Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Mínimas e desnecessárias

13 de fevereiro de 2009, às 13:37h por Samarone Lima

Falta ao velho cronista tempo e calma para um novo texto. Se os bons ventos soprarem, algo surgirá, até amanhã.

Mientras tanto, vai um pouco da minha coleção de frases mínimas e desnecessárias.

“…pois eu plantei um cachorro”.

(Gabriela, ao escutar que eu tinha plantado árvores e lançado livros)

“…eu sou assim… eu gosto de ajudar… me dê um real, que eu trago até nota fiscal pra você”.

(Numa parada de ônibus)

“Da vida não levo nada”.

(Boy, ao receber uma reclamação da mulher, porque estava bebendo muito)

“A caridade começa no lar”.

(De um livro sobre o Sufismo)

“Igor, guarde isso, guarde isso, que se você não guardar, vou ligar para o seu pai”.

(Conversa pedagógica de mãe e filho, numa sapataria no Cabo)

“Quem decide o que você ama?”

(Evaldo Costa, jornalista, explicando seu amor pelo Santa Cruz)

“Ela tem que fazer uma transfusão de sonhos”.

(Essa é minha mesmo, sobre uma amiga que só falava de fracassos e derrotas)

“Todo mundo tem os sete anões dentro de si”.

(Lemingue, um amigo)

“E quem perde a alegria, esse, para mim, é um homem que não vive: é um cadáver animado, nada mais”>

(Mensageiro de “Antígona”, a mais bela das tragédias gregas)

“O que é que dura? Apenas aquilo que tem razões para recomeçar”.

(Bachelard)

 

Nota carnavalesca

Informo que o ex-moribundo Iramarai Vilela recebeu alta ontem, e que será coroado o sétimo rei Barba, em cerimônia festiva no Poço da Panela.

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Problemas no reinado

9 de fevereiro de 2009, às 16:19h por Samarone Lima

A Troça Carnavalesca Mista “Os Barba”, a mais desorganizada de Pernambuco, passa por um problema grave – o novo rei, eleito há pouco mais de quinze dias, amarga a internação no Hospital Agamenom. Uma fisgada no coração, uma troca de aceleração, e o velho Iramarai entrou de molho.

A celeuma está infernal. Amanhã, o futuro rei vai fazer uma ressonância magnética ou algo do tipo, mas o médico já deu a sentença:

“Carnaval nem pensar”.

Visitei meu amigo há pouco. Ele encheu o saco com “O amor nos tempos do cólera”, e vou ter que providenciar os livros de Leonardo Boff, que ele adora.

Maraí acha que não vai ter problemas para assumir o reinado.

“A gente bota uma web cam aqui no hospital, e um telão na frente de Seu Vital, e assumo o reinado”.

Há muitas controvérsias. Uma reunião urgente do conselho dos reis barbas vai definir o assunto. Por fora, corre a boca miúda a possibilidade de empossarmos o vice-rei, Guga Mota, que obteve 18 votos na votação festiva em Vital.

Luís Diazepan, atual rei, andou abrindo a plumagem, insinuando que poderia dobrar o mandato, mas foi amplamente rechaçado.

É só o que se fala no reinado. O próximo rei. O risco de Maraí ser liberado amanhã e tentar ser empossado, é que ele se emociona muito com as coisas. Já pensaram um piripaque em pleno Carnaval?

Tem coisa que é emocionante, mas é triste.

Aguardemos as batidas do coração e o andar da carruagem.

Nota da Troça

Amanhã (quarta-feira), a partir das 18h22, será aberto o varal com as novas camisas da troça mais desorganizada de Pernambuco. A venda será destinada ao pagamento da orquestra e outras lorotas. Dizem que as camisas deste ano ficaram lindas, graças à contribuição de vários artistas plásticos. Não fui informado sobre o preço.

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Angina Pectoris, ou Poliesculhambose

4 de fevereiro de 2009, às 13:00h por Samarone Lima

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Recebi o telefonema avisando que Iramarai estava internado no hospital Agamenom Magalhães. Já passei milhões de vezes defronte ao Agamenom, que é caminho para o Poço da Panela, e perguntei onde ficava o Agamenom. Freud explica – ou Emília explica.

Dores no peito. Isso não me cheira bem. O velho malandro caiu do cavalo, justamente no dia em que o Santa Cruz completa 95 anos. Não me venha estragar a festa.

Chego ao hospital. Para minha surpresa, nada do caos que sempre anunciam. O malandro sentado numa cadeira, ao lado dos filhos e simpatizantes em geral. Colho informações com o clâ Andrade Lima: Bebeth e Tânya. Dr Cyro faltou, não sei o motivo, deve ser o templo que está concluindo.

Teve dores no peito, os lábios ficaram dormentes, formigamento no pescoço, em direção à boca. Angina Pectoris, avaliou a junta médica dos Andrade Lima.

Desconfiadíssimo, Maraí parecia um menino que levou uma queda da bicicleta, na hora do recreio. Subiu para o segundo andar numa cadeira de rodas.

Tânya me falou de uma coisa médica que eu não sabia: poliesculhambose.

Macacos me mordam, isso é maravilhoso – o sujeito não tem um problema só, é uma poliesculhambose. Conheço tanta gente que tem isso, eu mesmo, por exemplo.

Subimos, o Agamenom é todo organizado limpo, quinze minutos antes chegou uma mulher já na beira da cova, fizeram um cateter, umas emergências, ela foi salva. Disseram que num hospital privado, demoraria umas quatro horas para o plano de saúde liberar o exame, a mulher hoje seria apenas lembrança. Aviso aos meus 17 leitores: se tiver dor no peito e formigamento nos lábios, vá direto para o Agamenom, que a turma lá é fora de série. Todo limpo, organizado e a turma é simpática pacas.

Botam fios pra chuchu em Marai, ele está meio com aquela cara de cachorro que caiu da mudança, e não sabe sequer o bairro. Damos uma força, mas nossa turma é meio divertida. Gostamos de brincar com a morte. Peço a ele para não fazer a desfeita de ficar muito ruim à noite, porque tem a festa do Santa Cruz. Além disso, temos umas três longas caminhadas para este semestre, depois daquela aventura até a Pedra do Reino, em São José do Belmonte.

À noitinha, é hora de ir embora. Ele pede um livro. Puxo da minha bolsa “O longo adeus”, de Raymond Chandler, mas a avaliação geral é que o livro não é o mais adequado para o momento. Eu e minha coleção de gafes. A filha chega com o bucólico “O amor nos tempos do cólera”, do Garcia Márquez.

Bebeth estranha que ele não tenha feito sudorese, eu não entendo nada, mas fica por isso mesmo.

Descemos. Faço uma cara bem triste, para assustar Carmem, sua esposa, que espera com a irmã. Tiro os óculos, para me fazer que estou chorando, vou pensando num soluço.

Não deu muito certo. Carmem estava ao celular.

O celular é um aparalho inoportuno, que vive atrapalhando as emoções.

Discordo totalmente da junta médica. Angina Pectoris nasda, Marai está mesmo é com poliesculhambose crônica.

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O menino

28 de janeiro de 2009, às 10:09h por Samarone Lima

Lembro que era janeiro de 1999 e que o albergue onde eu estava hospedado, há mais de um mês, parecia uma grande sauna, com gente de várias partes do mundo reclamando do calor em várias línguas. Haviam uns apagões de algumas horas, imprevisíveis, que me levavam ao desespero. Tinha que terminar um relatório de pesquisa do mestrado, e faltavam poucos dias. Resumindo: era um inferno.

Ser hóspede há muito tempo facilitava um pouco as coisas. A faxineira, por exemplo, era uma boliviana boa praça, rostinho redondo, e me ofereceu sua pequena casa para que continuasse minhas leituras. Ficava a dois quarteirões do albergue, e tinha dezenas de fotos de mulheres peladas. A boliviana gostava tanto de garotas, que morava com uma argentina.

Lembro que os donos do albergue eram uma mistura de francês com argentina ou vice-versa, e que tinham um filho de sete anos, mais francês que o Platini. O menino só falava de futebol, e eu falava francês igual do menino, graças ao curso da Funefor.

Não sei qual era o dia da semana que abri o Página 12 e vi a notícia do jogo mais esperado da semana. Era o Vélez Sarsfield contra o Racing, não lembro, só lembro que depois o Racing quebrou, e foi uma comoção no país. Olhei a nota no jornal, vi horário, local, e disse ao dono do albergue:

“Vou a esse jogo hoje à noite”.

O menino, chamado Laurent, pescou algo e perguntou ao pai. O pai, que não tinha pedagogia nenhuma, muito menos bom senso, disse ao menino que eu iria ao estádio. Isso na metade da manhã. O menino começou a me perguntar desesperado se eu podia levá-lo ao estádio. Em bom francês, a pergunta fica assim:

“Tu peux m’emmener au stade?”

Olhei para o pai, que ficou de conversar com a mãe, mas eu sabia que não tinha mais jeito. Aos 30 anos, sem filhos, depois de assistir jogos nos principais estádios do Brasil e da América Latina, teria que levar um menino francês, de sete anos, a um jogo na periferia de Buenos Aires. O Chilavert era o goleiro.

O menino passou o resto do dia dando saltos, sorrindo, chutando uma bola na parede, torrando a paciência dos gringos do albergue. Recebi dinheiro para passagens, ingressos, um mar de recomendações, conselhos e apelos, mas faltava aos pais o tino pedagógico para saber que não se manda um filho de sete anos, com um cearense cabeludo pouco confiável, para um jogo da Libertadores. Isso em Buenos Aires.

Fui com o Laurent. Pegamos dois ônibus, ele foi me perguntando tudo sobre Buenos Aires, mas nem com um guia eu teria respondido. Não lembro mais onde fica o estádio do Vélez, sei que a torcida argentina era igual à de hoje e de tempos imemoriais – um bando de loucos que não para de pular e gritar um segundo.

Ficamos na torcida visitante, do Racing, a minoria, porque não queria ver o francesinho virar baguete. A torcida do Vélez tinha a séria intenção de derrubar o estádio, usando a técnica de pulos ritmados, usando milhares de pessoas.

Quando o Vélez fez um gol, o francês vibrou. O estádio tremeu, e tremi, com medo da represália. Expliquei que o menino era francês, ficou por aquilo mesmo. Pouco tempo depois, o Racing (se não foi o Racing, fica sendo) empatou, e o menino vibrou muito. Tudo resolvido.

O Chilavert no estádio era imenso, e fechou o gol. O Vélez fez um gol no final, creio, mas o menino estava distraído e ficou achando lindo a torcida comemorando.

Terminado o jogo, saí do estádio, segurando a mão daquele menino simpático e perguntador, em meio aos milhares de torcedores. Ah, meu Deus, como eu queria ter uma superbonder, para grudar aquela menino na minha mão… Parecia meu filho. Comeu cachorro quente com refrigerante, estava eufórico com a torcida, perguntou quando era o próximo jogo. Menos, Laurent, bem menos.

Voltamos para casa, digo, para o albergue, e Laurent parou de fazer perguntas. Passou a dar aulas sobre futebol. Parecia mais um comentarista infantil de alguma mesa redonda.

Quando chegamos, os pais correram desesperados para os abraços, para saber se ele estava bem.

“Foi um jogo maravilhoso”, respondeu ele.

Os pais me agradeceram muito, disseram que eu era muito cuidadoso, que o Laurent tinha gostado muito de mim. Também pudera.

O restante dos dias no albergue, não mais que três, significaram apenas um movimento do meu amiguinho francês – bastava ele me ver, que se aproximava e perguntava quando seria o próximo jogo, se eu poderia levá-lo novamente. Eu não era mais um homem, um ser humano, era a personificação do futebol.

Não haveria a segunda vez. Os pais de Laurent não gostavam de futebol, tinham medo da violência, e eu iria embora para o interior da Argentina.

Lembro até hoje de seu olhar triste, muito triste, quando fui embora. Meses depois, sua mãe me mandou um email.

“O Lauren disse que foi o dia mais feliz da vida dele”.

Todo menino que foi ao estádio pela primeira vez, aos sete anos, sente a mesma coisa.

(Texto para uma coletânea sobre futebol, a ser publicado este ano, pela Editora Casa das Musas)

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Convergências

24 de janeiro de 2009, às 17:06h por Samarone Lima

Chego em Casa, no Cabo, falo com tia Flocely, Rosa, Renato, Shrek (primo de Renato) e Bam Bam (nosso amado vira-lata). Vou ao primeiro andar. Uma carta num envelope verde.A remetente eu não conheço pessoalmente – Ana Eliza. Mora na Barra, em Salvador.

Uma carta num envelope verde, em plena tarde de quarta-feira, é como um sol num dia nublado.

Surpresa. A carta foi iniciada dia 31 de outubro de 2008, e concluída na Cidade de Todos os Santos, a 9 de janeiro de 2009. A letrinha linda de dar inveja. Carta de frente e verso, com duas cores de caneta diferentes.

“O que dizer a você?”, pergunta Ana Eliza, depois de falar coisas de sua vida, uma cirurgia recente, enfim.

Diz que na carta queria me oferecer alguma alegria, “mínima e desnecessária”.

Amiga, na primeira página da carta, seu objetivo foi atingido.

Diz que tem sempre o livro “Estuário” por perto. Fez dele sua leitura diária, “lendo-as como quem tece junto com você o fio da história”. Ah, minha amiga, você tem alguns traços de poeta, como outros baianos que já conheci nessas minhas andanças…

Descubro que a carta viajou com ela até Belo Horizonte. Iria postar em Minas Gerais uma carta iniciada na Bahia, para um cearense que se enraizou em Pernambuco. Ana Eliza acabou ficando três meses com a carta.

Ela torce para que a carta chegue num dia de sol, num momento em que eu pensava no títudo da próxima crônica. “Quem sabe chegue junto com a manchete de que na Faixa de Gaza reina a paz, que israelenses e palestinos conversam amenidades e planejam a reconstrução dos dias”.

Ah, querida, como eu queria que seu desejo fosse realidade…

Estou aqui no Cabo novamente, e reencontro a prima Fabiana, que veio com tia Antonieta e a filha Thais, para o abraço em tia Flocely, que hoje marcou seus 82 anos.

Em meio às muitas conversas sobre a família, Fabiana me conta que estava  na praia de São Bento, depois de Maragori, e encontrou a Dora, uma amiga. Lá pelas tantas, alguém falou em Poço da Panela, e o assunto migrou para o Estuário.

Dora foi lá dentro e pegou um livro. Minha prima, que nem sabia dessa novidade, virou minha leitora. Ligou para Luís Júnior, meu outro primo, que mora em Brasília. Falou do livro. Ele também não sabia de nada, de formas que vou me organizar para divulgar meus livros pelo menos com a família. Pra variar, eu não tinha nenhum exemplar de Estuário comigo. De qualquer forma, valeu, Dora.

Há pouco, Thaís me mostrou seu Orkut, e vi fotos da família. As primas estão todas grandes. Fabiana pegou o endereço de estuário.com e meu email. Parece que todos agora vão ler, inclusive minha mãe, que recentemente inaugurou seu primeiro email.

Tia Antonieta tirou um lote de fotos, cantamos parabéns, teve torta de limão e refrigerante. Na falta de velas, improvisamos com palitos de fósforo. Na hora de assoprar, tia engastou, mas deu tudo certo.

Bam Bam é um animal cheio de artimanhas. Quando tem muita gente, ele fica amuado, sem querer muito papo. Hoje, foi até ao primeiro andar, ficar um pedaço comigo.

Ah, Das Neves também chegou por aqui. Contou suas lorotas, arejou o ambiente e deu no pé.

E todos acharam Dona Flocely ótima.

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