asd çlk asd çlk (até encher a página)
Samarone Lima
Que eu lembre, colecionei poucas coisas na vida, todas elas bestíssimas: carteiras vazias de cigarro, que se transformavam em uma moeda corrente da maior importância, na infância, e canetas-tinteiro, dessas que vendem em coleções esporádicas, em bancas de jornais. A primeira colação, perdi em uma mudança desastrada, de Imperatriz, no Maranhão, para Pentecostes, no interior do Ceará, em algum ano indecifrável dos anos 70. Quem achar um tufo de cédulas de Continental e marcas afins, favor devolver, que será bem recompensado.
A outra coleção (de canetas-tinteiro), é um grande fracasso pessoal e poético. Tenho seis, cada uma mais bonita que a outra, mas sou vítima de um fenômeno ainda não compreendido por mim e pela ciência - só consigo usá-las na primeira carga. Depois, faço um redemoinho com a tinta, não consigo recarregar, mancho os dedos, papéis, me irrito com tanta burrice e volto á Bic preta, que é o Fusca de qualquer escritor.
Descobri minha terceira coleção, à beira dos 40 anos: máquina de datilografia.
Agora mesmo, estou escrevendo esta crônica numa deliciosa olivetti LETTERA 25, antes de passar para o computador (perdão, escrevo exatamente como está na máquina). As teclas são branquinhase e a fita é nova, comprada aqui no Cabo por R$ 2,00 (válida até novembro de 2007). Aqui vai um conselho: nunca confie em prazo de validade de fitas de máquina de escrever. A minha está vancida há nove meses, e continua escrevendo tudo.
Por essas artimanhas da providência divina, a poucos metros de onde moro, no Cabo, descobri um camarada que conserta tudo. Sua oficina é um amontoado de coisas velhas, deve ter até pedaços do Skylab, cacos de tudo, que ele um dia haverá de usar para compor algo, como fazem os poetas e artistas em geral. Descobri que lá, naqueles escombros, ele tem máquinas de datilografia. Uma vez por mês, faço minha visita de inspeção datilográfica.
Ele começa cobrando algo, mas vou dando jabs e ganchos, e no final do combate, mando uma esquerda e o preço cai pela metade. Esta aqui, onde escrevo, ficou por R$ 40,00 - após uma boa peleja.
Por precaução, tenho outra olivetti LETTERA 25, um pouco mais escura. É uma precaução, para o caso de uma quebrar.
A Helberg (Made in Holland), de ano incerto, é para deleite estético. Preta, pequena, compacta. Vem com uma caixa de ferro que serve de encaixe. Pelos meus cálculos, é dos anos 40, e foi usada por soldados escritores durante a II Guerra. Comprei numa feira em São Paulo, possivelmente da Benedito Calixto, e voltei para casa feito um menino que ganha a bola oficial e a camisa do clube, antes dos 8 anos.
Já são três, mas tem outras cinco.
A olivetti LETTERA 82, azulíssima, é menor e fácil de transportar, graças à caixinha que encaixa. Olhando sua beleza e facilidade para transportar, deve ter sido o notebook dos anos 70, um presente perfeito para o Dia dos Pais. Uso pouco esta pequenucha, porque a LETTERA 25 é mais macia.
A quinta máquina da minha vasta coleção é uma Hermes Baby, quase igual à LETTERA 82, só que tem um teclado mais anatômico, em forma de concha, que faz um bem enorme ao organismo. Além disso, tem aquele ferrinho na parte de trás, que serve para o camarada ver o que está escrevendo. Às vezes, o efeito é contrário, porque você vai vendo o texto horrível que está produzindo, e acha melhor parar. A Hermes Baby tem esse nome meio afrescalhado, é vermelha, e a indústria é brasileira, não sei se a mesma das gravatas Hermes. Julgo que não, mas aceito ajuda dos meus 13 leitores (eram 12, mas o Júlio Vilanova retornou de sua temporada na Europa e está acessando novamente, Deus é grande).
Aviso aos meus obcecados leitores: o encaixe da Hermes Baby na tampa é infinitamente melhor que o da LETTERA 82.
Em quantas estamos? Cinco? Então vamos à sexta: uma olivetti Studio 44. É daquelas máquinas para o indivíduo ter em casa, numa mesa dura e forte, porque pesa como o quê. Pensando bem, a olivetti já deveria me dar uma máquina, a título de compensação, pelo excesso de merchandising.
Acabo de descobrir, no cós da máquina, que ela também é nacional. Eu, pela minha santa ingnorância, julgava que era uma empresa italiana. isso tudo porque acho olivetti parecido com Melitta, Walita, Mesbla e Caravagio, todos italianos de nascença, salvo equívocos de minha vasta erudição em história da Renascença e marcas afins.
A sétima máquina terei que declinar o nome, porque está passando por uma revisão e lubrificação, igualzinho ao que a turma faz nos carros. Meu amigo cobra R$ 20,00. A máquina fica uma jóia, tinindo, só falta escrever sozinha. Só irei buscá-la na quarta-feira, e não vou segurar a crônica de hoje só por causa de um nome. Meus leitores não são tão obsessivos-compulsivos assim, apesar de nem todos serem bons do juízo.
A rainha
Falta a oitava máquina, a rainha do meu afeto, uma remington 15 (eu queria saber quem escolhia o número das máquinas de datilografia, em tempos remotos). É creme, simples, discreta e um pouco dura, sinal de que aguenta o tranco. Também é portátil, com uma tampa que encaixa.
É a máquina mais importante da minha vida, pelo motivo simples, óbvio e evidente da importância de qualquer coisa - ela me acompanha desde 1987, quando vim de Fortaleza, para me tornar recifense.
Não lembro onde a comprei, mas isso nem é o mais importante. Sei apenas que foi minha companheira fiel, nos anos que eu aguardava a primavera, no apartamento 312, da Casa do Estudante Universitário (CEU). Nela, escrevi artigos os mais diversos, que colocava semanalmente no mural da Casa, falando sobre coisas que eu discordava, arrancando muitas vezes artigos irados de resposta e desafetos que seriam sanados somente muitos anos depois. Os textos me levaram para o olho do furacão, e num desses desatinos do destino, acabei presidente da CEU, naquele louco ano de 1991, não sei como sobrevivi.
Foi nesta raçuda máquina que escrevi os trabalhos do curso de Educação Artística (UFPE) e Jornalismo (Católica). Os trabalhos do mestre João Dênys, do adorável Ricardo Bigi Aquino. Foi nela que escrevi uma peça inteira, madrugada adentro, no banheiro da CEU, para não acordar meus amigos de quarto. Era um trabalho de Marcos Camarotti, uma peça infantil sobre uma formiguinha, feita a partir de pedaços de diálogos dos colegas de turma. Por sinal, gostaria de saber por onde anda a Suzy, minha grande amiga de licenciatura, jamais concluída por causa de três disciplinas, foi mal, Borromeu.
A mais tarde, coloco a segunda parte. Agora deu um cansaço nos dedos. Não saia dai. Aliás, saia, mas volte.
Só para lembrar:
asd asd asd
çlk çlk çlk
Postado em Crônicas |
11 Comentários »



