Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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O monge poeta ou o poeta monge.

9 de janeiro de 2018, às 16:19h por Samarone Lima

Estava no bar de Peneira, nos Quatro Cantos, aquele vento perpendicular atravessando o salão, tomava minhas habituais notas, amparado por uma mesa que dava com a vista para a Ladeira da Misericórdia, quando levantei a vista e me deparei com um sujeito com um rosto ainda não visto, nas minhas andanças por Olinda. Ele soltou a pergunta intimidadora:

“Você é poeta, não é?”

Antes eu ficava em dilemas emocionais, mas melhorei.

“Sou sim”.

“Como é teu nome?”

“Samarone”.

“Ah, li um livro teu”.

Bem, começou por aí, conversamos um pouco de mesa para mesa, até que me aproximei, estendi a mão e ele me disse o nome – Tito.

Estava bebericando uma cerveja. Disse que também era poeta e tinha publicado um livro, pela editora edith (assim mesmo, com minúsculas). Depois disse que era monge.

“E monge bebe?” – perguntei.

“Hoje tenho permissão para sair”, foi tudo o que ele disse, respondendo parcialmente ao meu comentário nada a ver.

Conversamos mais um pouco, ele demonstrou uma imensa paixão pela poesia, depois segui minhas perambulações habituais.

No dia seguinte, tinha um livro que alguém deixou no sebo (isso tem acontecido sempre). Passei a mão em cima, limpei, e vi o título – “Digitais do Caos”, de Tito Leite. Olhei a foto na orelha e confirmei – era ele, o monge.

Fui ler. Muita coisa boa. Bons ventos poéticos, soprando no mosteiro onde ele está abrigado.

Vejamos o poema “Jardim da existência”.

“A existência tem decotes de Eva.

Uma obra original

precede o veneno.

Amo todos os sentimentos

que burlam a minha fé.

Sou um mistério desnaturado

a esmo no silêncio

dos minérios”.

Estou lendo devagar, tomando notas. O monge e poeta tem umas coisas novas e instigantes, vale à pena ter o livro por perto.

Convidei-o para o projeto “Poetas de Sexta”, aqui no Sebo Casa Azul, mas ele só recebe o passe-livre aos sábados. Quem fornece o passe é o Abade. E se trocar o sábado pela sexta-feira, foi o que pensei, mas é melhor ficar quieto, só a palavra Abade já deixa o cara preocupado.

“Uso sapatos

de chumbo para o vento

não me roubar”.

Tem um bocado de coisa boa, densa, umas arriscadas diferentes.

“A alma de um artista

tem partituras de lâmpadas”.

Depois fui olhar a orelha do livro. Tem poucas informações. Aparece quatro vezes a palavra “Filosofia”. Parece que ele gosta da coisa. Preciso apresentá-lo a outro santo Monge, o professor Zeca, o J.C.Marçal, ou Kiko, depende do lugar e do entorno.

Logo na abertura do livro, na parte “Enciclopédia do Caos”, há uma citação de Martin Heidegger, que Zeca lê desde os tenros sete anos:

“Por que simplesmente o ente e não antes o nada?”

Uma pergunta que levarei a eternidade inteira para entender, muito pior para responder. Zeca teria iluminações, falaria duas horas e meia explicando a hermenêutica da pergunta, se é que existe isso.

Ele cita também Baudelaire. Bingo. Os dois vão filosofar até Peneira dormir e acordar dezenas de vezes.

Descubro que o poeta-monge nasceu em Aurora,mesma cidade que o meu pai, José Vicente.

Essas coisas da vida.

Vai um trecho de “Desregramento do ser”:

“A beleza de um sentimento corresponde

ao seu risco.

Insurgem ecos de uma explosão paradisíaca:

a minha inquietude quer sê-la.

Sou como Empédocles,

sigo o que acredito

até a cratera de um vulcão”.

O cabra se garante.

Vamos ver se sábado que vem ela recebe o passe livre novamente. Vou levar Zeca, para os dois filosofarem até o anoitecer.

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Balanços

24 de dezembro de 2017, às 0:54h por Samarone Lima

No final de ano, há uma pressão psicológica, midiática, quase um circo meia-boca, para o sujeito fazer o balanço do ano, jogar o que não prestou pra fora e planejar o ano que vem na base do “tudo-vai-ser-lindo”. Ou seja: vai parar de beber, fumar, vai fazer menos besteira, vai ser meio Titãs, com aquele papo “deveria ter trabalhado menos, ter visto mais o sol se pôr”. Fiquei na dúvida se esse “por” tem ou não acento, mas depois que tiraram o acento de vôo, tudo é possível.

Eu acho isso de uma cafonice tremenda. Falo dos balanços e mudança de vida radical porque o “ano virou”.

Isso porque acredito em muitas coisas, menos que a passagem de algumas horas, entre o 31 de dezembro de um ano, e o dia primeiro do ano seguinte, vai mudar alguma coisa fundamental. O Temer vai estar lá, organizando seus jantares para arrancar nosso sangue. Os deputados federais de Pernambuco, que votaram contra o povo em todas as sessões, serão rigorosamente reeleitos.

Mas, como sou cafona, vai minha lista de alguns dos melhores momentos de 2017.

1. O professor J.C.Marçal passou em primeiro lugar no concurso da UFRPE.

O bicho é inteligente até umas horas e foi inventar de concorrer a uma vaga. Deve ser no curso de Filosofia, porque o homem é amigo intimíssimo de Heidegger. Tirou o primeiro lugar. Também pudera – o homem dá aula riscando na lousa os temos em grego, do mesmo jeito que faziam Platão e Aristóteles. Lembrar que um veio antes do outro.

2. Consegui alugar uma casa em Olinda, onde funciona meu sebo.

Foi um milagre digno dos melhores momentos da Bíblia. Isso aconteceu em março. O segundo milagre foi chegar ao final do ano com os aluguéis todos em dia.

3. No prêmios literários, fui um desastre.

Fiz uma seleção rigorosa dos novos poemas, deu 45 páginas. Inscrevi em quatro concursos nacionais, inclusive o daqui de Pernambuco. Os prêmios eram na faixa dos R$ 30 mil. Fiquei sonhando com as dívidas todas em dia, vinho bom, viagens, mas dei com os burros n’água. Nem menção honrosa descolei. Fica para 2018 mesmo. O pior é que gastei uma grana boa com xerox, correios etc.

4. Aprendi a postar vídeos no Facebook do sebo Casa Azul.

Sem comentários. Foi um avanço intelectual notável. O próximo passo será aprender a baixar músicas. Sempre, claro, com  ajuda de alguma criança de até seis anos.

5. Isabelitta chegou.

Minha gatinha veio em março e nunca mais saiu. Não tenho a menor dúvida que ela realmente gosta de mim. E vice-versa muito mais.

6. Mais um anos sem papos legais com Déa Ferraz, Emília e Pedoca Chupeta e outras criaturas de “primeira linha”, como diz Seu Vital.

Realmente, fica difícil a vida assim. Quase não encontrei essas pessoas amadas. Isso inclui Cacah Travassos, o velho e  bom Joab, o filósofo do Morro da Conceição, Naná (vi pouquíssimo, desde que me mudei), Seu Vital, Dona Severina, Bita e mais meio mundo de gente.

De Josafá eu não vou nem falar.

7. Este ano não fundei bloco de Carnaval, não lancei nenhum livro, não inventei de ser dono de bar, viajei pouquíssimo e fiquei quieto no meu canto.

Não sei se essa informação é boa ou ruim, mas fica o registro.

8. Praticamente não assisti TV e comprei jornal umas duas ou três vezes, ao longo do ano.

Nas vezes que comprei jornal, me arrependi.

9. Novos amigos brotaram em diversos canteiros: Helder, Vassoura, Erich, Pedro (galera do Sana Beer), Aloma, Dona Irene, Seu Mago, China, Cássio, Natasha, fora os amigos do Santa Cruz, que seguraram uma barra danada (o velho Inácio França, Tiago, Digão, Arthur, Cecília etc). Alírio, grande ser humano, queridíssimo. Sidney Rocha, Amigo do Sebo e dos Negócios, fez também sua parte com louvor.

10. Mais um ano sem carteira assinada. Do jeito que está minha carteira, eu só me aposentaria se fosse um japonês, desses que vivem 110 anos. Como o Temer deve ficar até o final do ano que vem, ele vai querer abolir a aposentadoria. Ou seja, não serei afetado.

11. Mais um ano com a velha dificuldade para comprar roupas.

É uma impaciência íntima. Ir a um local, escolher a roupa, provar. É quase tão chato quanto ir ao banco, ver a situação da conta, e escutar aquelas lorotas do parcelamento em 336 meses. E não sei que diabo existe no Brasil, que até para pagar, nas lojas mais caras (que não é o meu caso), você tem que pegar uma fila imensa.

12. Como em anos anteriores, os amigos seguraram a onda.

Em todos os cantos da minha alma, posso dizer – meus amigos são mesmo foda. Na verdade, estou repetindo o ítem número 9, o que significa “falta de assunto”, enchimento de linguiça etc;

Seguraram minha onda quando a situação apertou para todos os lados. Grana, perrengues da alma, me pouparam das festas de confraternização, me emprestaram dinheiro sem juros, deram conselhos fundamentais. O meu grupo de estudos foi absolutamente precioso. Cacimbinha me deu um vinho tão bom, que só vou abrir mesmo quando Ivanzinho for eleito governador, pelo PSOL. Vai ser uma loucura.

Aos amados leitores, Feliz tudo, em qualquer tempo.

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Vida de escritor

10 de outubro de 2017, às 4:49h por Samarone Lima

Fui fazer as contas literárias, deu três livros-reportagem (Zé, Clamor e Viagem ao Crepúsculo), quatro de poesias (A praça azul, Tempo de Vidro, O aquário desenterrado e A invenção do deserto) e quatro de crônicas (A “Trilogia das Cores”, em parceria com o amigo Inácio França e “Estuário – Crônicas do Recife”, em parceria comigo mesmo). Total 11 livros, por diferentes editoras, umas melhores, outras piores.

Francamente, está bom demais, para quem sempre escreveu em meio a redações de jornais, revistas, ou dando aulas, ou trabalhando para diversos projetos, desde sistematizador de tudo que é de encontro, especialmente de ONGs, a consultorias para o Unicef, e mais um monte de coisas que já fiz na vida, que de previsível não tem nada.

Aquele negócio idílico, do sujeito acordar, tomar seu café da manhã, dar uma caminhada, voltar para escrever, no sossego, dia após dia, para ir “construindo sua obra”, como se diz por aí, é bem diferente. Pelo menos no meu caso, só uma vez tive uma boa colher de chá, que foi quando fiz o mestrado, tendo o Clamor como tema da pesquisa, e consegui uma bolsa da Fundação Ford.

Era uma maravilha. Morando em São Paulo, estudando na USP, recebia U$ 750,00 a cada três meses. Na época, para mim, era uma pequena fortuna. Hoje, continuaria sendo.Tinha dinheiro para viajar, fazer pesquisas, não precisava me preocupar com eventuais cortes de água, luz, que costumam ser bastante inoportunos. Parece que em todo lugar do Brasil tem uma Celpe e uma Compesa, esperando aquela sexta-feira, às 16h49, para cortar sua luz ou água.

Os demais livros foram surgindo aos poucos, nunca houve planejamento. Eu vou escrevendo, escrevendo, escrevendo, e tem hora que aquele volume de anotações começa a se empolgar, achando que pode se tornar um livro. Agora mesmo, estou já com um calhamaço de novos poemas e todo dia fico dando uma namorada, penteando os cabelos, ajeitando, botando perfume. Quem sabe.

Como há seis meses virei dono de sebo, aqui em Olinda, pensei que a coisa ficaria mais mansa. Abrir o sebo, organizar livros, receber a clientela, fazer umas vendas e tocar o barco literário. Qual o quê!

É uma luta. Primeiro, porque muita gente olha, acha o sebo lindo, elogia o acervo, mas as vendas ainda estão bem baixas.

O que está compensando é que a casa é enorme, e tem aparecido um monte de coisas interessantes. Lançamento de livros (já foram três), leituras dramáticas de peça teatral (duas), peças de teatro (três), o Curso de Filosofia e Estética, do amigo e filósofo J.C.Marçal (daqueles com PhD e tudo o mais, amigo intimíssimo de Heidegger), e minha Oficina de Leitura Criativa e Escrita, aos sábados. Ah, teve também o encontro do grupo de leitura de mulheres, que discutiu a obra do Paulo Leminski.

Por enquanto, nada de aniversário, batizado, chá de fraldas, bodas de prata, de bronze, de isopor. Com a aproximação do Carnaval (aqui em Olinda, a doideira já começou), a turma da Minha Cobra já trouxe o estandarte e agendou a primeira festa. Seja o que Deus quiser.

Quando tem algum evento, tenho que divulgar, acertar os detalhes, ver se tem água para o povo beber, se paguei em dia as contas, para não faltar água na casa, nem energia. Faxina, eu mesmo faço. Gosto de ver a casa ficando bonita, cheirosa, botar flores, organizar o livro de visitas, dar umas cipoadas boas nas traças e terminar tudo com um incenso. É uma espécie de “faxinação”. Depois, exausto, tomo um banho, um café, à rede, e tudo fica bem bom para as bandas de cá. Quando o negócio aperta, vem o amigo Lucas e dá uma força.

Sim, mas onde eu estava mesmo?

Esse negócio de escrever sem um tema definido, deixa o sujeito meio distraído.

É que isso é uma mitologia, o “tempo para escrever”.  Quando quer, o sujeito escreve até em pé, dentro de um ônibus, vai anotando fragmentos. Eu mesmo já escrevi uma peça de teatro, na época da UFPE, no banheiro da Casa do Estudante Universitário (CEU), usando minha velha Remington. Para escrever, vontade é mais importante que o tempo. Inácio, meu velho amigo, escreveu a novela “Terezas” em meio a 12 mil trabalhos, 789 zaps por dia e outras demandas familiares.

A não ser que o camarada tenha pai ou mãe ricos (que não é o meu caso), ou tenha recebido uma fortuna de herança (que não é o meu caso), a vida de escritor é bem parecida com a de todo mundo. Paga contas na lotérica, compra comida para o gato, limpa o quintal. Se for vendedor, vender, se for motorista, dirigir, se for professor, dar aulas. Ir ao supermercado, pegar ônibus, receber uma penca de zap nada a ver (“Bom dia!”, “hoje e o aniversário da Lorena!”, aquela chateação toda), e seguir. Só mesmo quem tem muita grana e tem gente para fazer isso é que tem tempo de sobra. Mas geralmente, quem tem muita grana e tempo de sobra não tem muito esse problema existencial de querer escrever romances, fazer teatro, pintar quadros etc.

A diferença é que, como eu vinha dizendo, de vez em quando, sai um livro novo, e a pessoa que ficou um tempão tomando suas notinhas secretas, sente aquela alegria antiga no coração. Se os leitores gostarem, então o céu fica bem pertinho, dá até para encostar os dedos nele.

Pelo menos comigo, é assim. Não é por acaso que minha nova coleção de poemas se intitula “O céu nas mãos”.

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Olindezas

17 de setembro de 2017, às 20:05h por Samarone Lima
Isabelitta cuidando das minhas leituras.

Isabelitta cuidando das minhas leituras.

No dia 12, completei seis meses como morador de Olinda. Hoje, enquanto faço essas anotações, a cidade ferve, com maracatus e frevos se espalhando pelas ruas, especialmente no Carmo e imediações. Aqui, na rua 13 de Maio, onde moro, o silêncio quase absoluto só foi interrompido pelo velho e bom John Coltrane. De vez em quando, boto o “mute”, ele deixa de tocar seu saxofone e fico desfrutando do silêncio, este amado amigo de tantos anos.

De minha parte, só vou sair daqui mesmo se me obrigarem. E só saio para morar em Montevidéo. Olhei agora de novo o contrato, esfreguei bem os olhos e está lá a data de vencimento: 15 de setembro de 2019. Como tenho sido um bom inquilino (e a dona da casa é tão tricolor, que o sobrenome é Arruda), creio que a estadia vai prosseguir.

Mas vamos ao momento presente, à vida presente – aqui estou tocando minha vida, tocando “Meu Sebo, Minha Vida”, escrevendo bastante e aprendendo a viver numa cidade cheia de mistérios e surpresas.

Uma das muitas surpresas boas foi a chegada de Isabelitta, a gatinha que eu sempre cumprimentava, quando passava na esquina aqui perto. Ela se derretia com meus carinhos, depois passou a se aproximar e um dia entrou de vez, para nunca mais sair. Foi amor às primeiras patas. Ela foi ficando, ficando, até que tivemos uma conversa franca, vi que ela queria se mudar em definitivo, então comprei ração e botei água. Ela tem se especializado em participar de todos os eventos da casa. Em peças, entra na cena e se instala. Nos lançamentos de livro, pode ser vista em cima da mesa onde está o autor, discutindo sobre sua obra. Na foto que separei para esta postagem, ela se debruçou na obra de Antonin Artaud. E ela gosta de vir deitar na minha barriga, quando estou à rede. Ela é demais mesmo.

Nos três meses iniciais, tive que fazer um intensivão para que minha janela não virasse um ponto de oferta de produtos os mais diversos, pedidos os mais variados, fora os camaradas que tiram fruta-pão dos quintais olindenses (aqui tem dois pés enormes).

Bastou comprar um berimbau de um sujeito (estava bem bonito, e ele pediu R$ 20,00 – comprei mais porque tinha vendido uns livros, e queria dar uma força). Nos dias seguintes, o sujeito apareceu com obra de arte, uns quadros meia-sola, até que chegou oferecendo um videocassete, então chamei ele na grande, expliquei que estava liso e não queria comprar nada. Ele tentou ainda outras vezes, mas quando é para ser chato, eu capricho.

Os dois sujeitos que foram aprovados para tirar fruta-pão acabaram depois barrados. O primeiro, um sujeito parrudo, incapaz de esboçar um sorriso até num descuido, tirou umas duas sacas de fruta-pão, depois veio com o filho e o tratava quase a pauladas. Queria vir quase toda semana. Não gosto de gente que é bruto com os outros. Abri a vaga com um sujeito mais velho, humilde, que vinha com dois filhos.

Era o contrário. O filho tinha ódio de alguma coisa e transferiu para mim. Entrava com o pai, queria passar a manhã inteira rapando o pé inteiro, tirando até os fruta que estavam verdes. Um dia o pai chegou com ele, eu disse que não podia, porque tinha que sair, escutei quando ele ficou me esculhambando, junto ao pai.

Depois desses breves problemas, a época do futa-pão acabou e acabou sendo bom pra mim. Além disso, eles, por mais brutos que sejam, têm que subir numa altura imensa, eu fico preocupado com algum acidente.

Mas já fiz a minha base. Já tem o mercadinho da minha preferência, no Largo do Amparo. Lá tem também a ração que Isabelitta gosta, a “Max Cat”. Não sei o motivo, mas toda ração acha que nossos amados animais falam inglês. Ao lado, tem um restaurante com uma sopa que se garante, bem quente. No caminho entre o Amparo e a minha casa, tem uma vendinha improvisada, numa casa, que você pode comprar até 22h, basta apenas tocar uma campainha.

Quando estou melhor de grana, vou comprar o pão integral na Chiviteria, da amiga Chivi, na rua de São Bento. Tem meio mundo de coisas deliciosas que ela faz. Na Gráfica Rápida do Varadouro, imprimo as minhas coisas para fazer as correções, porque só consigo ler coisas de verdade se elas estiverem no papel. Mas papel de verdade, daqueles que a gente pega e sente o papel, e risca em cima de trechos ruins, corta poemas ruins, depois encaderna, leva pra todo canto etc. O dono se chama Galego. Perto de Galego tem um restaurante com almoço a R$ 10,00 – generosamente servido. Ao lado do restaurante, tem a barbearia do seu Lula, onde cortei os cabelos há uns quatro meses, mas o negócio foi tão brutal, que ele cortou o próprio dedo.

Mas o que me encanta mesmo, além da cidade, é a beleza do povo de Olinda. Há uma forte presença negra, uma alegria diferente, que é daqui. Um riso mais aberto, mais livre, eu não sei o que é direito – e essas coisas a gente não precisa entender mesmo, só sentir. Muitas vezes fico com uma mesinha na parte inicial da casa, escuto as pessoas passarem conversando. É cada diálogo incrível. É meio difícil não encontrar inspiração por aqui. Tenho escrito menos no Estuário porque é um trabalho danado, mantes a Casa Azul organizada e limpa para os eventos.

Outro dia, um corretor de imóveis veio falar comigo. Era para “alugar no Carnaval”. Contou as vantagens, as loas e boas, que eu iria ganhar tanto, e eu só olhando. Falou uma meia hora e eu pensando comigo – mas rapaz, eu passei a vida toda vindo para Olinda como visitante, para alguns jantares na Creperia ou cervas ocasionais, no Carnaval era sempre aquele sujeito a mais que entupia as ruas da cidade com sua imensa cabeleira, e agora que estou morando na cidade, que vou poder passar um Carnaval aqui, como morador, eu vou simplesmente sair e deixar uma galera ficar aqui?

E meus livros, e o cuidado que estou tendo com a casa? E o jardim, que estou começando a plantar no quintal? E Isabelitta? Pra onde vai tudo isso?

Deixei ele falar, falar, falar. Já passei por tanto aperto na vida, nunca me movi por essa gana por grana, perdão pelo trocadilho infame, vou é ficar por aqui mesmo, para ver a loucura passar pela rua. Como sei que até dezembro a conversa vai ser a mesma, acho que vou botar uma placa logo – “Não aluga-se esta casa para o Carnaval”.

Outro dia lembrei de dois detalhes interessantes. Um dos meus primeiros trabalhos como estagiário foi no jornal “O Farol”, aqui de Olinda. Fiz algumas matérias, creio. E quando voltei de São Paulo, em 2000, após seis anos, cheguei a apalavrar uma casa em Olinda, não lembro direito onde. Mas a dona farrapou e acabei indo morar no Poço da Panela, que foi uma coisa maravilhosa.

Então, 17 anos depois, eu cheguei. Eu sou assim mesmo, sem pressa com as coisas. Meu objetivo na vida é ir cada vez mais devagar (apesar de gostar de correr, de manhã). Estou chegando mansamente, amorosamente.

Como nas sextas-feiras à noite temos tido recitais de poesia aqui no Sebo, tomei uma decisão meio ousada – na próxima vou fazer uma leitura dos originais do meu novo livro de poesias. Mas eu não sou homem de recitais. Só sei ler meus poemas, e às vezes me engasgo, quando me emociono. Vamos ver no que vai dar essa leitura.

Eu tinha outra coisa para escrever, mas esqueci agora. Fica para outra crônica.

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No instante em que se vive (texto que não termina nunca…)

13 de agosto de 2017, às 8:21h por Samarone Lima

Largo do Varadouro,  Olinda, domingo à tarde

Venho do Recife, fui ver umas coisas da Biblioteca Comunitária do Poço da Panela, com Gerrá. Desço na parada antes do Varadouro, onde tem um bom galeto assado na brasa, aos sábados, domingos e feriados. Custa R$ 12,00 e ainda dá direito a um saquinho com farofa.

Chega um sujeito malamanhado, sem camisa, a dona do negócio desenrola pra ele duas toscanas assadas. Ele puxa um pão sabe-se lá de onde, aperta aquelas maioneses de saquinho e começa a comer com avidez. A filha da mulher (acho que é a filha) pergunta se ele andou “se metendo em treta”. Creio que já se conhecem de outras estradas.

“Matei um cara ontem”, diz ele, enquanto mastiga. “Só me liberaram para comer, porque minha família está na Delegacia”.

A delegacia fica a trinta metros de onde estamos.

“Tu vai descer?”, segue a moça.

Descer é sair direto para o presídio, especialmente o Cotel.

“Tão vendo lá”.

“Tu já tem passagem?”

“Eu já tenho uma queda lá”.

“Qual foi a bronca com o cara”?”, pergunto, enquanto a mulher corta meu galeto.

“Um safado. Aquilo era um safado. Merecia”.

Estava com a mão direita ralada. Tentou fugir, quando a polícia chegou.

“Livrasse o flagrante?”, sigo.

“Sei não”.

“Olha seu galeto, bênção”, diz a mulher.

Pago, ele limpa a boca e volta para a delegacia.

**

Largo da Encruzilhada, Recife, 16h30.

Espero o Rio Doce/Dois Irmãos ou Rio Doce/CDU, para voltar a Olinda. O horário é meu limite. A partir das 17h, os ônibus só passam lotados. A parada de ônibus, de tão precária, fica sendo na avenida mesmo. Há muitos velhos esperando.

Um deles, com uma sacolinha de supermercado, está impaciente, irritado. Seu ônibus não passa. Ele então solta um desabafo irritado:

“Tenho nojo do Brasil. Nojo!”

Silêncio geral.

“Tenho nojo deste País! Se eu pudesse, me mudava pra qualquer lugar, mas não tenho dinheiro. Tenho é nojo!”.

O silêncio é profundo. Era algo visceral.

Meu ônibus aparece e não sei como seu desabafo terminou.

**

Ônibus Rio Doce/CDU, rumo a Olinda. Noitinha.

Uma mulher gorda, de voz potente e conversadeira, conta à amiga como foi a morte do marido, num acidente de moto, uma curva malfeita, a queda num descampado. O ônibus todo acompanhava, tal era a riqueza de detalhes.

Viúva, ela passou por inúmeras dificuldades, porque não tinha nada assinado com ele, com quem viveu um ano.

“Nessa hora, o que faz falta um papel com uma assinatura… No começo foi difícil. Qualquer barulho na porta, eu achava que era ele voltando pra casa. Isso é o psicológico da pessoa, que fica imaginando. Eu sentia o cheiro dele dentro de casa. O psicológico da pessoa é muito forte”.

Voltou a falar do acidente.

“Eu vivia dizendo pra ele ter cuidado com aquela moto, mas ele era daquele jeito dele. Eu sei que tem aquele velho ditado, que todo mundo tem o seu dia, mas as pessoas, às vezes, apressam a morte”.

**

Onibus Rio Doce/Dois Irmãos, voltando para Olinda, umas 22h.

Sento ao lado de uma senhora. Deve ter uns 55 para 60 anos, tem uma roupa simples, florida, uma leve olhada para seu rosto revela um profundo cansaço, uma quase exaustão, como grande parte das pessoas que trabalham o dia inteiro e dependem de transporte coletivo.

Ela cochila, mas acorda ao toque do celular. Alguém fala sobre sair para algum lugar, pelo que percebi, e também é sexta-feira.

“Ah, minha filha, a gente não tem mais esse negócio de dinheiro para sair não. Esse negócio de passear é coisa do passado. Não é para a gente não, é pra quem pode”.

Ela escuta a pessoa falar, possivelmente insistindo,

“Não dá pra gente. Sem dinheiro, a gente vai pra onde, Adelaide?”

**

Rua 13 de maio, 121, defronte à minha janela.

Tuite, um camarada que passa o dia andando pelas ruas de Olinda e falando sozinho, veio aqui à janela e pediu uma camisa. Ele fala assim, direto:

“Ei, me arranja uma camisa!”

Eu já vinha separando umas roupas para doar, peguei uma preta que é bem legal e protege no frio.

Ele agradeceu e no dia seguinte vi que estava usando.

Ontem de manhã bateu palma.

“Tem alguma comida?”

“Rapaz, por enquanto só tem fruta”.

“Ôx, fosse ao menos uma fava com um guisado”, respondeu, e foi embora, visivelmente contrariado.

**

Ônibus Alto Santa Isabel, vindo do Poço da Panela para a “cidade”, como se diz popularmente.

“Mas também, minha filha, só podia estar com depressão mesmo”, diz a cobradora, com uma amiga, que está ao lado da borboleta. Sei que o nome é catraca, mas borboleta é mais poético.

“A pessoa ser assaltada oito vezes nessa cadeirinha aqui, não é fácil não”.

“Oito?”

“Ou foi oito ou foi nove. Tá em casa, com depressão, a coitada”.

“É lasca…”

“O pior é que todo assalto levavam o celular dela. Celular eu sei que foram oito”.

“Misericórdia…”

**

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