o que acho maravilhoso é ver a turma chegando, cada pessoa com uma fantasia diferente, uma tiração de onda. O bom do Galo é ver a massa na mesma altura, não de cima para baixo, como geralmente acontece nos camarotes, que, por sinal, são altíssimos.

Pena que perderi o Galo. No dia nove estarei no Crato, para as comemorações dos 70 anos do meu pai. É uma festa que não acontece todo dia, não vou perder. Acho uma maravilha sair cedo, dar uma volta pelo centro, ver a multidão começando a chegar. Depois, encostar no Princesa Isabel, ficar tomando umas na calçada e ver milhares de pessoas passando, durante horas, rumo ao delírio.

Mas não sou nem sociólogo nem nada, para ficar discutindo esse negócio de área VIP, cada um se diverte como acha melhor.

No meu caso, o que me satisfaz mesmo é a tal da troça, que sai na rua, não tem cercadinho, área reservada, muitas vezes o itinerário é decidido na hora, com os integrantes já bem chapados e o tal open bar é o sujeito da barraquinha de cerveja mais próxima. O estandarte fica vagando de cintura em cintura e à noitinha todos acham tudo lindo e os amigos começam aquele papo de “você é um cara que eu gosto pra caralho”, enfim.

Saio da minha letargia de cronista para avisar que sábado que vem (02/02) será a festa da Troça Carnavalesca Mista “Os Barba”, fundada em 2001, na venda de Seu Vital, Poço da Panela. O rei, este ano, será o sanfoneiro Chiló, eleito com ampla maioria e com o apoio decisivo do cabo eleitoral-mor, Seu Vital. O carnavalesco Naná já avisou que a decoração será a derradeira homenagem ao centenário de Luiz Gonzaga. Para ganhar mais inspiração, ele fez parte da caravana que foi ao centenário de Gonzagão, em Exu, e bebeu tudo o que existia em garrafas e latas ao longo do caminho. Chiló, como estava em campanha, também viajou no referido ônibus.

O compositor Lula  Terra, autor do hino dos Barba, vai aproveitar a festa para lançar um CD com músicas que  já fez para nove blocos e troças do Recife e Região Metropolitana, como Boi Cipó, Hoje a Mangueira Entra. As músicas foram gravadas pela orquestra do maestro Parrô. Se música cantada em Troça desse dinheiro, Lula já estaria milionário. Ou seja, se cada vez que a mangueira entrasse, ele ganhasse R$ 1,00 estaria andando num Cadilac 1959.

Seguindo a tradição, as camisas da troça continuam sendo pintadas individualmente por artistas convidados. São apenas 150 unidades, que poderão ser compradas até sábado, em um varal improvisado defronte à igreja de Nossa Senhora da Saúde. O coordenador das vendas, este ano, é o senhor “Duda A Milhão”. A Troça segue o ritual de oferecer Pitú em garrafão de 20 litros, panelões com feijoada e caldinho, além de uma farta mesa de frutas, tudo grátis. “A gente só não chama de open-bar, porque aí já é muita frescura”, diz o artista plástico e fidelista Iramaraí Vilela, coordenador de criatividade e alegorias. Os integrantes ainda não decidiram darão uma volta no quarteirão, para não cansar os próprios integrantes da troça.

Duda “A Milhão”, por sinal, vai inaugurar sua troça, batizada de “E nem duvide!”, desfilando pelo Poço no início da tarde. O nome da troça é uma referência à frase mais repetida por Milhão – “E nem duvide!”

Você diz: “Milhão, o Carnaval de 2013 vai ser bom?”

A resposta: “E nem duvide!”.

“Milhão, dá para a gente ir de moto até a Guatemala, daqui a pouco?”

“E nem duvide!

O melhor horário para chegar é 14h55. Quem quiser ficar logo quente, a sugestão é tomar uma dose do “Remédio” de Seu Vital. Mas cuidado. Se tomar mais de duas e jogar uma cerva por cima, bate no cabeção, o sininho toca e a pessoa começa a chamar Dudu de Juca.

Dudu é o loiro simpático de Vital. Juca é brabíssimo.

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Conversas no mercado

23 de julho de 2012, às 11:32h por Samarone Lima

Foi no sábado, meu dia oficial de debulhar livros na Biblioteca Comunitária do Poço da Panela. Nunca vi um negócio se repetir tanto. Chego lá, tem caixas e caixas de livros na área da frente. São as doações que Naná vai recolhendo, ao longo dos dias. Naná tem uma Kombi que está mais pra lá que pra cá. Já pedi dezenas de vezes para ele suspender um pouco o serviço de coleta, mas ele acha que é falta de educação, não ir buscar.

Fiquei de 11h às 14h30 separando livro, papel velho, apostilas, revistas de moda, de costura, de celebridades, brinquedo velho, enfim. Tenho que fazer isso, porque no meio de várias caixas e sacos, sempre tem uns livros bons, é um crime não selecionar, limpar e botar nas estantes.

Naná não estava. Tinha ido levar um móvel em Santana, com Batman, que é vigilante e marceneiro. Gordinho, o ajudante de Naná, também foi.

Duas e meia. Após uns três telefonemas e o famoso “tô chegando”, resolvi encerrar minha atividade. Ninha estava ocupada, cuidando do aniversário de 15 anos de sua filha Andréa.

Estava já saindo do Poço, quando Naná ligou. Tinha acabado de chegar à biblioteca.

“Peguei um monte de doação de uma mulher que me ligou várias vezes”, disse.

“Porra, Naná, desde onze horas estou separando livro e lixo…”

Pensei em ficar puto, mas é inútil ficar puto com Naná. é perder tempo.

Voltei para a  biblioteca. Naná abriu a Kombi e olhei. Uma penca de revistas semanais, cadernos já usados por crianças. Só um livro razoável, “A bicicleta azul”, que li há muitos e muitos anos.

Deixamos a doação no lugar de fazer a decantação e fomos para Casa Amarela. Ninha iria comprar mais umas coisas para o aniversário de Déa. Eu e Naná fomos para o box de dona Mary, famosa pelo peixe e pela “Brahma NE”, pedido oficial do professor Davi.

Ficamos eu e Naná convesando. A Brahma estava mesmo geladinha. O vento de julho soprando por todos os lados. Há tempos não fazíamos isso, eu e Naná. A conversa boa da tarde de sábado. Conversamos sobre a biblioteca, esse sonho que acalentamos há tempo, as dificuldades, impasses, os avanços, pequenas conquistas. Lá pelas tantas, Naná confessou:

“Pois eu gosto quando é assim, difícil mesmo. Quando dizem que não vai dar certo, aí é que eu me animo e ganho força. Se um daqueles meninos se agarrar com livros, já é um a zero para a gente”.

Lembrei que na semana anterior, fomos buscar uma doação de livros de uma amiga. Duas caixas, livros ótimos. Na saída, Naná viu uma cama de hospital, dessas largas. Perguntou o que ela iria fazer com a cama. Iria doar.

“Passo aqui depois, para pegar”, disse o gordinho.

Na volta, no Poço, paramos no Posto de Saúde, para ver se precisavam de uma cama de hospital. Neide, agente de saúde e nosso contato, não estava. Naná deixou para resolver depois.

“Essa cama vai servir para alguém”, disse Naná. “Não pode é ficar encostada”.

Enquanto saboreávamos um bom tira-gosto, no mercado, o velho amigo me informou.

“Sabe aquela cama? Já dei para aquele amigo nosso, que é motorista. A mulher dele está em coma no hospital desde o final do ano passado e agora vai pra casa. Eu não disse que iria servir?”

Combinamos que Naná vai tirar uma cópia da chave da biblioteca para Deyvson, um menino de 15 anos, que é frequentador assíduo da biblioteca. Ele já dá aulas de reforço para um pequeno grupo da comunidade, na biblioteca, e faz o curso de violão com um de nossos dois professores voluntários. Sonha em fazer o curso de Tecnologia da Informação.

Quando vejo os jornais na TV, parece que vivemos num país desgraçado, onde só acontece coisa ruim, violência, maldade, só funciona o egoísmo e a futilidade.

Prefiro o Brasil de Naná e Deyvson.

Samarone Lima é responsável por uma biblioteca comunitária no Poço da Panela, com alguns amigos, e sonha que o próximo prefeito transforme o Recife numa cidade de leitores.

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