Dom Quixote e Quilombo
Samarone Lima
Fiquei sabendo há pouco, no meu novo trabalho, que o Recife teve duas gloriosas livrarias, nos anos 1970/80: Dom Quixote e Quilombo.
Funcionavam no Beco da Fome. Para mim, a metáfora perfeita: fome e livros. Naquela época, tínhamos a lendária Livro 7 e a Síntese, fora a Imperatriz.
Tenho saudades esquisitas, como a de passados que não vivi. Tenho saudades desse Recife que não conheci, porque só cheguei aqui em 1987.
Nunca frequentei a Dom Quixote e a Quilombo, mas pela descrição de Teca, deu para sentir o cheiro das páginas. Deu para ver a capa dos livros, feita por um ilustrador, com a imagem de Dom Quixote. Julgo que tinha Sancho junto, porque um não vive sem o outro.
Olhando bem, passamos por uma devastação cultural sem tamanhos. As livrarias do centro fecharam, deixando uma cicatriz na cidade. Ao centro, restou o comércio, a reles compra e venda de tudo, menos livros.
A única nota boa vem da Poty, que vai se transferir para o local da antiga Síntese. Como acredito nas conspirações divinas e humanas, penso que finalmente teremos uma ótima livraria do lado de cá do Capibaribe. Do lado de lá, está a imensa Cultura, que vai muito bem, obrigado. Mas lá não chegam os cobradores suados, os trabalhadores do comércio, o vendedor de seguros, que está cansado de um dia daqueles. São outros leitores.
Precisamos de livros no Beco da Fome, nos córregos, altos, morros do Recife.
Imagino a pessoa nesses dias quentes de dezembro, comprando presentes para o filho, o sobrinho, o namorado, a esposa. De repente, esbarra em uma baita livraria, resolve entrar. Surpresa, descobre que aquele livro tem a cara de fulano. No setor infantil, aquele livrinho que é a cara da Maria, filha de seu Herculano. Volta pra casa de notinha, naquele trânsito insuportável da Conde da Boa Vista, passando a vista em alguma história. Por acaso, gosta de uma, dá umas risadinhas secretas.
Súbito, olha para os lados. O ônibus está lotado, mas ninguém lê sequer um jornal.
No caminho de casa, descobre que gostou do livro, e quer mais.
Já tive dois bares, dois enganos fatais. Deveria ter tido duas livrarias, isso sim. Uma se chamaria Dom Quixote, outra Quilombo, só a título de homenagem. Uma no Beco da Fome, outra no Poço da Panela, claro, que ninguém é de ferro.
Postado em Crônicas |
7 Comentários »





