Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Olinda e os mistérios da vida

23 de abril de 2017, às 10:09h por Samarone Lima

O mistério age na vida da gente e não há como entender. Na verdade, é uma petulância tentar entender certas coisas.

Começou com um tarô. A amiga Eunice, eu já sabia, é boa nessa parada das cartas, e me ofereceu algo cada vez mais precioso, nesses dias de tanta pressa e tantas agendas superlotadas – seu tempo e seu conhecimento e sua intuição. Eu, que sou um sincrético de norte a sul, topei na hora. Era uma segunda-feira, quando tudo começou a mudar.

As cartas não mentem. Meu filho, é mudança de tudo que é jeito, não vai sobrar nada, foi só o começo do belo entardecer, já nas primeiras observações. Foi tanta coisa linda, importante, muitas dicas, as mudanças, o início de um novo ciclo, até que, no final, surgiu o tema da casa, que eu vinha imaginando, há um certo tempo, uma casa grande, arejada, com quintal, onde eu pudesse botar meu sebo e tocar a vida mais lentamente. Uma casa improvável, por sinal, diante das broncas financeiras, já que eu vivo neste país que está desmoronando, chamado Brasil.

As cartas que puxei fizeram uma mistura tão precisa, que a casa já estava a caminho. Bastava eu fazer um movimento mais decidido, que o resto se resolveria.

E eu fiz.

No dia seguinte, uma terça-feira, creio, liguei para Chivi, amiga argentina que tem um sítio em Olinda. Perguntei se ela sabia de alguma casa para alugar. Justo neste dia, ela tinha percorrido a cidade de norte a sul, procurando uma casa para alugar.

“Ah, Samarone, tem uma casa azul, linda, com um quintal enorme, mas é muito grande pra mim e as crianças, acho que você vai gostar dela, vou te passar os contatos do corretor”.

Naquarta-feira, entrei na casa, com Paulo, 0 corretor. Era exatamente como eu vinha imaginando. Grande, com um piso belíssimo, um quintal enorme, com dois pés de Fruta-Pão, a lembrança mais remota que tenho do meu retorno ao Recife, em 2000 – os Fruta-Pão caindo numa casinha que morei no Poço, ao lado da casa de André.

Pensei – é aqui mesmo, que vou ficar, e recomeçar minha vida. Eu e esta errância tão antiga, refazendo meus mapas interiores.

Talvez seja por isso que eu esta fé particular – imaginar é mais forte que pedir. Ou imaginar pode até ser uma forma de pedir, só que eu não fico passando para os deuses e guias qualquer responsabilidade. Eles já são muito ocupados, com tantos pedidos, rezas, promessas. Eu acredito no que imagino e sigo quase como um cego a minha intuição.

Dois dias depois, pelos mistérios da vida, o contrato foi assinado e as chaves estavam nas minhas mãos.

Mistério porque eu estava, pelos meus próprios cálculos, quebrado. Sem dinheiro, sem discurso, sem tudo, como diz o poema. Com a chave na mão, eu finalmente tinha uma porta para abrir, e a casa era azul, infinitamente azul, milagrosamente azul. Um azul Carlos Pena Filho. Um desmantelo azul, de tanta beleza.

Foi um domingo, meu primeiro dia aqui. E cancelei tudo. Fiquei na casa vazia, olhando com a delicadeza possível, e fui limpando e pedindo licença, avisando da minha chegada, e providenciei umas velas, acendi uns incensos, rezei, porque rezar é bom, avisei que vinha para o que fosse de bom e belo, que iria cuidar dela, da casa, e que trazia meu silêncio para Olinda e minha vontade de seguir vivendo e escrevendo e tentando, cada vez mais e sempre, não incomodar ninguém e toca a vida com calma, com delicadeza.

E vieram os muitos livros, algumas estantes, minha mesa, a segunda mudança em pouco mais de um ano. E vieram os amigos, que me ajudaram em tudo, que trouxeram presentes e incensos, e tantas outras coisas, tanto cuidado, tanta gentileza, tanta bondade amorosa, e foram tantos, como Lúcia, que separou muitas horas dos seus dias para me ajudar a montar as primeiras estantes do sebo, que ganhou o nome de “Casa Azul”. Como Barthô, esse amigo que agrega tanta gente linda ao seu redor, morador dos Quatro Cantos, que me deu boas vindas, como bom olindense. Ou como o amigo Esequias Pierre, incansável na ajuda, na amizade, na disponibilidade. Ou Naná, sempre ele, com sua Kombi de mil e uma utilidades.

Ontem, por esses caminhos da beleza, fui com o velho amigo Inácio França (que é perigosamente meu fiador), sua Geórgia e o filho Bruno, conhecer a artista plástica Tereza Costa Rego. Na verdade, Inácio foi levar a novela que escreveu sobre parte da vida dela, “Terezas”, que será lançado na quinta-feira.

Sobre o encontro e o livro (que é maravilhoso), terei que escrever outro texto.

Mas antes de sair, Tereza fez questão de pedir vinho, e brindamos.

Brindamos à vida, à arte, à beleza, aos encontros.

Minha alma tem uma geografia tão intensa, já vivi em tantas terras, já morei em tantas casas, que a cada começo, sinto a mesma alegria inocente de quem vê o mar pela primeira vez.

Estou ainda tomando os primeiros goles de um vinho especial, guardado há tantos anos: Olinda.

 

Para Chivi, que vai ser minha vizinha.

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Um lugar para viver

6 de março de 2017, às 15:14h por Samarone Lima

Se eu pudesse escolher um lugar para morrer, seria num sebo.

Mas depois fiquei pensando – iria simplesmente estragar o dia de venda de livros do proprietário. Não é nada agradável o sujeito estar no seu canto, naquele sossego que é um bom sebo, e se deparar com um cadáver.

Como sou alto, daria trabalho para as pessoas passarem por cima. Além disso, um cadáver chama a atenção. Fora a chegada do carro do IML, os primeiros amigos falando ao celular do meu padecimento, justo num sebo, essas chateações todas do pós-morte nos domínios alheios.

Então refaço a frase.

Se eu pudesse escolher um lugar para viver, seria dentro de um sebo.

Juntaria algumas das minhas obsessões. Leitura, livros, morar numa casa e encontrar diariamente com pessoas que gostam de livros. E o arremate – viver da compra, venda e troca de livros. Nos intervalos, eu faria outra coisa por demais auspiciosa – seguiria escrevendo minhas coisas.

Tenho feito esse teste já há algum tempo, quando botarmos nossa barraquinha de livros da Biblioteca Comunitária do Poço da Panela, no primeiro domingo de cada mês, na Feirinha do Poço.

Posso estar chateado com o que for, que já começo a melhorar o astral só no ato físico de pegar os livros das caixas, organizar na mesinha, ver o que separei, das doações que chegam aos montes, quase diariamente ao projeto coletivo que existe há cinco anos no Poço.

A venda desses livros têm ajudado a completar o orçamento da nossa Biblioteca, que tem como fonte principal de recursos a doação mensal de 11 padrinhos. E se não escoarmos o que chega, não tinha lugar nem para entrar gente.

E tem aquela hora ótima, que é quando a pessoa chega, perguntando por um autor que gosta muito – e que, por acaso, gosto muito também. A conversa fica uma maravilha. Amós Oz, Roberto Arlt, Roberto Bolaño, As Mil e uma Noites, Sêneca, Tolstoi, o velho e bom Guimarães Rosa, todos os bons poetas que já passaram pela minha leitura, é uma festa, então eu percebo que tenho uma vocação enorme para ser vendedor de livro, e só a exerço uma vez por mês.

Já tem duas semanas que encafifei com isso – vou ter um sebo.

Botei na cabeça e sou teimoso, mas teimoso de verdade, não esses teimosos de meio tijolo, digo, de meia tigela, que cansam logo na primeira viagem, na primeira queda, no primeiro revés.

Quando viajo para qualquer lutar do mundo, ficou num pé e noutro, até achar os sebos. Montevideo, que é minha pátria, tem vários, umas casinhas charmosas, sempre com boa música, gente interessantes, livros lindos. Fora aquela feita que tem aos domingos, que atravessa vários quarteirões. Em Buenos Aires é a mesma coisa.

Só não entendo o motivo de quase não ter sebos legais no Recife. Não, amigos, a Praça do Sebo não é motivo de orgulho literário para a cidade.

Mas voltando ao assunto – já defini até a  geografia dele.

Meu sebo vai ser no Poço da Panela ou no Bairro do Recife, ou em Olinda.

Sim, porque tem que ser num lugar lindo.

E já começo a imaginar a cena. O dia vai amanhecendo, tomo o café, vou abrir as portas. O que terei para negociar? Livros. O que terei que responder, ao telefone? Se tenho o livro tal. E nos casos de encomenda, ir aos Correios, postar, coisa que faço desde meu primeiro livro, de 1998.

Dentro deles, os livros, histórias magníficas, contos, crônicas, poemas.

Nas paredes, meus autores prediletos, emoldurados. Alguns livros meus, que ninguém é de ferro.

Uma vez por semana, um encontro para leituras, recitais, lançamentos. Uma máquina de café simples, para as conversas mais demoradas. Um vinhozinho não custa nada, que ninguém é de ferro, e se Lula Terra aparece. Ou se meu amigo Gustavo Monteiro, o Gugu Bicicleta, chega por lá. Ou se chega meu velho irmão, Gustavo de Castro, com aquela conversa mole.

Quem tiver alguma dica de espaço, por favor me avise aqui.

Estou pensando em chamá-lo de Seborone.

Ou Seboroso.

Aceito sugestões.

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A história de um engasgo

3 de março de 2017, às 13:27h por Samarone Lima

Foi em algum dia misterioso, acho que em 2007.

Eu morava numa bucólica casa azul, de primeiro andar, no Poço da Panela, ensinava Literatura para jovens de 11 bairros com o pior IDH do Recife e fazia uns frilas, para tocar a vida.

Até que minha tia-avó, Flocely, que morava no Cabo de Santo Agostinho, começou a ter problemas de saúde. Não tinha filhos e morava com Rosa, sua eterna cuidadora, e Renato, seu filho.

Eu era a ligação da família com tia. Seus irmãos já tinham morrido, as sobrinhas estavam espalhadas. Ela era a irmã de minha avó, Zeneuda, do segundo casamento da mãe, uma história longa demais para contar. O fato é que não dava para ficar fazendo, diariamente, o trajeto Poço-Cabo-Centro (onde ficava a escola que eu ensinava, a Kabum!)-Poço.

Então falei com Tia e voltei a morar com ela. Devolvi a casa do Poço (onde hoje é o bar Fuê) e fui morar no primeiro andar de uma rua sem saída.

Voltei a morar é porque já tinha morado com a mesma tia, entre 1993 e 1994, quando encerrei meu ciclo na Casa do Estudante Universitário da UFPE, entre 1998 e 1992.

Toda a família dizia que não iria dar certo, porque sou desorganizado demais, e tia sempre gostou de suas coisas bem direitinhas. Foi um período maravilhoso, que acabou em maio de 1994, quando pedi demissão do Diário de Pernambuco e fui para São Paulo. No almoço de despedida, vi quando umas lágrimas silenciosas escorriam na comida. Tia era contida em seus afetos.

Pois bem. Agora estamos em 2007, tia estava caminhando para os 80 anos, teve que entrar em Hemodiálise, era um negócio puxado. Dava aulas, voltava, tinha que levar para uma clínica em Candeias, ela tinha um problema na vértebra, qualquer buraco que o Fiat dela passava, era um gritinho de dor. Voltava pra casa moída, tinha só um dia para se recuperar. Isso três vezes por semana.

Olhando hoje, não sei de onde me saía tanta energia, envolvendo tantas distâncias, quilômetros, calor, eu que não sou muito desse mundo do carro. Hoje, quando penso em alguma atividade profissional no Cabo, me dá logo uma moleza no organismo. Parece a outra ponta de Pernambuco. Mas no amor, a gente não cansa.

Os afetos e memórias se misturavam intensamente. Por conta de uma queda, tia passou a dormir no quarto do térreo, que era o meu reduto, em 1993/94. Nesta volta, passei a dormir no primeiro andar, que era o dela.

Um dia, peguei minha máquina de datilografia, botei papel e pensei em escrever um poema que falasse da minha vida. Eu tinha 38 anos.

A primeira imagem que saiu foi esta:

                                 I

Nasci o terceiro

na linhagem dos homens.

 

Os seios de minha mãe

estavam gastos de outras bocas

e de longe

mamei no tempo.

 

Confesso que tomei um susto. Era uma imagem, um portal, uma mandala, tudo junto. Era como se um mundo estivesse se abrindo. Como muitas coisas importantes da minha vida, eu não sabia de onde vinha aquilo, mas abri os braços – ou o coração. Quem abre os braços deixa o coração escancarado. E o fluxo seguiu.

De fato, sou o terceiro homem. Antes, vieram Paulo e Antônio. Estranhamente, não ganhei nome de apóstolo, mas de jogador de futebol: Samarone.

Sim, mas… de onde vinha aquela palavra “linhagem”?

Poderia ter feito só a frase simples: “Nasci o terceiro”. Mas creio que não seria poesia, seria uma informação, como já bem definia o mestre Ariano.

A palavra “linhagem” me remetia a uma genealogia, uma estirpe, uma procedência, como se eu quisesse, naquele momento, fazer um mergulho na origem da família, mas também naquele ponto da minha vida. Onde eu estava no mundo, e o que queria fazer da minha jornada.

E depois veio a segunda parte, onde me referia aos seios da minha mãe, que já tinham alimentado dois homens. E como pode, um sujeito mamar no tempo?

Tudo vinha por outro caminho, completamente misterioso.

Mas havia uma verdade atravessando tudo. O primeiro ano de minha vida foi nos braços da minha avó, Zeneuda Viana – irmã de tia Flocely. Minha mãe, meu pai e meus dois irmãos viviam em Brejo Santo, cidade a uns 80 quilômetros do Crato.

Creio que eu fazia uma conexão de tempos e vidas.

E o poema foi brotando:

 

Nasci com o sangue de minha mãe

espargindo em meu corpo

a dor da vida.

 

Minha avó foi a cativa

a me dar o pó da Via-Láctea

dissolvendo-a a colheradas

em copos de geléia.

 

Nada passava pelo racional. Fui tomado por uma energia misteriosa, uma febre. Datilografava uma página, terminava e colocava outra. Tudo saía como se estivesse esperando o momento de brotar. Era um poema diferente de tudo o que eu tinha feito. E não cabia a mim resistir ou não seguir. Era uma força.

Foram surgindo outros personagens, cenários, situações. Meu pai, as ruas do Crato, Brejo Santo, meus irmãos. Os objetos que fizeram parte da minha infância, a adolescência, até que cheguei ao Recife.

No poema, defino minha chegada a esta cidade, em 1987, em poucas linhas:

 

Fui para outros mundos

Criar força nos olhos.

Fiz dos ombros meu coração.

 

O poema me consumiu semanas. Datilografava, corrigia, retomava. O fluxo seguiu, incansável. São 25 versos.

Andei com esses originais na minha algibeira durante um bom par de anos, algumas pessoas queridas leram, deram sugestões importantíssimas, especialmente o querido Ronaldo Correia de Brito.

Em 2009, minha tia morreu.

Lembro que ela estava sofrendo muito, numa UTI, entubada. De manhã a visitei e me despedi ao seu ouvido. “Vá, tia, vá em paz, sem medo”, repeti várias vezes ao seu ouvido. À noite, ela morreu. Como a clínica era depois de Olinda, e estávamos próximos do Carnaval, liguei para os parentes mais próximos para informar da morte, enquanto uma troça passava, com o frevo rasgando a noite, celebrando a vida.

O longo poema, intitulado Tempo de Vidro, foi publicado somente em 2012, junto com A praça azul, pela Editora Paés. Está esgotado.

Nunca consigo fazer a leitura completa sem engasgar de emoção. Mas sou um taurino teimoso, como já me alertaram vários guias. Vou tentar de novo, sei que vou me emocionar de novo, vou pedir desculpas de novo e vou seguir de novo. Se todo engasgo fosse poético, a vida seria tão mais simples…

Amanhã (4/03), no espaço Toca, estarei no espaço Toca, com o poeta Fred Caju, a partir das 20h. Vou ler meu Tempo de Vidro, ele vai ler seu Estilhaços.

Depois vamos conversar sobre poesia e memória, publicações e futuro. O microfone vai estar aberto para quem quiser recitar seus poemas e falar o que quiser.

O Espaço Toca fica na rua Santa Cruz, 84. Boa Vista

Informo que o senhor Rodrigo Acioli, da editora Titivillus, estará com uma edição novinha do Tempo de Vidro, artesanal, numerada. São 40 exemplares.

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Uma bela festa comunitária

23 de fevereiro de 2017, às 19:13h por Samarone Lima

Ando tão lento nas minhas publicações internauticas, que nem adianta muito falar sobre a prévia da troça Os Barba, dia 18, e d’Os Barbinha, dia 19.

Foi mesmo uma bela festa. Por estranho que seja, faltando um mês para a realização da festa, quase nada estava organizado. A junção de várias pessoas da comunidade, sob a liderança afetiva e espiritual do querido Naná, fez com que tudo desse certo.

Teve decoração, banheiro químico, segurança de apoio, a própria comunidade organizou a eterna confusão da dezena de vendedores de cerveja (todos foram cadastrados), as camisas da troça foram vendidas (e leiloadas) por Iramarai, Jorge Bandeira encaminhou ofícios a vários órgãos da prefeitura. Com isso, tivemos uma orquestra da Prefeitura do Recife, que tocou duas horas e a promessa de um pequeno contingente policial, de 19 homens. No total, compareceram ao evento três PMs. Houve a coroação do novo rei, o médico argentino Edgar Navarro, que tornou Marco Careca um ex-rei, coisa que ele não achou nada engraçado.

No domingo, dei uma volta pelo Poço constatei que a comunidade ribeirinha do Poço “se armou”, como o ditado popular. Quem botou barraquinha com comida e bebida, vendeu tudo. “Antes tivesse botado mais”, disse uma mulher, que tem dois filhos pequenos e realmente precisa muito dessa grana. Nesses 15 anos de folia, a troça nunca perdeu o vínculo comunitário. A prioridade para botar barraquinha no largo do Poço é sempre dos moradores.

No domingo, foi a festa dos meninos do Poço, com Os Barbinha, também sob o comando de Naná, que improvisou diversas negociações de última hora. Como duas empresas caseiras chegaram para botar pula-pula, ele conversou e pediu algo em troca para a comunidade. Com a conversa rápida, a criançada ganhou uma hora de acesso grátis, em seis pula-pula. Não sei como se escreve o pula-pula. Pulas-Pulas? Pula-Pulas? Flávia Suassuna, por favor, me ajude.

Os Barbinha se juntou ao Panelinha de Pressão e foi menino até umas horas. Teve picolé, biscoito, pipoca e guaraná para a meninada. Infelizmente, a máquina de fazer algodão doce quebrou, mas estava tudo tão beleza, que ninguém sentiu falta.

Aos foliões, bom Carnaval. Aos que vão descansar, bom descanso.

Ah, nos dois eventos, que contaram com a participação de milhares de pessoas, não registramos quaisquer cenas de violência ou confusão. Creio que o envolvimento da comunidade no processo faz muita (ou toda) diferença. Eles trabalham no evento e se sentem parte. Dos 19 policiais prometidos, chegaram apenas três, que foram embora à tardinha.

O Carnaval que vai batendo à nossa porta é, de fato, preocupante. Falo da violência.

**

Nota: Hoje acordei com aquela música, “Sonho Meu” circulando no juízo. Com a ajuda do velho amigo Esequias Pierre, meu Assessor para Avanços Tecnológicos (AAT), vai o link. Um presentinho pré-Carnaval:

https://youtube.https.co/watch?v=Ly6Vq1-rMGs

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Anticomunicado sobre “Os Barba” 2017

15 de fevereiro de 2017, às 9:18h por Samarone Lima

Confesso que não acreditei quando lio título da matéria:

Fundador de Os Barba recomenda chegar cedo e diz: “Mauricinhos e patricinhas não são nosso público”; entenda

http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cidades/jc-na-folia/noticia/2017/01/27/bloco-os-barba-do-poco-da-panela-da-uma-guinada-e-volta-as-origens-268433.php

Pensei que algum de nossos fundadores (ou rei, eleito a cada ano) tinha enchido a cara, em Seu Vital.

A matéria surgiu depois de um “comunicado” que o senhor Jorge Bandeira fez, ontem, em seu Facebook. Fala em nome de um coletivo, usando o “Nós que fazemos a Troça Os Barba”, “preocupados”, e termina com um “resolvemos que”:

“- não vamos permitir som mecânico de qualquer espécie. 
- não será permitida a entrada de automóveis no espaço delimitado.
- apenas os comerciantes

Como um dos fundadores da Troça, achei o comunicado patético, equivocado e autoritário.

Primeiro porque parece que somos uma Troça Carnavalesca organizada, estruturada, com diretoria (e, agora, assessor de imprensa). Pior: parece que temos uma mania de grandeza de tal monta, que viramos uma SWAT do Poço da Panela, uma mistura de fiscais da Dircon, agentes da CTTU e batalhão da Policia Militar.

No sábado de manhã, portanto, Naná não vai estar suado, correndo de um lado para o outro, para concluir a preparação dos dois panelões de feijão com charque e outros condimentos, nem finalizando a mesa de frutas, para a galera usar como tiragosto da Pitú que servimos (tudo gratuitamente). Isso com a ajuda de várias pessoas da comunidade.

Deverá estar com coletes padronizados, na entrada da Poço, apitos e um talão de multas, e fazendo um sinal negativo com a mão.

“Aqui é da diretoria d’Os Barba, senhor. Este ano, em nossa Assembléia Semestral, , decidimos que a partir deste trecho, o senhor não pode circular. Em caso de insistência, criamos já nosso próprio talão de multa, para reforçar nossa verba de segurança do Carnaval 2018, já que estamos crescendo a olhos vistos”.

Outro grupo nosso vai estar com aqueles medidores de altura de som, usados pela Dircon, em rondas ostensivas pelo Poço da Panela. Ao avistar um “som mecânico de qualquer espécie”, aferição e nova multa.

Por último, como agora a troça define quem pode e não pode trabalhar “no espaço”, nossa “Diretoria de Fiscalização do Chão do Poço” terá que aumentar o número de integrantes.

Não bastasse o ridículo desta nota, vem o arremate. Vejam esta preciosidade antropológica:

“IMPORTANTE: O horário do bloco será das 10 da manhã até às 16 hs. portanto, SE QUISER PARTICIPAR DA NOSSA FESTA, chegue cedo. Depois disso, chegam os Mauricinhos e Patricinhas que NÃO É O NOSSO PÚBLICO”.

Será a primeira vez que a Troça Os Barba vai funcionar com cronômetro. Às dez horas, nosso Diretor de Horário vai acionar seu relógio, soprar um apito e gritar:

“Tá valendo! Já podem começar a beber, pular e cantar!”

A partir das 15h, o mesmo Diretor de Horário vai circular pela comunidade, dando apitaços a cada vinte minutos, usando  um megafone e alertando:

“Às 16h estaremos encerrando oficialmente nosso Carnaval 2017! Por favor comecem a se organizar para voltar para casa. Este ano, estaremos oferecendo uma plataforma para chamar Uber, desde que tenham se cadastrado em nosso site oficial e brincado dentro do horário oficial de folia, divulgado em nosso site”.

O arremate do comunicado nos levará a um impasse existencial de enorme proporções.

Depois de ter proibido som mecânico “de qualquer espécie”, de proibir a “entrada de automóveis no espaço delimitado” e atuar no controle de vendas durante uma festa de Carnaval, a Troça (segundo o comunicado) vai dividir o Poço em duas áreas geográficas – “Nosso público” e “nosso não-público”.

Como o autor da nota diz que “Mauricinhos” e “Patricinhas” não fazem parte do nosso público, terá que ser criada uma comissão, até sexta-feira, de especialistas nos tipos citados, para o fenômeno da exclusão. Eles, pelo que entendi, só podem participar da festa a partir das 16h01.

Aos amantes do Carnaval, da alegria, da festa, da ironia, aos que conhecem a história dos Barba, uma troça nascida na Venda de SeuVital, há 15 anos, só me resta pedir desculpas e dizer – nada disso é o que acreditamos.

Jorge Bandeira, que ajuda pontualmente em alguns encaminhamentos de ofício e outras burocracias (que não são mesmo nosso forte), não pode falar como fundador dos Barba, porque não é  fundador e tem seu próprio bloco, o Boi do Poço.

Fazer alguns acordos como comerciantes, mandar ofício aos órgãos competentes (Dircon, PM, CTTU), informando da festa, como sempre é feito, é uma coisa, mas publicar um comunicado com esse grau de arrogância, é nos tornar um bando de barbudos ególatras, capazes de fazer do Poço da Panela quase nosso território, durante um dia.

Se hoje vão milhares de pessoas, acho que é o contrário – cabe aos órgãos responsáveis, do Estado e da Prefeitura, organizar o trânsito, o comércio de bebidas e comidas, e zelar pela segurança das pessoas e do Sítio Histórico, que é o Poço, como fazem (quando querem) em outros espaços da cidade. No mesmo sábado dos Barba, por sinal, outra penca de troças e blocos fazem seu carnaval no Poço.

Minha sugestão é simples.

Vá quem quiser, chegue a hora der na telha, vista a fantasia calhar, esqueça essa bobagens que escrevem sobre nossa modesta troça, que apenas virou a alegria de tanta gente.

Divirta-se, ame, tome todas, encontre seus amigos, leve um pandeiro, um violão, uma flauta doce, vá liso, com dinheiro, pegue nosso estandarte e se amostre para quem você quer beijar, dance, sem saber dançar, encontre sua colombina, seu pierrô, reencontre algo que você nem sabe o nome, deixe o barco correr, deixe o ria raiar, que a vida brasileira já está tão dura, tão feia, seja você quem for, seja o que Deus quiser, seja você quem flor, seja o que você quiser.

Samarone Lima é jornalista e escritor, e um dos fundadores da Troça Carnavalesca Mista, Etílica e Anárquica “Os Barba”.

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