Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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3 de agosto de 2008, às 23:58h por Samarone Lima

Que eu lembre, colecionei poucas coisas na vida, todas elas bestíssimas: carteiras vazias de cigarro, que se transformavam em uma moeda corrente da maior importância, na infância, e canetas-tinteiro, dessas que vendem em coleções esporádicas, em bancas de jornais. A primeira colação, perdi em uma mudança desastrada, de Imperatriz, no Maranhão, para Pentecostes, no interior do Ceará, em algum ano indecifrável dos anos 70. Quem achar um tufo de cédulas de Continental e marcas afins, favor devolver, que será bem recompensado.

A outra coleção (de canetas-tinteiro), é um grande fracasso pessoal e poético. Tenho seis, cada uma mais bonita que a outra, mas sou vítima de um fenômeno ainda não compreendido por mim e pela ciência - só consigo usá-las na primeira carga. Depois, faço um redemoinho com a tinta, não consigo recarregar, mancho os dedos, papéis, me irrito com tanta burrice e volto á Bic preta, que é o Fusca de qualquer escritor.

Descobri minha terceira coleção, à beira dos 40 anos: máquina de datilografia.

Agora mesmo, estou escrevendo esta crônica numa deliciosa olivetti LETTERA 25, antes de passar para o computador (perdão, escrevo exatamente como está na máquina). As teclas são branquinhase e a fita é nova, comprada aqui no Cabo por R$ 2,00 (válida até novembro de 2007). Aqui vai um conselho: nunca confie em prazo de validade de fitas de máquina de escrever. A minha está vancida há nove meses, e continua escrevendo tudo.

Por essas artimanhas da providência divina, a poucos metros de onde moro, no Cabo, descobri um camarada que conserta tudo. Sua oficina é um amontoado de coisas velhas, deve ter até pedaços do Skylab, cacos de tudo, que ele um dia haverá de usar para compor algo, como fazem os poetas e artistas em geral. Descobri que lá, naqueles escombros, ele tem máquinas de datilografia. Uma vez por mês, faço minha visita de inspeção datilográfica.

Ele começa cobrando algo, mas vou dando jabs e ganchos, e no final do combate, mando uma esquerda e o preço cai pela metade. Esta aqui, onde escrevo, ficou por R$ 40,00 - após uma boa peleja.

Por precaução, tenho outra olivetti LETTERA 25, um pouco mais escura. É uma precaução, para o caso de uma quebrar.

A Helberg (Made in Holland), de ano incerto, é para deleite estético. Preta, pequena, compacta. Vem com uma caixa de ferro que serve de encaixe. Pelos meus cálculos, é dos anos 40, e foi usada por soldados escritores durante a II Guerra. Comprei numa feira em São Paulo, possivelmente da Benedito Calixto, e voltei para casa feito um menino que ganha a bola oficial e a camisa do clube, antes dos 8 anos.

Já são três, mas tem outras cinco.

A olivetti LETTERA 82, azulíssima, é menor e fácil de transportar, graças à caixinha que encaixa. Olhando sua beleza e facilidade para transportar, deve ter sido o notebook dos anos 70, um presente perfeito para o Dia dos Pais. Uso pouco esta pequenucha, porque a LETTERA 25 é mais macia.

A quinta máquina da minha vasta coleção é uma Hermes Baby, quase igual à LETTERA 82, só que tem um teclado mais anatômico, em forma de concha, que faz um bem enorme ao organismo. Além disso, tem aquele ferrinho na parte de trás, que serve para o camarada ver o que está escrevendo. Às vezes, o efeito é contrário, porque você vai vendo o texto horrível que está produzindo, e acha melhor parar. A Hermes Baby tem esse nome meio afrescalhado, é vermelha, e a indústria é brasileira, não sei se a mesma das gravatas Hermes. Julgo que não, mas aceito ajuda dos meus 13 leitores (eram 12, mas o Júlio Vilanova retornou de sua temporada na Europa e está acessando novamente, Deus é grande).

Aviso aos meus obcecados leitores: o encaixe da Hermes Baby na tampa é infinitamente melhor que o da LETTERA 82.

Em quantas estamos? Cinco? Então vamos à sexta: uma olivetti Studio 44. É daquelas máquinas para o indivíduo ter em casa, numa mesa dura e forte, porque pesa como o quê. Pensando bem, a olivetti já deveria me dar uma máquina, a título de compensação, pelo excesso de merchandising.

Acabo de descobrir, no cós da máquina, que ela também é nacional. Eu, pela minha santa ingnorância, julgava que era uma empresa italiana. isso tudo porque acho olivetti parecido com Melitta, Walita, Mesbla e Caravagio, todos italianos de nascença, salvo equívocos de minha vasta erudição em história da Renascença e marcas afins.

A sétima máquina terei que declinar o nome, porque está passando por uma revisão e lubrificação, igualzinho ao que a turma faz nos carros. Meu amigo cobra R$ 20,00. A máquina fica uma jóia, tinindo, só falta escrever sozinha. Só irei buscá-la na quarta-feira, e não vou segurar a crônica de hoje só por causa de um nome. Meus leitores não são tão obsessivos-compulsivos assim, apesar de nem todos serem bons do juízo.

A rainha

Falta a oitava máquina, a rainha do meu afeto, uma remington 15 (eu queria saber quem escolhia o número das máquinas de datilografia, em tempos remotos). É creme, simples, discreta e um pouco dura, sinal de que aguenta o tranco. Também é portátil, com uma tampa que encaixa.

É a máquina mais importante da minha vida, pelo motivo simples, óbvio e evidente da importância de qualquer coisa - ela me acompanha desde 1987, quando vim de Fortaleza, para me tornar recifense.

Não lembro onde a comprei, mas isso nem é o mais importante. Sei apenas que foi minha companheira fiel, nos anos que eu aguardava a primavera, no apartamento 312, da Casa do Estudante Universitário (CEU). Nela, escrevi artigos os mais diversos, que colocava semanalmente no mural da Casa, falando sobre coisas que eu discordava, arrancando muitas vezes artigos irados de resposta e desafetos que seriam sanados somente muitos anos depois. Os textos me levaram para o olho do furacão, e num desses desatinos do destino, acabei presidente da CEU, naquele louco ano de 1991, não sei como sobrevivi.

Foi nesta raçuda máquina que escrevi os trabalhos do curso de Educação Artística (UFPE) e Jornalismo (Católica). Os trabalhos do mestre João Dênys, do adorável Ricardo Bigi Aquino. Foi nela que escrevi uma peça inteira, madrugada adentro, no banheiro da CEU, para não acordar meus amigos de quarto. Era um trabalho de Marcos Camarotti, uma peça infantil sobre uma formiguinha, feita a partir de pedaços de diálogos dos colegas de turma. Por sinal, gostaria de saber por onde anda a Suzy, minha grande amiga de licenciatura, jamais concluída por causa de três disciplinas, foi mal, Borromeu.

A mais tarde, coloco a segunda parte. Agora deu um cansaço nos dedos. Não saia dai. Aliás, saia, mas volte.

Só para lembrar:

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Quatro ingressos

28 de julho de 2008, às 9:03h por Samarone Lima

Estou mais uma vez na estrada, acompanhando as aulas-espetáculo de Ariano Suassuna. A cidade é Garanhuns, faz um frio danado e chove. Já entrei no teatro, falei com a produção, está tudo pronto para começar. Saio para ver o movimento do povo e encontro uma amiga. Ela está com quatro ingressos a mais. Os filhos não foram para o espetáculo, que será com o violeiro Oliveira de Panelas.

Pego os quatro ingressos e saio à procura de convidados. Serão os meus convidados para a aula.

Vou a uma barraca, duas senhoras não podem sair, por causa das vendas. Vejo uma moça, pergunto se ela quer ir, ela diz que sim.

“Não dê a ela não, meu filho, que ela tem problemas mentais”, me diz uma das senhoras.

Achei que era mais um motivo de dar o ingresso.

“Ela pode ter convulsões”, completou.

E daí? - foi o que pensei. De perto, ninguém é normal mesmo…

Dei um ingresso, a moça ficou muito feliz e entrou. Seu nome é Mariana de Sousa da Silva, 37 anos. Chamo moça porque ela parecia uma moça. Ao final do espetáculo, fui ao seu encontro.

“Tudo que ele falou, eu gostei. Já o violeiro, aí eu amei”, disse.

A mãe disse que a moça fica na APAE de manhã, mas não estuda. Disse que ficou “muito preocupada”, com esse negócio de ela assistir um espetáculo, com os problemas que tem.

Outros dois convites foram entregues a seu Evair de Souza, de 43 anos, e Bruno Duarte da Silva, de 16. Evair é o pai, Bruno é o filho. Os dois são pipoqueiros. Deixaram o carrinho com uma mulher. O pai voltou maravilhado.

“É uma cultura que a gente tem, e espero que nunca se acabe”.

Ele perguntou se o espetáculo vai para Pesqueira. Eu estava sem a lista, mas tinha quase certeza de que haveria espetáculo na cidade.

“Se Deus quiser, se ele for a Pesqueira, estarei lá”.

O filho, que está na sexta série (com 16 anos, Bruno!), me disse que depois da aula ficou “gostando mais do Brasil”. Ariano iria gostar de saber disso.

O último ingresso foi entregue a “Bacalhau”, um famoso torcedor do Santa Cruz. Ele desapareceu na paisagem, após a aula. Fica por isso mesmo.

Da aula, guardei uma comparação que Ariano fez com um poeta da arquitetura, Manoel de Lima Flores.

“Cada obra minha é um caco, que vai se juntando aos cacos outros”.

A humildade desse homem é uma oração.

ps. na quarta-feira, dia 30, a aula-espetáculo será na Colônia Penal Feminina do Bompastor. Quase 600 mulheres presas terão direito a duas horas de poesia e beleza. Estarei lá, buscando meus adoráveis anônimos

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Geografias

22 de julho de 2008, às 14:08h por Samarone Lima

Estou aqui numa lan house na Conde da Boa Vista (R$ 1,00 a hora), reparando os email. Há pouco, uma mulher sentou ao meu lado e ligou para o marido, dizendo que foi despedida hoje. Silêncio.

“Vem aqui, pro Beco da Fome, que estou numa lan house”.

Silêncio.

“Beco da Fome, menino. Fica ao lado”.

Por hoje, é o suficiente.

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Instantâneos

21 de julho de 2008, às 15:05h por Samarone Lima

Escutar histórias e escrevê-las é meu passatempo predileto. Sempre que alguém chega com alguma, aguço o ouvido e presto bem atenção. As melhores histórias precisam mesmo de ouvidos atentos.

Pois bem. Faço uns trabalhos para a Secretaria Estadual de Saúde, e adoro encontrar Dona Maria. Há pouco, entreguei uns doces de leite que trouxe do Sertão, ela achou o máximo, e me disse algo que anunciaria uma boa história:

“Nem te conto o que aconteceu comigo semana passada…”

Oba, foi o que pensei comigo. Parei tudo, peguei um café e perguntei o que tinha acontecido.

Dona Maria explicou que teve um enterro, semana passada, da avó do filho de alguém. A mulher, de oitenta e tantos anos, morreu quarta-feira na Paraíba, só que era nascida no Recife. Para enterrar a pessoa, informa Dona Maria, só com o atestado de óbito. O atestado, por sua vez, só com a certidão de nascimento. Meu deus, até para morrer o mundo anda complicado!

Liberaram o corpo, mas a família tinha que mandar a certidão de nascimento por fax. A mulher morreu na quarta, o enterro aconteceria na quinta.

O problema é que a família não encontrava a certidão. Dona Maria estava na comissão do enterro. Se não estava, acabei de nomeá-la.

O negócio foi ficando enrolado, enrolado, Dona Maria cada vez mais aflita, o enterro foi repassado para a sexta-feira.

“Foi um côco de roda danado”, disse Maria.

Por uma sorte do destino, o negócio foi resolvido na tardinha da sexta-feira. Só que já era 17h30, e os coveiros já estavam indo embora. Dona Maria foi conversar com a administração do cemitério, jogou argumentos diversos.

“Eu fiquei tão angustiada, que nem pensei”.

O enterro aconteceu somente ao anoitecer, dois dias depois do óbito.

Uma coisa chamava a atenção - a alegria com que ela contava a história. Um enterro tinha se tornado uma grande aventura. Dona Maria comeu os docinhos que eu trouxe, ficou fazendo aqueles “hummm”, que a gente costuma fazer, quando gosta muito de alguma comida, e fica fazendo coisas de crianças. Terminei de tomar meu café e voltei para trabalhar, após boas gargalhadas. Achei ótimo escutar uma história, no início da tarde.

Em Triunfo, semana passada, um sargento aposentado da PM me explicou o motivo de a cidade ter tantos doidos. Sua teoria envolvia o frio e o excesso (ou a falta) de sexo. Foi uma ótima conversa, ao sabor de uma cerveja.

Depois escrevo sobre isso.

Sugestão de leitura: “Caos Calmo”, de Sandro Veronesi.

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Assim começou a guerra (lembranças)

19 de julho de 2008, às 13:16h por Samarone Lima

Escrevi esta crônica quando começou a guerra dos Estados Unidos contra o povo iraquiano, já nem lembro a data.

Não sei o motivo, mas hoje resolvi publicá-la. Talvez seja porque ando muito sobre as guerras naquela região, o impressionante “A Conquista da Civilização”, do Robert Fisk.

***

Era uma noitinha bucólica, com os pais trazendo filhos das escolas em bicicletas e cães vagando à procura de algo. Na mercearia de seu Vital, as vendas de sempre - pão, big-big, geladinho, vassoura, pedaço de charque, queijo, os primeiros pedidos de cerveja ou os “quartinhos” alvissareiros. Encontrei os amigos para um cafezinho, e começamos a conversar nossas besteiras de sempre, quando alguém lembrou que em duas horas, no máximo, iria começar a guerra de Bush contra o Iraque, era preciso buscar uma TV.

 

Ficamos a imaginar como seria uma cidade sendo bombardeada. Trouxemos isso para nossa realidade. Aviões norte-americanos soltando bombas poderosas em cima da Igreja de Nossa Senhora da Saúde, destruindo casarões, vilas, a venda de seu Vital, nosso campinho de futebol. Pensamos nos amigos e crianças que morreriam e deu até uma tristeza, mesmo que momentânea, imaginar essas criaturas - que são quase nossos filhos também, de tanta ternura nos abraços, de tantos sorrisos - mortas inocentemente.

 

Começou a chover e nossa filosofia do anoitecer foi interrompida por uma explosão que veio dos céus. Corremos todos para dentro da mercearia de Vital e súbito, a escuridão chegou ao Poço da Panela. Houve um curto-circuito e a fiação elétrica começou a estourar, fazendo um barulho enorme. Enormes clarões manchavam a noite, e ficamos parecendo uns patetas desarmados na trincheira de Vital, tentando encontrar uma saída. Dona Beata, que estava na rua, estremeceu. Marcos Careca saiu à procura de fios no chão, para vender mais tarde.

 

Muitas horas depois, descobrimos que uma árvore tinha encostado nos fios, provocando aquela onda de estouros, que se alastrou pelo quarteirão inteiro. Seu Vital disse, com os olhos arregalados, nunca ter visto aquilo em 33 anos no Poço. Ficamos na escuridão completa, e para relaxar, sentamos e pedimos um “Detergente” (bebida produzida por vital, com cachaça, mel e limão). Acendemos velas e fomos relembrar tudo, exagerando um pouco a cada minuto.

 

Acho que foi neste momento, enquanto estávamos rindo à luz de velas e tomando uma aguardente com cajá, que começou o bombardeio ao Iraque. Alguém lembrou novamente, e nossa impotência permitiu pouca coisa, além de um brinde à paz e votos de que os norte-americanos entrassem pelo cano. A guerra nos encontrou com a pouca mas suficiente luz das velas.

 

Horas depois, quando a Celpe começou a reparar o estrago, ficamos na calçada tomando um vinho e ralhando com preço de nossas contas de eletricidade. Renata providenciou um colchão para Lucas e peguei minha cadeira de balanço. Grão de Bico começou a recitar seus belos poemas.

 

Era era uma noite de lua cheia, e ali no Poço, a paz estava em cada olhar, cada gesto, no sono inocente de Luquinha, em nosso impotente desejo de que as bombas sobre o Iraque fossem apenas um sonho ruim, que a guerra tão desejada pelos norte-americanos, por algum milagre, não passasse de um curto-circuito, uma falta de luz. Foi pouco, mas foi tudo o que desejamos.  

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